Instituto Histórico de Petrópolis
 24/09/1938
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31/07/2000
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Digitação utilizada para inclusão no site:
23/08/2012

Texto revisto segundo Princípios de Edição, considerado o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, promulgado pelo Decreto n.º 6.583/2008.

CADMO VENCE A IMENSA SERPENTE - 1ª PARTE - DESCOBRIMENTO DO BRASIL POR CADMO [2/3]

Enrico Mattievich

[ 1/3 - PRÓLOGO,  MITOS ESTELARES COMO UM MEIO PARA CONSERVAR INFORMAÇÕES, O MITO DO COMBATE DE CADMO CONTRA O DRAGÃO ]

[ 2/3 - INTERPRETAÇÃO GEOGRÁFICA DO MITO DE CADMO, CADMO E VIRACOCHA, QUANDO OCORREU O EVENTO MITOLÓGICO DE VIRACOCHA? ]

[ 3/3 - ARQUEOLOGIA RELATIVA AO MITO DE CADMO, A CIDADELA DE LACÔNIA QUE CONSERVOU O NOME DO BRASIL, ADENDA: AS  CORRENTES  OCEÂNICAS, O DRAGÃO DE CEM CABEÇAS VENCIDO POR HÉRCULES ]

INTERPRETAÇÃO GEOGRÁFICA DO MITO DE CADMO

A lendária luta de Cadmo contra a serpente pode ser comparada a uma imagem projetada fora de foco, onde o caprichoso jogo de luz e sombra parece delinear bizarras configurações, de modo que nem o maior esforço de imaginação seria capaz de descobrir, diretamente, a realidade ali representada. Quando, após sucessivas tentativas, conseguimos "focalizar" a realidade que originou este mito, a imagem que antes se mostrava irreconhecível perde sua caprichosa ambigüidade, revelando finalmente o seu significado.

Se a "serpente" que combate
Cadmo não é um réptil, o que é que se oculta por trás dessa alegoria? Se trataria de algum rio? Existem precedentes de combates contra rios na literatura mitológica? Não só este precedente existe, como também esta alegoria mal compreendida deu origem a sérias críticas contra Homero: Filóstato reprochava a Homero o inverossímil combate de Aquiles contra o Rio Escâmandro, acusando-o de embusteiro (17).

Outro combate memorável foi o de
Héracles contra Aquelôo, cujo nome se tornou sinônimo de água. Este rio, citado no canto 21a da Ilíada, não se refere ao maior rio de Hélade como geralmente se supõe, mas a um grande rio, comparável ao oceano. Aquelôo é citado por Pausânias como o juiz de todos os rios (18). Em que lugar se localizava esse rio fabuloso, chamado "Pai das Águas" — "O maior dos rios"?

Um eco da luta entre Oceano e
Héracles pode ser notado na história segundo a qual o Oceano agitava a embarcação solar que conduzia Héracles até as Hespérides (ilhas do Poente, situadas no Oceano), mas cessa de agitar-se quando o herói o ameaça com sua lança (19). O Rio Aquelôo era representado sob diversos aspectos; segundo Sófocles, adota três formas: de touro, dragão e de homem com cabeça de touro (20). A Fig. 2 mostra uma representação do combate de Héracles contra Aquelôo. Na região grega de Etólia, segundo Luciano, a luta de Héracles contra o rio era representada por uma dança (21).

(17) Philostrate Héroique, p. 735 Ed. Olear (citado por A. Chassang em Histoire du Roman p. 353, Didier, Paris, 1862.
(18) Citado por Joseph Fontenrose Python p. 233, University of California Press, 1980.

(19) Idem Ob. Cit. p. 233.
(20) Sófocles Traquinianas Vs. 9-14.

(21) Lucien, De la Danse, Oeuvres Completes de Lucien, T-I, p. 551, Gamier Frères, Paris, 1896.

 



Fig. 2 — Combate alegórico de
Héracles contra o Rio Aquelôo.

Outra criatura mitológica que se confunde com o mesmo monstro vencido por Cadmo é a Hidra de Lerna, cujo nome significa serpente de água. Representada com numerosas cabeças, seu número varia segundo os autores, de cinco até cem, sem nenhum em especial ser favorecido (22). (Fig. 3). Alguns autores informam ademais que, tão logo uma cabeça era cortada, outra ou mais de duas ressurgiam. Hesíodo, o geógrafo da mitologia, indica que essa criatura encontrava-se no apartado país dos Arimanes, debaixo da Terra (23).

