Instituto Histórico de Petrópolis
 24/09/1938
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31/07/2000
c78334220T21210210303131

Digitação utilizada para inclusão no site:
23/08/2012

Texto revisto segundo Princípios de Edição, considerado o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, promulgado pelo Decreto n.º 6.583/2008.

CADMO VENCE A IMENSA SERPENTE - 1ª PARTE - DESCOBRIMENTO DO BRASIL POR CADMO [1/3]

Enrico Mattievich

[ 1/3 - PRÓLOGO,  MITOS ESTELARES COMO UM MEIO PARA CONSERVAR INFORMAÇÕES, O MITO DO COMBATE DE CADMO CONTRA O DRAGÃO ]

[ 2/3 - INTERPRETAÇÃO GEOGRÁFICA DO MITO DE CADMO, CADMO E VIRACOCHA, QUANDO OCORREU O EVENTO MITOLÓGICO DE VIRACOCHA? ]

[ 3/3 - ARQUEOLOGIA RELATIVA AO MITO DE CADMO, A CIDADELA DE LACÔNIA QUE CONSERVOU O NOME DO BRASIL, ADENDA: AS  CORRENTES  OCEÂNICAS, O DRAGÃO DE CEM CABEÇAS VENCIDO POR HÉRCULES ]

 

Dedico este artigo à memória do brilhante físico, Professor José Leite Lopes, que, como Diretor do CBPF (Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas) e editor da série de preprints Ciência e Sociedade, ousou publicar a primeira versão do presente artigo, em 1986.

Resumo


No livro de minha autoria Viagem ao Inferno Mitológico, seguindo ao pé da letra a Teogonia de Hesíodo, - Aos pés da elevada montanha Atlas, nos extremos confins ocidentais do famoso Oceano –, identifiquei as ruínas do Palácio de Hades e Perséfone, nos restos arqueológicos do palácio labiríntico de Chavín de Huántar, aos pés das cumes mais elevadas dos Andes peruanos. No presente artigo procurarei explicar como encontrei que o famoso trabalho de Hércules, no qual vence o Dragão de cem cabeças para apoderar-se das maçãs de ouro do jardim das Hespérides, narrado no mito estelar de Hyginus, se relaciona com o mito estelar  de Cadmo que vence a imensa serpente Draco, preservado por Ovídio, e ambos os mitos interpreto como alegorias geográficas, que preservariam a heróica epopéia da conquista do Rio Amazonas (Solimões) na Idade do Bronze. O jardim das Hespérides, com suas maçãs de ouro cobiçadas por Hércules, se referiria ao jardim de Coricancha, em Cusco, conservado desde tempos antiquíssimos com plantas e frutas reproduzidas em ouro, até a chegada dos Espanhóis. Para confirmar esta tese, será necessário que arqueólogos capacitados, realizem um sério trabalho de datação estratigráfica na fortaleza ciclópica de Sacsahuamán, a qual, em vez de construída apenas 100 anos antes da chegada dos Conquistadores Espanhóis, - idade atribuída pela história oficial - teria mais de 3.200 anos de antiguidade. A idade dessa formidável acrópole fortificada, com três muros ciclópicos de pedra, será matéria que discutiremos numa segunda parte.


PRÓLOGO

O presente artigo foi publicado inicialmente na coleção “Ciência e Sociedade” nº. 013/86, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, CBPF/CNPq, Rio de Janeiro, 1986.

Pode parecer estranho que físicos se dediquem à historiografia, porém não é original. Se me permitem a comparação, lembrarei que científicos notáveis como Isaac Newton se dedicaram a investigar a origem das antigas civilizações. Em seu livro “The Chronology of Ancient Kingdoms”, resume seus cuidados, tratando de reconciliar o Gênesis com a história das nações.


O presente artigo corresponde ao 3º capitulo do livro-projeto do autor (a). Agora, depois da sua publicação, corresponde ao 4º capitulo (b). Obra na qual sustento que a mitologia grega relativa ao Mundo Inferior, conhecido também como Império de Hades, Erebo ou Inferno, não é uma invenção literária, imaginada pela mente humana, porém se baseia no conhecimento de um lugar geográfico antipodal, que identifiquei na América do Sul, mais especificamente na região andina do atual Peru (c).