Sempre houve a suspeita de que por trás da lenda de
Héracles combatendo a Hidra de Lema e o Rio Aquelôo existissem fatos reais; mas, ainda que se fosse possível demonstrar a existência destes fatos, dizia Moreau de Jonnés (24), nem por isso o mito seria totalmente explicado; restaria saber como e por que motivo a realidade foi oculta nesse requintado atavio alegórico. Talvez nunca consigamos uma explicação completa para essas lendas, mas, ainda assim, a partir da versão de Ovídio, tentaremos retirar o véu que durante milênios encobre a realidade escondida no mito de Cadmo.

(22) Rose H. J., A Handbook of Greek Mythology, p. 212, Mathuen & Co., London, 1974.
(23) Hesíodo, Teogonia V. 314-318.
(24) Moreau de Jonnés, Los Tiempos Mitológicos, p. 25, Madrid, 1910.

 


 
Fig. 3 — Luta de
Héracles contra a Hidra de Lerna.

Cadmo, cujo nome semítico significa "Leste", pela tarefa realizada, se relaciona com o vigoroso matador da Hidra, Héracles, classicamente identificado como Melkart, o "senhor da Villa" semítico  (25). Considerado um herói civilizador, que recorre à terra, colonizando e civilizando a humanidade, vencendo feras; Melkart também é considerado protetor da navegação, ocupação constante e principal dos fenícios. Alguns deuses freqüentemente se confundem com este herói; como Hermes Pompaios, ou seja, Hermes condutor, chamado assim pelos gregos porque diziam que era encarregado de conduzir as almas para o Inferno; e Apolo, o matador do monstro Pitão. A pluralidade de heróis e deuses relacionados a combates contra serpentes e dragões nos adverte que por este caminho seria em vão tentar abordar o mito. Não temos outra alternativa senão enfrentar o Dragão.

 Cadmo
talvez tenha matado diversas serpentes, de diversos tamanhos, mas a "serpente" que o imortalizou, salvo o aspecto, nada teria a ver com os répteis. Para comprovar isto devemos prestar atenção ao enorme tamanho da criatura, declarado nos versos 44 e 45: "O corpo, se o vires por inteiro, é tão grande quanto o da serpente que separa as duas Ursas". Isto é, seria comparável a Draco, constelação boreal situada entre a Ursa Maior e Ursa Menor. Não se trata de uma hipérbole literária, estamos frente a uma alegoria mitológica, que esconderia uma realidade (27). Esta realidade aparece considerando ao pé da letra o verso 45.

(25) Chamado herói de Tiro; Vide nota 1, p. 35. La Déesse Syrienne de Lucien de Samosate; Trad. Mario Meunier; Guy Trédaniel; Ed. de la Maisnie, Paris, 1980.
(26) Eschyle Les Eumênides V. 90.
(27) Referindo-se ao significado da alegoria, Pausânias diz o seguinte (L. VIII, C. VIII): "Ao começar a escrever minha história senti-me inclinado a relatar as lendas como se fossem disparates, porém encontrando-me na Arcádia adquiri uma visão mais cuidadosa em relação ao seu significado". A seguir: "Aqueles entre os helenos que foram considerados como sábios, no seu tempo, exprimiram seus pensamentos, não como agora, de forma direta, mas indireta, sob a forma de enigmas". Logo Pausânias relata como naqueles tempos, obedecendo a um oráculo, o Rio Ofis da Arcádia recebeu o nome homônimo (ofis significa serpente) de um dragão ou de uma serpente. A palavra allhgoria (alegoria) foi usada pela primeira vez por Cícero (Orat. 27) e por Plutarco (De la lecture des Poètes). Antes desses autores, o significado simbólico ou alegórico denominava-se upouoia, suposição ou conjectura. Os espíritos reflexivos e os críticos que tentaram penetrar no significado dos mitos, diz Paul Decharmes, estavam persuadidos de que além de seu significado exterior e aparente, os mitos tinham outro interior, que permanecia oculto. "Toda a poesia é enigmática pela sua natureza", diz Sócrates em IIª. Alcibiade. Paul Decharmes, La Critique des Traditions Religieuses chez les Grecs p. 272, Alphonse Picard et Fils, Ed., Paris, 1904.

 


Pela Astronomia sabemos que as distâncias entre os astros na esfera celeste são comparáveis com as distâncias geográficas sobre a terra, quando projetamos seus respectivos segmentos de arco sobre uma esfera. A projeção polar do arco formado entre Tanin, estrela da cabeça de Draco, e Giansar, no extremo da cauda, mostra a coincidência de Draco com a extensão do Rio Amazonas, Fig. 4. A perfeita coincidência dos respectivos arcos é o resultado favorável de comparar um arco maior, próximo ao pólo, com um segmento de arco menor próximo ao equador, usando coordenadas polares. A rigor, como indica um cálculo trigonométrico detalhado, o segmento de arco subtendido pela constelação de Draco, excede em 15º o arco geodésico entre a nascente e a desembocadura do Amazonas.  Esta discrepância não invalida  a interpretação, já que se trata apenas de uma comparação dos respectivos arcos e não de uma medida exata de seus valores.


A presente interpretação, que identifica a luta épica de
Cadmo e Héracles contra uma imensa serpente (às vezes explicitamente localizada no mundo inferior) como uma alegoria que representa a conquista do Rio Amazonas, permite compreender o significado das cabeças da Hidra. As cabeças corresponderiam aos principais afluentes do Amazonas, que, segundo os critérios, podem ser dois, cinco, ou mais de cem. Basta dar uma olhada sobre uma carta para ver a intrincada rede fluvial da bacia amazônica (Fig. 2, Cap. II do livro). Se alguém em vez de navegar pelos rios tentasse "cortá-los" em linha reta, isto é, abrir caminhos através da floresta cortando-a e queimando-a, para cada rio que "cortasse", apareceria em seguida outro ou mais de um, de modo que o explorador aventureiro teria a impressão de que os rios vencidos a cada dia cresceriam em progressão aritmética.

Para localizar a terra na qual
Cadmo deveria construir uma cidade, devemos decifrar o oráculo de Febo (Vs. 10-18). Febo
(foiboV) significa "O brilhante". Trata-se de um sinônimo mitológico, já que é um dos nomes de Apolo, a quem se atribuía o poder de emitir oráculos e também com este nome se denominava o sol. Nos versos 20 e 21, "A novilha parou e, elevando ao céu sua vistosa fronte ornada de altos cornos ...", encontramos uma alusão à constelação de Touro, na qual situava-se o equinócio vernal durante o 4º e 3º milênios, considerado o início de ano na astronomia arcaica.

 

Fig. 4 Projeção - em coordenadas polares - das constelações boreais circumpolares (setor de 210º),
sobre a América do Sul (setor de 60º), que permite visualizar a extensão da constelação de Draco sobre a superfície terrestre.

Os mitógrafos da Antigüidade identificaram a constelação do Touro como a representação celeste do deus metamorfoseado que teria raptado Europa. Por esta associação a constelação era chamada Portitor (barqueiro), Europae ou Agenoreus, assim denominada por Ovídio, referindo-se à raptada e a seu pai, respectivamente. Marcial ainda denomina-a Tyrius, referindo-se a Tiro, país de Cadmo (28). Segundo o mito, Europa teria sido raptada pelo Deus e transportada sobre o mar, montada no flanco do Touro imerso das ondas; conseqüentemente, a constelação foi representada mostrando unicamente a parte dianteira. Esta é, justamente, a impressão que causa certas noites do ano a constelação do Touro, quando parece pousar suavemente e de flanco sobre o horizonte ocidental do mar. Os navegantes de Tiro, guiados pelo Sol e pelas estrelas, depois de cruzarem o Atlântico e chegarem às costas do Brasil, ao elevarem seus olhos para a constelação do Touro, enquanto escutavam as ondas quebrando na praia, teriam observado o quadro imortalizado nos versos 20 a 23: "...a novilha parou e, elevando ao céu sua vistosa fronte ornada de altos cornos, encheu o ar de mugidos; e então, virando-se para ver os companheiros que a seguiam, estendeu-se de flanco sobre a tenra relva".

Guiado por Febo (isto é, pelo oráculo e pelo curso do Sol) e pela constelação do Touro, Cadmo alcança uma terra desconhecida V.
24, 25: "Cadmo agradece, beija a terra estrangeira e saúda os montes e campos desconhecidos". Desembarca numa floresta virgem, segundo o verso 29: "Uma antiga floresta jamais violada pelo machado se elevava..".

(28) Portitor, segundo Virgílio, significa barqueiro e, segundo Stace, aquele que leva ou traz alguma coisa. Para mais informações sobre esta constelação, consultar: Star Names their Lore and Meaning, Richard Hinckley Allen, Dover, New York, 1963.
 