(a) Orígen de la Mitologia Griega en el Peru Prehistórico – Iª Parte – Mitologia Chtónica .
Registrado pelo Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, em Artigo baseado no 3º capítulo do livro-projeto do autor, intitulado INFIERNO (Sobre el) Agosto 1984. Registro: Nº. 32182; Livro 25; Folha 200.

(b) VIAGEM AO INFERNO MITOLÓGICO Nas ruínas do labirinto de Chavín, a chave para decifrar o significado oculto dos mitos gregos.  Por Enrico Mattievich. Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 1992.

TAXIDI STH MUQOLOGIKH KOLASH
H ANAKLUYH THS AMERIKHS APO TOUS ELLHHNES Enrico Mattievich.  EKDOSEIS   EKATH, Attik´hV (EDITORA EKATH,  Atenas)  1ª edição 1995 – 5ª edição 2007.
JOURNEY
  to  the MYTHOLOGICAL INFERNO America’s Discovery by the Ancient Greeks, by Enrico Mattievich. Rogem Press, Denver, 2010.
(c) Nos Andes Centrais do Peru identifiquei as ruínas do estrondoso Palácio de Hades e Perséfone, citado na Teogonia  de Hesíodo, nas ruínas do Palácio-Oráculo de Chavín de Huántar.

 


Fragmento da Epopéia de Guilgamesh. O mais ilustre dos heróis, junto com seu amigo Enkidu, empreende uma arriscada expedição até a floresta dos Cedros, onde se encontra o dragão Huwawa, e, ante a
vacilação de seu amigo, o exorta com estas palavras:
"Quem, meu amigo, pode escalar o céu?"
"Somente os deuses podem viver para sempre sob o sol".
"Para os homens, contados são os dias".
"Tudo o que conseguem não é mais do que vento"!
"Temes a morte? Que foi de tua força heróica?"
"Permite que marche
à tua frente".
"E anima-me de viva voz: Avança, não temas!"
"Se cair, pelo menos terei tornado famoso meu nome:"
"Guilgamesh!—dirão — caiu lutando contra o feroz Huwawa".


Fragmento da
tabuleta III, da antiga versão Babiloniana (c. 500 a.C.) The Ancient Near East. Vol. I, Ed. by James B. Pritchard, Princeton University Press

INTRODUÇÃO

Em setembro de 1969, um extenso artigo publicado no jornal "O Globo" revivia um assunto adormecido mas sempre latente no Brasil: a visita pré-histórica de navegantes fenícios às costas brasileiras (1). A notícia citava as opiniões do professor Cyrus Gordon, da Universidade de Brandeis (Massachusetts), que acreditava na possibilidade dessas viagens. Ele se encontrava no Rio de Janeiro à procura de inscrições fenícias, que teriam sido encontradas no Brasil. O prof. Gordon era um conhecido orientalista e havia realizado importantes contribuições ao estudo dos textos descobertos na biblioteca real de Ugarit, formada por tabuletas de argila que haviam permanecido soterradas durante 3.000 anos, até serem descobertas em 1929 por Claude Schaeffer, na localidade de Ras Shamra, no litoral da Síria (2).

(1) O Globo 12/09/69, p.3. "Arqueólogo afirma: Brasil é nome dado pelos fenícios".
(2) Schaeffer, Claude F. A. A new alphabet of the ancients is unearthed; National Geographic Magazine; oct. 1930.

 


A antiga Ugarit, desenterrada dos escombros, foi uma cidade cosmopolita que floresceu entre os meados e fins do segundo milênio antes de Cristo. Naquela época fora um importante porto do Mediterrâneo, administrado pelo canaanitas, que mantinham amplos contatos com o mundo culto de seu tempo. A natureza poliglota da sua comunidade se espelha nos diversos vocabulários usados nas tabuletas. Ali os escribas traduziam o vocabulário ugarítico em sumério, akkadiano e hurrita. Além dessas línguas, foram achadas algumas tabuletas cíprio-minóicas, assim como hieróglifos egípcios e hititas. As descobertas arqueológicas de Ugarit revelaram ao mundo a existência de contatos íntimos entre os canaanitas e as civilizações creto-micênicas e peloponesa. Os textos épicos de Ugarit se relacionam com a poesia homérica e com os textos poéticos hebraicos. No Antigo Testamento  -diz o prof. Gordon - os hebreus nunca chamam seu idioma de "hebreu" ou "israelita", mas a língua de Canaã" (3).