O início da luta contra a "serpente", na presente interpretação geográfica, corresponde ao descobrimento do Rio Amazonas e
conseqüentemente do Brasil. A posição geográfica da desembocadura do rio parece encontrar-se no verso 50 : "O sol a pino já fazia exíguas sombras...". Sol a pino ou sol no máximo de seu curso significa sol de meio-dia, porém é muito improvável que a hora tenha alguma importância no descobrimento de um novo continente. Havemos de convir que neste verso se encontraria "encapsulada" a informação geográfica do lugar onde os estrangeiros de Tiro empreenderam a luta contra a enorme "serpente aquática". Corresponderia à linha equatorial, lugar geográfico no qual, em média, as sombras ao meio-dia são mais curtas que em qualquer outra latitude da Terra.

A seguir os versos de Ovídio descrevem poeticamente a luta para vencer uma imensa serpente, furiosa, que se curva e contorce sobre si, formando imensos círculos. Não é difícil notar que estes versos podem corresponder às descrições alegóricas das inúmeras ilhas e ao sinuoso curso do Rio Amazonas. Quem teve a experiência de conhecer de perto o majestoso rio reconhece nessas descrições poéticas o reflexo natural
que causa no espírito esse monstro da natureza. "O Amazonas é, sem dúvida, o máximo dos rios", disse o Padre João Daniel na sua descrição pré-científica do Amazonas (29) que diz ser chamado Paraná Petinga (mar branco) pelos naturais, ainda que seu nome indígena mais comum pareça ser Paraná Uasú (grande mar), na língua tupi (30) e, sem fazer a mínima alusão ao mito de Cadmo, o padre também imaginou o Rio Amazonas como se fosse um dragão descomunal. Eis aqui como o descreve: (sic) "ainda que, se há bichas de sete cabeças não é muito que este mar natante seja bicha de duas cabeças e gigante de dois braços".

A alegoria
tebana da serpente é uma obra-prima de criatividade poética; entretanto, não conseguiu transfigurar completamente a verdadeira natureza do "monstro aquático", como revelam os versos 77-80, por exemplo: "Ora se enrosca em espirais que fazem uma volta imensa, ora pára mais ereta do que um longo tronco, ora num enorme ímpeto, como um rio empurrado pela tempestade, se precipita e derruba com o peito as florestas que lhe são como obstáculos".

O hálito envenenado da serpente, citado no verso 49: "Mata (os navegantes de Tiro) com o sopro podre do funesto veneno", lembra o Styx, rio do Inferno, descrito por
Hesíodo como "um lugar penoso e úmido que mesmo os deuses consideram horrendo". Nos versos 32 e 33 encontramos uma alusão ao ouro, particularmente abundante nos Andes peruanos: "A crista notável pelo ouro, os olhos brilham como fogo, todo o corpo está cheio de veneno". Nesta alegoria, o brilhante metal, que incitou os homens de todos os tempos a realizar as mais arriscadas empresas de navegação, parece estar associado a vulcões. Com efeito, uma dezena de vulcões historicamente ativos - como olhos de fogo - encontram-se nos Andes, em particular nos Andes Orientais do Equador. Das encostas destes últimos nascem diversos rios que vertem suas águas no Napo, Pastaza e Santiago, importantes afluentes do Rio Marañón.

(29) Padre João Daniel, Tesouro Descoberto no Rio Amazonas (obra escrita na sua maior parte nos cárceres do Forte de Almeida, durante os anos de 1758 —1762). Anais da Biblioteca Nacional, Vol. 95, T-I, Cap. I, p. 27, Rio de Janeiro, 1975.
(30) Armando Levy Cardoso, Toponímia Brasílica, p. 185, Rio, 1961.

 


A existência de um período com intensa atividade vulcânica nos Andes, que a interpretação geográfica do mito de
Cadmo parece sugerir, permitiria compreender o significado dos versos 72 a 76: "Então uma nova causa acrescenta-se às suas iras costumeiras (entende-se, do rio, que neste ponto da luta corresponderia às suas nascentes), sua garganta se enche com as veias intumescidas de sangue e uma espuma esbranquiçada escorre em volta de seus lábios pestilentos e a terra, sobre a qual desliza, ressoa sob suas escamas; um hálito negro sai de sua boca, como a Estígia (31), e infecta o ar contaminado". A espuma que escorre dos lábios pestilentos da serpente, ou seja, do rio, seria uma descrição poética de um material vulcânico muito leve e poroso, que chega a ser menos denso que a água. Quando esse material condensa, depois de escoar pelas fissuras e bocas vulcânicas, é chamado pedra-pomes. Fragmentos de pedra-pomes foram vistos freqüentemente boiando nas águas do Amazonas. Segundo Antonio Raimondi, a pedra- pomes, desprendendo-se de algum terreno vulcânico situado no Equador, pelo qual passa o Rio Pastaza,  era arrastada pelas águas do rio, para continuar boiando no Amazonas (32).