 As tabuletas de Ugarit contêm informações de inestimável valor, que revelam fragmentos da história, religião e costumes dos canaanitas, uma civilização desaparecida, famosa pelas suas habilidades marítimas e cujo povo era chamado fenício, pelo nome grego de seu fundador - Phoenix - irmão de Cadmo, que por sua vez é considerado fundador de Tebas.


A destruição de Ugarit foi contemporânea ao período egípcio de El Amarna no tempo do faraó Akenatón, que a cronologia convencional situa no século XV a.C. Esta data é atualmente contestada pelos revisionistas modernos, que preferem a cronologia proposta por Velikovsky (4) e que situaria este evento no século IX a.C.; ou seja, nos dias de Homero, contemporaneamente ao rei Shalmanaser III da Assíria e ao rei Josaphat, de Jerusalém (5). Esta última cronologia inclusive parece estar em melhor concordância com os resultados de datações absolutas, obtidas mediante a técnica do radiocarbono.

(3) Gordon, Cyrus H. Before the Bible — The common Background of Greek and Hebrew Civilizations; p. 131; Books of Libraries Press, Plainview, New York, 1973.
(4) Down, D. K. The Chronology of Egypt and lsrael; special Edition of "Diggings" (1989); Published Monthly by D. K. Down; Po Box 341, Hornsby, 2077, Austrália.
(5) Velikovsky, Immanuel. Ages in Chaos; Vol. I; (From the Exodus to the King Akhnaton), p. 308, Sidgwick & Jackson, London, 1958.

 


Na notícia divulgada pelo "O Globo", o professor Gordon trazia novos dados a favor de uma antiga hipótese, que dizia ser de origem fenícia o nome Brasil. Seus estudos paleográficos indicavam que este nome teve origem no vocábulo "brzl", que era usado pelos canaanitas para designar o ferro. Além do mais, ele tinha a firme convicção de que nas terras redescobertas por Cabral se encontravam as provas arqueológicas que permitiriam confirmar essas viagens transoceânicas, nas antigas inscrições lapidares gravadas sobre pedras. Talvez com essa notícia divulgada pelo jornal esperasse ele motivar os especialistas brasileiros, a fim de trocar informações. Infelizmente isto não aconteceu. Muito pelo contrário. Alguns dias depois, o prof. Pedro Calmon, à época presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, publicou uma réplica contestando as afirmações do ilustre visitante, na qual dizia que o nome Brasil é de origem germânica (6). Sobre as inscrições achadas no Brasil e atribuídas a navegantes fenícios, em sua opinião, não passavam de simples brincadeira levada a sério por Ladislau Netto, diretor do Museu de Arqueologia do Rio de Janeiro, em 1872. Enfim, por um triz o ilustre orientalista escapou de ser chamado de asno, pois, segundo o professor Calmon, "a verdade sobre tais assuntos já consta até nos livros para crianças" (7).

(6) A origem do nome BRASIL é um assunto muito polêmico. Esse nome já aparece em antigas cartas como uma ilha situada no Atlântico, sempre a Oeste das terras habitadas pelos celtas. Vide nota 1, p. 20 Ts. I-II da História Geral do Brasil por Francisco Adolfo de Varnhagen; 7a Ed. Melhoramentos, São Paulo, 1962.
(7) O Globo 15/09/69, p. 12, "Calmon contesta origem fenícia do nome Brasil".
 


A resposta do professor Calmon era coerente com o consenso acadêmico estabelecido sobre este assunto, que "a priori" considera como impossível qualquer viagem pré-histórica através do Atlântico. Afortunadamente, o Brasil teve filhos ilustres que, a despeito das opiniões dos "acadêmicos amanuenses", acreditaram na possibilidade dessas viagens pré-históricas e dirigiram seus esforços e pesquisas à procura das evidências para sustentá-la. Entre estes figura o ilustre historiógrafo Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878), Visconde de Porto Seguro, o arqueólogo e ex-diretor do Museu do Rio de Janeiro, em 1872, Ladislau Netto, e um apaixonado pela pré-história brasileira, o Sr. Bernardo de Azevedo da Silva Ramos (1858-1931). Este último, não só acreditava plenamente que navegadores pré-históricos do Mediterrâneo teriam desembarcado nas costas do Brasil, senão que, como Champollión, pretendia ainda ter conseguido decifrar todas as mensagens que aqueles navegantes teriam deixado nas itacoatiaras, como são chamadas na língua tupi as antigas inscrições lapidares do Brasil. Ainda que o enorme trabalho, em dois volumes, legado pelo notável amador da arqueologia brasileira, não se enquadre nos modernos padrões da metodologia científica, devemos reconhecer-lhe o mérito de haver compilado centenas de desenhos achados nas itacoatiaras, nas quais, com bastante freqüência, é possível notar caracteres do tipo semítico e grego arcaico (8) (Fig. 1).

(8) Bernardo de Azevedo da Silva Ramos, Inscrições e tradições da América Pré-histórica; Rio de Janeiro, (Vol. 1,1930; Vol. II, 1939).

 



Fig. 1 — Figuração do pensamento. Comparação de inscrições semíticas (a, d) com símbolos gravados nas itacoatiaras do Brasil (b, c).

(a) Cacos com inscrições achadas na Palestina, na localidade de Tell-ell Hesy. Note-se a semelhança de elementos na ilustração ao lado.
(b) Inscrição gravada numa rocha nas margens do Rio Amazonas, na localidade de Itacoatiara (perto de Manaus).
(c) Inscrição brasileira achada no sítio de Curraes Velhos, no termo de Brejo da Cruz, Distrito de Patu, Rio Grande do Norte. Esta inscrição apresenta símbolos com pontos e traços semelhantes à
tabuleta semítica mostrada debaixo.
(d) Tabuleta
com inscrições proto-sináiticas achada nas escavações de Deir-Allã, Transjordânia.
a
e d: Driver, G.R., "Semitic Writting", Oxford University Press, Oxford, 1976.
b
e c: Ramos, Bernardo de Azevedo da Silva, "Inscrições e Tradições da América Pré-Histórica" (Vol. I e II), Rio de Janeiro, 1930 e 1939.

No debate Gordon-Calmon, uma vez mais se defrontavam duas posições antagônicas: a posição sustentada pelos "difusionistas", na qual se inseria a hipótese do prof. Gordon, segundo a qual a cultura do Novo Mundo se deveria a aportes culturais originários do Velho Mundo, e a dos "isolacionistas", na qual se acomodava o prof. Calmon; estes últimos acreditam que a América, rodeada por extensos oceanos, teve um desenvolvimento cultural independente. Na mesma época do debate, um cientista de grande imaginação e vigor, o Dr. Thor Heyerdahl, pensando que a verdade se encontrava entre estes dois extremos, realizou uma aventura náutica que demonstrava ser possível a navegação através do Oceano Atlântico, inclusive nas primitivas embarcações de papiro, como as que eram construídas pelos antigos egípcios. Partindo em 25 de maio de 1969 das costas de Marrocos, numa embarcação de papiro chamada Ra I, liberada a favor dos ventos e transportada pela corrente oceânica, depois de percorrer 2.662 milhas náuticas durante 55 dias, conseguiu chegar perto das costas da América do Sul, a 600 milhas de Barbados. Posteriormente, repetindo a aventura numa segunda embarcação de papiro chamada Ra II, depois de 57 dias de navegação e percorrer 3.270 milhas náuticas, chegava finalmente à ilha de Barbados, no dia 12 de julho de 1970 (9 e 10). Demonstrou desta feita que a América, longe de ser um continente inabordável durante a época proto-histórica, como afirmam os "isolacionistas", se encontrava a pouco menos de dois meses de navegação das costas da África, navegando numa primitiva embarcação de papiro. O Dr. Heyerdahl demonstrou também que, devido às correntes oceânicas prevalecentes de leste a oeste, uma embarcação deste tipo, ainda que estivesse sem o leme, inexoravelmente derivaria sem rumo para o mesmo destino: América do Sul (ver discussão das correntes oceânicas na Adenda).

(9) Heyerdahl, Thor, The Voyage of Ra II, National Geographie, Jan, 1971.
(
10) Heyerdahl, Thor, Las Expediciones Ra, Ed. Juventud, Barcelona, 1980.