A associação de atividade vulcânica com a
Hidra de Lerna pode ser facilmente identificada na literatura grega. Referindo-se ao fétido odor do Rio Anigrus, que nasce numa montanha de Arcádia, Pausânias diz que a desagradável exalação era atribuída ao veneno da Hidra (33). As exalações aludidas por Pausânias não são outras que os gases usualmente emitidos pelas fontes termais sulfurosas e nas proximidades de vulcões ativos.

(31) Chamado Styx (Stux) pelos gregos.
(32) "Sobre las tranquilas aguas del caudaloso Rio Amazonas, se ven bajar muchos trozos de piedra pómez, que vienen desde el centro de la República del Ecuador, por la província del Pastaza". A Raimondi, Minerales del Peru, p. 283, Lima, 1878.

(33) Pausânias T-II, V. 10; p. 407 Loeb. Classical Lib., London, 1977.
 


A topografia da "serpente" leva a soluções insuspeitadas, que se mostram com espontânea naturalidade. Alguns versos misteriosos ainda ocultam seus significados; não é fácil imaginar o sentido do verso 34, por exemplo: "Três línguas vibram em sua boca", porém, a seguir, o verso 35, que descreve as
fauces da serpente: "os dentes se arrumam numa tríplice fileira" é muito significativo. Os mitógrafos da antiguidade, inclusive Apolônio de Rodes, narram a semeadura dos dentes do Dragão no sentido óbvio, seja real ou simbólico; ninguém fez a mínima insinuação da possível identificação com as montanhas, que efetivamente são odonto.edhV! isto é, em forma de dentes. Agora, a presente interpretação nos leva a considerar esta possibilidade na topografia dos Andes. A cordilheira dos Andes é formada por elevadas montanhas cobertas de neve, que percorrem o lado ocidental da América do Sul. A partir do planalto do Collao, onde se encontra o lago Titicaca, a cordilheira se subdivide em três ramais principais que ao norte se reúnem em dois lugares: em Pasco, na região central do Peru, e em Loja, no Equador. Portanto, se a serpente que vence Cadmo é uma alegoria do Rio Amazonas, a tríplice fileira de montanhas, onde se encontram as cabeceiras do rio, pode ter inspirado a tríplice fileira de dentes atribuída ao Dragão. Com esta perspectiva, a semeadura de Cadmo significaria que o herói civilizador cultiva ou ensina o cultivo desses "dentes"; isto é, da cordilheira andina, por ordem da deusa Palas.

O prodígio incrível descrito por
Ovídio, "a miraculosa colheita dos dentes do Dragão", permitiria deduzir que Cadmo, ao chegar aos Andes do Peru, em vez de encontrar selvagens na idade da pedra, encontra uma multidão armada, obcecada numa luta fratricida; isto é, encontra um povo suficientemente "civilizado" a ponto de matar-se entre si numa funesta guerra civil; com flechas, lanças e quanto de mortífero o deus da guerra - chamado Aucayoc (34) pelos antigos peruanos - pôs nas suas mãos.

Estranha coincidência! cerca de
3.000 anos mais tarde, os conquistadores espanhóis, chamados viracochas pelos nativos peruanos, veriam descortinar-se as mesmas cenas bárbaras de uma luta fratricida. Nessa ocasião, os guerreiros disputavam um império decadente, dividido entre Huáscar, o legítimo herdeiro de Cuzco, e seu irmão Atahualpa, facilitando assim a conquista espanhola.

CADMO E VIRACOCHA

Existe algum herói civilizador andino nas tradições pré-colombianas que corresponda a Cadmo? A seguir iremos discutir esta possibilidade, sugerindo que, se tal figura existisse, poderia formar parte do conjunto mítico-religioso de Viracocha.

A semelhança da
hecatombe que os gregos ofereciam aos deuses nas grandes ocasiões, no Peru também, nas grandes festas cuzquenhas, particularmente na festa do Intip Raimi, que celebrava o solstício de junho, o inca oferecia cem lhamas em sacrifício ao Sol (35). Nesta oportunidade, respeitando antigas tradições, cada província era representada pelos seus principais curacas que traziam disfarces e máscaras, com os quais mantinham vivas as façanhas de seus heróis. Alguns dos disfarces chamavam particularmente a atenção; segundo Garcilaso, os índios chancas, da atual região de Ayacucho, cobriam-se com uma pele de puma (felix concolor) e com a cabeça posta na cabeça da fera pareciam a imagem de Hércules (36).