 


MITOS ESTELARES COMO UM MEIO PARA CONSERVAR INFORMAÇÕES

Se o leitor em um
vôo de imaginação pudesse contemplar o céu, encurtando em um breve instante o transcurso de milênios, observaria que a intercessão do plano da eclíptica (que contém a órbita da Terra) com o plano equatorial celeste (perpendicular ao eixo polar da Terra) desliza lentamente sobre o zodíaco. Este deslizamento do eixo equinocial, que define os pontos vernal e outonal da esfera celeste, se deve à lenta precessão do eixo da Terra, que retrogada em um período de 25.770 anos. Este fenômeno é chamado Precessão dos Equinócios e se manifesta como um lento deslocamento dos pontos equinociais na direção oeste ao longo da eclíptica, seguindo a sequência Touro, Áries, Peixes, etc., sobre o zodíaco e levando 2.147,5 anos para passar completamente de “casa” em “casa”.

Desde que o homem começou a plantar e a depender da agricultura, a empreender viagens de largo curso e, portanto, a depender das estações para realizá-las, começou também a
preocupar-se com as regiões do céu onde parecia caminhar o Sol, observando as constelações que o precediam antes de seu orto e as que o seguiam no seu ocaso. Em particular, observou as constelações nas quais se encontrava o Sol quando o dia tinha a mesma duração da noite o dia de equinócio vernal a partir do qual os dias passam a ser de duração maior que as noites; e no equinócio outonal, a partir do qual ocorre justamente o contrário.

Na época pré-literal o astrônomo proto-histórico não dispunha de um sistema referencial que lhe permitisse relacionar as posições dos astros com as estações do ano, conseqüentemente teve que criar um método original para fixar suas observações astronômicas. Naquela época, provavelmente, foram inventadas as configurações estelares. Assim, ao grupo de estrelas sobre as quais parecia caminhar o Sol durante os
equinócios vernais, entre 4.000 e 2.000 anos a.C., denominaram constelação do Touro, pelo aspecto desse conjunto de estrelas, que aparece como um par de cornos projetados no céu. Devido à precessão, o equinócio vernal deslizou para as Plêiades, um dos mais importantes grupos estelares dos povos que nos transmitiram a sua mitologia. Ao redor de 1.300 a.C., das Plêiades o equinócio vernal passou para a constelação de Perseu.

O edifício de
Chavín de Huántar identificado (no Cap. III do livro) como o mitológico Palácio da Górgona (que segundo o mito grego foi vencida por Perseu) foi construído ao redor da época em que o equinócio vernal passou das Plêiades para a constelação do Perseu. Não devemos estranhar, portanto, que aquele edifício também possa ter alguma conexão com o mito estelar, que representa Perseu com a cabeça da Górgona, já que HUARI ou WARI (a principal divindade adorada em Chavín de Huántar) se encontra intimamente relacionada com as Plêiades, na mitologia peruana.

As atuais investigações sobre os mitos estelares permitem deduzir que a
precessão dos equinócios já era conhecida pelos astrônomos que precederam Hiparco. Segundo Reiche, Platão e provavelmente Eudóxio tiveram notícia desse fenômeno através de outras fontes e não por observação pessoal. Presume o citado autor que esse conhecimento venha dos mitos egípcios, à semelhança do mito da Atlântida, citado por Platão (11).

O mito da luta de
Cadmo contra o Dragão que a seguir consideramos, assim como as constelações circumpolares boreais que representam a luta de Héracles contra Draco, pode ser classificado como narração ou mito estelar, no qual as constelações foram usadas para fixar acontecimentos memoráveis realizados na Terra.

(11) Harold A.T. Reiche, The Language of Archaic Astronomy: A Clue to the Atlantis Myth? in Astronomy of the Ancients, Ed. by Kenneth Breeher and Michael Feirtag; the MIT Press, Cambridge, Mass, 1980.
 


O MITO DO COMBATE DE
CADMO CONTRA O DRAGÃO

Agenor, rei de Tiro, teve uma bela filha, Europa, a quem Zeus amou. Esta princesa
fenícia foi mãe de Minos, o mitológico rei de Creta, e de Radamanto, a quem alguns atribuíam a função de juiz dos Infernos e outros o situavam nas ilhas dos Bem-Aventurados ou Campos Elíseos.

A lenda que relaciona
cretenses, fenícios e os infernos relata que Zeus, na forma de um magnífico touro branco, carregou em suas costas a filha de Agenor e a raptou a Creta. Depois do rapto, Cadmo foi enviado à procura de sua irmã Europa, forçado a percorrer o mundo até encontrá-la. Mandado por um oráculo a seguir a rota do Sol, descobre uma imensa serpente, contra a qual mantém uma luta vitoriosa. Semeia os dentes do Dragão vencido, dos quais vê nascer guerreiros, que em seguida lutam entre si até a morte. Com os cinco sobreviventes funda a cidade que o oráculo havia ordenado.

A luta de
Cadmo contra a serpente é citada por Eurípedes, nos versos 638-675 de Os Fenícios, quatrocentos anos antes que fosse narrada por Ovídio. Sêneca também a cita nos versos 709-732 de Édipo. Porém, a versão mais detalhada deste mito tebano é narrada por Ovídio, no 3º livro das Metamorfoses, que a seguir apresentamos traduzida, do 1º ao 130º verso (12).

(12) Ovide, Les Métamorphoses, texte traduit par Georges Lafaye, Les Belles Lettres, Paris, 1961.
 


1
Já tendo posto de lado a enganosa aparência de touro, o deus se dá a conhecer ao chegar nos campos de Dieta quando o pai, ignorando o destino da jovem filha, ordena a
Cadmo ir à procura da raptada, acrescentando, extremoso,
que o castigo seria o exílio caso não a encontrasse.

5
Tendo percorrido o mundo inteiro — quem poderia descobrir, com efeito, as
infidelidades de Júpiter? Fugindo da pátria e da ira do pai, o filho de Agenor se exila, e, súplice, consulta o oráculo febeu, perguntando-lhe que terra

10
 deveria habitar: "uma bezerra", responde
Febo, "que jamais sofreu o jugo nem conheceu a fadiga de arrastar o curvo arado, se mostrará a teus olhos nos campos solitários, toma-a por guia, segue o caminho que te indicar, e, no campo onde ela descansar, constrói as muralhas de uma vila que chamarás

15
"
Vila
Beociana". Mal Cadmo saíra da caverna de Castália, viu, caminhando devagar, uma novilha sem guardião, que não apresentava no pescoço o menor sinal de já haver trabalhado. Ele a segue a passo lento e, em silêncio, adora Febo, que lhe indica o caminho.

20
Já atravessara a vau o Céfiso e os campos de Panope; a novilha parou e, elevando ao céu sua vistosa fronte ornada de altos cornos, encheu o ar de
mugidos; e então, virando-se para ver os companheiros que a seguiam, estendeu-se de flanco sobre a tenra relva. Cadmo agradece, beija a terra

25
estrangeira e saúda os montes e campos desconhecidos. Prontificando-se para oferecer um sacrifício a Júpiter, ordena aos servos irem buscar numa fonte a água fresca para a
libações.

Uma antiga floresta jamais violada pelo machado se elevava; ao meio havia uma caverna
sombreada pela espessa folhagem de um salgueiro, onde as

30
pedras formavam uma
abóbada baixa, da qual emanava uma abundante fonte. Ali, no fundo desse retiro, se oculta uma serpente, filha de Marte; a crista notável pelo ouro, os olhos brilham como fogo, todo o corpo está cheio de veneno; três línguas vibram em sua boca e os dentes se arrumam numa

35
tríplice fileira. Mal os estrangeiros recém-chegados de Tiro acabavam de dar os primeiros passos no funesto bosque, apenas urna
recém-rajada na superfície líquida ressoava na água, que a serpente azulada avançou sua cabeça para fora do antro e se fez sentir com seus sibilos horríveis. As

40
urnas lhes escapam das mãos, o sangue foge-lhes das veias e um súbito tremor lhes tolhe os membros entorpecidos de horror. O monstro,
contorcendo seu dorso escamoso de anéis flexíveis, num salto sinuoso se recurva formando imensos arcos; logo, erguendo no ar mais da metade do corpo, domina toda a floresta. O corpo, se o vires por inteiro, é tão grande quanto

45
o da serpente que separa as duas Ursas. Imediatamente avança contra os
fenícios, que se aprestam, ou para combatê-la ou para fugir, ou não fazem nem uma coisa nem outra impedidos pelo medo e terminam por perecer; uns destroçados pelas dentadas, outros enlaçados entre seus enormes anéis e a outros mata com o sopro podre do funesto veneno.