(34) Nome de Marte, deus da guerra na mitologia quéchua, segundo Blas Valera, Las Costumbres Antigas del Peru. Transcrito por Francisco A. Loayza em los Pequenos Grandes Libros de História da América. Série I, Tomo VIII, Lima, 1945.
(35) Polo de Ondegardo (1571), Religión y Gobierno de los Incas, p. 21, T-III Colec. de Lib. de Hist. del Peru, Lima, 1916.

(36) Garcilaso de la Vega, Comentários Reales de los Incas, Lib. IV, Cap. XV; Lib. VI, Cap. XX.
 


A notícia mais reveladora sobre um deus e civilizador solar se encontra no ciclo de mitos de Viracocha. A origem de Viracocha, de seu estranho nome que significa "graxa de mar" e das lendas que o cercam formam parte do grande enigma da civilização incaica. Entre as diversas e confusas narrações recompiladas após a conquista espanhola,
ressalta-se a de Pedro Gutierez de Santa Clara, de fins do século XVI por ser simples e informativa.

Nos povoados de Paita, Puerto Viejo e na
Ilha Apuná, relata Gutierez (37), desde tempos imemoráveis os índios usavam umas balsas de madeira leve (madeira balsa) e canas, com velas triangulares e timão de popa. Dizem que esta maneira de navegar seus antepassados a aprenderam de um homem que veio pelo mar, aportando nessas costas numa balsa com velas como até agora eles usam. A este homem chamaram Viracocha, que significa "espuma de mar" ou "graxa de mar", que foi engendrado pelo mar, sem pai nem mãe. Como os espanhóis chegaram navegando pelo mar, analogamente, foram chamados viracochas. Este curioso fragmento do acervo perdido de tradições mitológicas da costa norte do Peru mostra um viracocha-navegante; apenas uma faceta entre muitas do complexo mitológico de Viracocha.

(37) Gutierez de Santa Clara; citado por Henrique Urbano em Wiracocha y Ayar, p. 16, Cuzco, 1981.
 


As ruínas do templo principal dedicado a Viracocha se encontram em Cacha, no atual povoado de San Pedro de Cacha, situado nas margens direitas do
Vilcanota, rio considerado sagrado pelos incas, a 120km ao sul de Cuzco, caminho a Puno. No templo de Viracocha havia uma estátua esculpida em pedra; Garcilaso, baseando-se provavelmente nos manuscritos de Blas Valera, a descreve com estas palavras (38): "Era (como) um homem de elevada estatura, com barba comprida de mais de um palmo; seus vestidos eram amplos como uma túnica ou batina, chegando até os pés. Tinha um estranho animal, de figura não conhecida, segurado com a mão por uma corrente". Outro cronista, Cieza de Leon, que efetivamente passou por Cacha, relata ter visto a estátua de Tice Viracocha, porém nada fala da barba, diz (39): "Em memória de seu deus Tice Viracocha, a quem chamam criador, construíram este templo e puseram nele um ídolo de pedra da estatura de um homem, com vestimenta e uma coroa ou tiara na cabeça". Não temos mais a esperança de verificar algum dia o aspecto da estátua, por ter sido quebrada pelos iconoclastas espanhóis. As suas descrições não correspondem com a imagem que temos de Cadmo e Hércules, porém é instrutivo lembrar que os mesmos deuses ou heróis não foram representados sempre da mesma maneira por quem os adotou na sua religião. Luciano de Samosate (40), referindo-se ao Apolo sírio, cita um exemplo: a estátua de Apolo no templo de Hierápolis, diz Luciano, em vez de mostrar um adolescente desnudo, de acordo com as representações do Apolo grego, era representado por uma estátua de um homem adulto, vestido e com barba.

(38) Garcilaso de la Vega, Comentários Reales de los Incas, Lib. V, Cap. XXII.
(39) Pedro Cieza de León, La Crónica del Peru, Cap. XCVIII.

(40) Lucien de Samosate, La Déesse Syrienne, XXXV, trad. Mario Meunier; Guy Trédaniel; Ed. de la Maisnie, Paris, 1980.
 


QUANDO OCORREU O EVENTO MITOLÓGICO DE VIRACOCHA?