50
O sol a pino já fazia exíguas sombras. O filho de Agenor imagina, preocupado, o que retarda os companheiros e segue suas pegadas. Tinha por veste uma pele de leão, por armas uma lança de ferro resplandecente, um dardo

55
e a coragem, que valia mais que qualquer arma. Tão logo entrou no bosque viu os cadáveres, e, em cima, o inimigo vitorioso, com o corpo imenso, lambendo com a língua ensangüentada os cruéis ferimentos, exclamou: "Ou vingarei vossa morte
fidelíssimos companheiros, ou vos acompanharei”,

60
e erguendo com a mão direita uma pedra atira-a, com um esforço descomunal. Com o choque, até altas muralhas com elevadas torres teriam sido abaladas; a serpente permaneceu ilesa; defendida, como uma couraça, pelas
escamas e pela dureza de sua pele, que resistiu indene à violência da

65
pancada. Essa dureza, porém, não a defendeu do dardo, que se fixou na curva da sua flexível espinha, penetrando o ferro inteiro em suas entranhas. Exasperado com a dor, o monstro virou a cabeça para trás, olhou o ferimento

70
e mordeu a haste do dardo cravado em seu corpo, e, depois de o ter sacudido em todos o sentidos, arrancou-o das costas; o ferro, porém, permaneceu fixado nos ossos. Então, uma nova causa acrescenta-se às suas iras costumeiras, sua garganta se enche com as veias
intumescidas de sangue e uma espuma esbranquiçada escorre em volta de seus lábios pestilentes e a terra

75
sobre a qual desliza ressoa sob suas
escamas; um hálito negro sai de sua boca, como a Estígia, e infecta o ar contaminado. Ora se enrosca em espirais que fazem uma volta imensa, ora pára mais ereta do que um longo tronco; ora num enorme ímpeto, como um rio empurrado pela tempestade, se

80
precipita e derruba com o peito as florestas que lhe são como obstáculos. O
filho de Agenor recua um pouco, e, protegendo-se com a pele de leão, se defende da ameaçadora garganta com a lança apontada. A serpente, enfurecida, em vão tenta atingir o impenetrável ferro e crava os dentes em sua

85
ponta. E já o sangue começara a correr do seu
palato peçonhento e a manchar a verde relva; porém o ferimento era leve, pois o animal fugia ao golpe retraindo o pescoço apenas atingido, impedindo, com esse movimento de recuo, que a arma aprofundasse na ferida. Foi então que o filho de Agenor,

90
tendo lhe enterrado o ferro na garganta o persegue sem descanso, até que, à força de recuar, o adversário choca-se contra um carvalho, onde lhe transpassa tanto a cabeça como a árvore. Sob o peso da serpente, a árvore curva-se e, atingido pela extremidade da cauda, o tronco gemeu.

Enquanto o vencedor contemplava o enorme tamanho do inimigo vencido, uma voz se fez ouvir de repente: ele não soube reconhecer de onde procedia, mas eis o que escuta: "Por que, filho de Agenor, nutres tua vista com a serpente que acabas de matar? Também tu te verás transformado em

100
serpente?" Preso muito tempo do pavor,
Cadmo perdeu ao mesmo tempo o ânimo e a cor, e um terror glacial lhe arrepia os cabelos. Mas eis que Palas, a protetora do herói, depois de descer das mais altas regiões do ar, se aproxima dele e lhe ordena de trabalhar a terra e semear os dentes da serpente, germes de um povo futuro. Ele obedece, e, conduzindo o arado

105
com suas próprias mãos, segundo a ordem recebida, abre sulcos na terra e semeia os dentes da serpente, de onde deverão nascer os mortais. Então, prodígio inacreditável, a terra começou a mexer-se; em primeiro lugar surgiram dos sulcos as pontas das lanças, depois os capacetes com
penachos coloridos, agitados pelas cabeças que cobriam; depois apareceram ambos,

110
peitos e braços carregando armas; assim foi surgindo da terra uma seara de homens ostentando escudos; como nos dias de festa, quando se ergue o pano do teatro e vemos surgir as figuras do retábulo, que primeiro aparecem mostrando o rosto, depois, pouco a pouco, todo o resto; como se
estivessem sendo puxadas para cima com um movimento lento e progressivo, até aparecerem inteiras e de pé no proscênio.

115
Espantado com esses novos inimigos, Cadmo prepara-se para empunhar as armas: "Não as tomes" lhe grita um guerreiro, desde a multidão que a terra acabara de criar "Não intervenhas numa guerra civil" ao mesmo tempo que feria com um golpe certeiro de espada a um de seus irmãos terrígenos; em seguida, ele próprio cai atingido por um dardo lançado de

120
longe. Aquele que o matara não lhe sobrevive por muito tempo e exala o sopro que acabava de receber. Seguindo-lhes o exemplo, toda a turba se enfurece, e estes irmãos, subitamente paridos, sucumbem em uma luta intestina, pelos ferimentos que provocam reciprocamente. E já toda

125
aquela juventude, que o destino concedeu tão breve existência, caía com seus peitos ainda quentes sobre sua mãe empapada de sangue; não restavam mais que cinco, um dos quais foi Equion, quando a uma ordem da deusa Tritônida (Minerva ou Palas) lançou ao chão suas armas; solicitando a seus irmãos uma paz leal, que lhes concedeu, por sua vez. O herói emigrado de

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Sidon os tomou por companheiros de seus trabalhos, quando fundou a vila prescrita pelo oráculo de Apolo.

O significado real deste mito jamais foi compreendido. Diodoro Sículo, referindo-se à versão racionalizada da lenda, dizia que a luta de Cadmo contra a serpente era uma saga da fundação de Tebas (13 e 14). Não devemos deixar-nos iludir pelos poucos detalhes geográficos concretos citados neste mito. Esses nomes nada mais significam que o herói ou seus descendentes fixaram-se nessas terras, fixando igualmente suas heróicas façanhas. Os mitógrafos modernos, por sua vez, não foram muito longe; secundando a versão de Pausânias e Diodoro, pretendem inclusive ter decifrado a espécie à qual pertencia o réptil morto por Cadmo: trata-se de uma cerasta, dizem, uma víbora do Egito que tem na cabeça duas protuberâncias escamosas, semelhantes a cornos (15).

Os junguianos, seguindo seu mestre, pensam que a serpente representa o tabu do incesto. "O Dragão e a serpente", dizem, "são as representações simbólicas da angústia, face às
conseqüências decorrentes da transgressão do tabu" (16).

É pueril pensar que o mito de Cadmo se originou de um fato trivial como matar uma serpente ou de um recôndito impulso incestuoso. A serpente pode simbolizar um evento ou fato real, certamente, mas
deve tratar-se de algo extremamente importante, ao ponto de ter-se tornado uma alegoria estelar e figurar na esfera celeste.

(13) Diodoro Sículo, Vol. II, livro IV, Cap. 2.
(14) Pausânias, Vol. IV, livro IX, Cap. 10.
(15) Nota 1, p. 70. Ovide, Les Métamorphoses, Les Belles Lettres, Paris, 1961.
(16) Jung. C .G., Métamorphoses de L'ame et ses Symboles, p. 435, Librairie de L'université Georg & Cie, Genève, 1953.
 


[ 1/3 -
PRÓLOGO,  MITOS ESTELARES COMO UM MEIO PARA CONSERVAR INFORMAÇÕES, O MITO DO COMBATE DE CADMO CONTRA O DRAGÃO ]

[ 2/3 - INTERPRETAÇÃO GEOGRÁFICA DO MITO DE CADMO, CADMO E VIRACOCHA, QUANDO OCORREU O EVENTO MITOLÓGICO DE VIRACOCHA? ]

[ 3/3 - ARQUEOLOGIA RELATIVA AO MITO DE CADMO, A CIDADELA DE LACÔNIA QUE CONSERVOU O NOME DO BRASIL, ADENDA: AS  CORRENTES  OCEÂNICAS, O DRAGÃO DE CEM CABEÇAS VENCIDO POR HÉRCULES ]

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