Viracocha literalmente significa graxa ou espuma de mar, na língua
quéchua. Nas tradições peruanas com este nome se descrevem navegadores mitológicos,  predicadores, taumaturgos, legisladores, e até ao próprio criador do universo chamavam com este nome. Viracocha é uma entidade mitológica de grande complexidade. Em relação à teologia dos gregos pela etimologia pode ser relacionado com Afrodite, que os mesmos gregos conectaram com a espuma do mar (
aphros, espuma). Hesíodo (41) diz que Afrodite havia nascido das águas após a mutilação do órgão reprodutor de Urano (céu) por seu filho Cronos. Do mar surge uma branca espuma e desta espuma nasce Afrodite.

Segundo algumas tradições peruanas, Viracocha, como criador, civilizador e legislador, aparece numa época de obscuridade e trevas. Por outros cronistas, a sua presença é relacionada com um
fenômeno que parece descrever uma erupção vulcânica. Não sabemos como foram transmitidas estas informações, apenas podemos conjecturar que os responsáveis por este fato foram os kipukamaios, usando um sistema mnemônico de cordas com nós, chamado kipus. A narração que estabelece a contemporaneidade da erupção vulcânica com a presença de Viracocha diz que na região de Cacha, para castigar os índios Canas que adoravam uma deusa situada nos pontos mais elevados das montanhas, Viracocha fez descer um pavoroso fogo do céu, e, como reação, a cúspide do cerro vizinho a Cacha pareceu fundir-se como cera (42, 43, 44).
Viracocha também é descrito como um venerável ancião com barbas, levando um cajado na mão (45). Pelo aspecto, os cronistas trataram de identificá-lo com algum personagem histórico. Influenciados pela forte pressão religiosa dos séculos XVI e XVII, interpretando as trevas, que segundo as tradições peruanas precederam a chegada de Viracocha, com as trevas da morte de Cristo (46) imaginaram que podia
tratar-se de algum apóstolo e, pelo conteúdo moral e religioso das lendas de Viracocha, foi identificado como Santo Tomás (47).

Antigas
crônicas espanholas indicam a existência de pedras pretas, vitrificadas e muito leves, nas proximidades de Cacha, que permitem inferir a existência de um vulcão extinto nessa localidade. Devido à falta de informações mais precisas sobre a natureza e a época do evento vulcânico, o autor realizou uma viagem de reconhecimento ao vulcão em fevereiro de 1985.

Do templo de Viracocha restam apenas alguns muros e as bases de algumas colunas cilíndricas. A construção desse edifício ocupa uma área
retangular de 92m de comprimento por 26m de largura, orientada no sentido N-S. No meio existe uma elevada parede de 12m de altura (48).

(41) Hesíodo, Teogonia V. 155-200.
(42) Juan de Betanzos (1551), Sinna y Narración de los Incas, Biblioteca Peruana, T-III; p. 208, Ed. Técnicos Assoe. S/A, Lima, 1968.
(43) Pedro Cieza de León (1553), El Senorio de los Incas, Cap. V, Instituto de Estúdios Peruanos, Lima, 1967.
(44) Pedro Sarmiento de Gamboa, História de los Incas, Cap. VIII, p. 108, AMECE Ed. S/A, Bs As, 1943.
(45) Juan de Santacruz Pachacuti Yamqui (1613). Citado por Henrique Urbano Viracocha y Ayarp. 21; Cuzco, 1981.
(46) Bíblia: Mateus 27,45; Marcos 15,33; Lucas 23,44.
(47) Juan de Santacruz P.Y. situa este evento no tempo de purwnpaclia. Segundo a tradição aimará, Viracocha é chamado pelo nome de Tonopa Viracocham — pacachan, identificando-o com Santo Tomás, Ob. Cit.

(48) Manuel Cháavez Ballón "El sitio de Raqchi y el Templo de Viracocha" em K'anchi por Vicente Guerra Carreno; Lima,1982.
 


Os fundamentos do edifício indicam que as paredes foram construídas usando grandes blocos de pedra, talhados e ajustados entre si com notável maestria. O modesto muro de adobe, superposto ao mais nobre de pedra, contrasta pela baixa qualidade indicando que se trataria de uma reconstrução posterior, possivelmente para preservar a estrutura original. O templo de Viracocha é o edifício incaico mais elevado que se conhece. Além de suas dimensões, o que mais chama a atenção são as colunas de grande diâmetro, das quais apenas restam as bases construídas em pedra, segundo a mesma técnica dos muros. O templo tinha
11 colunas eqüidistantes, alinhadas a cada lado da parede central, dando lugar a 12 vãos a Oriente e outros tantos a Ocidente.

A menos de um
quilômetro do templo está o vulcão extinto Quinsachata. Seu nome quéchua significa três irmãos, devido a três cerros que rodeiam a cratera, que é cônica e possui aproximadamente 100m de diâmetro. Em pouco menos de uma hora de subida, ajudado pelo filho do guardião desse sítio arqueológico, o autor conseguiu chegar até a cratera, que não é difícil de penetrar. Por todo lugar, esparsos, vêem-se fragmentos piroclásticos de rocha negra e porosa de diferentes dimensões. Esses fragmentos, também chamados bombas, foram ejetados pelo vulcão durante a erupção.

Um fragmento piroclástico negro, de aspecto vítreo, e muito poroso, como a maior parte das rochas que cobrem o solo de Cacha, foi submetido à análise espectroscópica. O resultado da análise indica que a rocha está constituída, principalmente, por um silicato de alumínio, cálcio, magnésio e sódio
. O teor elevado de sódio indica que se trata de uma lava bastante fusível e a cor preta pode ser atribuída à presença de ferro e titânio.

A observação das rochas vulcânicas in situ indica pouca erosão, apesar de serem muito porosas e o clima bastante severo, dando a impressão de uma erupção vulcânica geologicamente recente, que parece confirmar as tradições mitológicas. Devido a estas considerações não foi tentada a datação
direta das amostras de lava, já que, pelos poucos milênios que teriam transcorrido desde a erupção, nenhuma das técnicas físicas disponíveis seria adequada para este propósito (50).

Afortunadamente, podemos ter uma
idéia da antiguidade mínima dessa erupção vulcânica, sem a datação direta da lava. Um conhecido arqueólogo peruano, Manuel Chavez Bailon, proporcionou essa informação ao autor dias antes da visita ao vulcão. Ele afirmou ter achado, entre as fissuras da lava, fragmentos de cerâmica classificada como Tipo A de Marcavalle, datados entre 1.200 e 1.400 anos a.C. Isto significa que o vulcão entrou em erupção numa época anterior à data da cerâmica; indicando que o evento mitológico, narrado nas tradições peruanas, ocorreu há pelo menos 3.200 anos. Isto invalida definitivamente a tese eclesiástica; conseqüentemente, Viracocha deve ser incluído na esfera de eventos relacionados com as origens das antigas culturas peruanas, na época que os especialistas denominam formativo, quando, junto a outras técnicas, aparece também a fabricação da cerâmica.

A maioria de especialistas não deu a merecida atenção aos mitos peruanos que relatam cataclismos, à
exceção de Julio C. Tello e Toribio Mejia Xesspe, que interpretam esses mitos como tradições orais, que teriam sido conservadas pelo povo andino desde três a cinco mil anos atrás (51). Estes arqueólogos, após considerarem uma série de lendas que parecem relatar um cataclismo, chegam à conclusão de que se trataria de tradições legítimas, que relatam um fenômeno telúrico de grandes proporções, relacionado com as fortes perturbações das capas estratigráficas mais recentes observadas em diversas regiões do Peru, e que teria acontecido no período formativo. Concluem os autores citados que na área dos Andes ocorreu um cataclismo e que o prolongado escurecimento do céu ou eclipse, citado no mito de Huarochiri (52), teria sido causado por partículas de pó suspensas na atmosfera, resultado de violentas comoções sísmicas associadas a erupções vulcânicas.

Para confirmar as conclusões dos arqueólogos citados, temos ainda outra evidência que pode ser encontrada no trabalho de Augusto Cardich. Este autor resume os resultados das escavações estratigráficas realizadas na gruta de Huargo, a
4000m sob o nível do mar, situado no departamento de Huánuco (53). Apesar de não existirem vulcões num raio de centenas de quilômetros, nas escavações de Huargo foram localizadas duas camadas de terra contendo cinzas vulcânicas. A mais antiga, que contém a maior concentração de cinzas (10%), foi datada por radiocarbono em 1.620 ± 230 anos a.C. Neste estrato, que na época do seu assentamento deve ter causado um profundo escurecimento no céu, foram achados os fragmentos da mais antiga cerâmica descoberta nessa região andina.

(49) Análise realizada pelo engenheiro Luiz Fernando de Carvalho, nos Laboratórios CETEM do Rio de Janeiro.
(50) O autor agradece ao dr. G. Poupeau pelo esclarecimento sobre métodos de datação e suas limitações.
(51) Julio C. Tello y T. Mejia Xesspe. Paracas IIa Parte, cap. 3, Lima, 1979.
(52) "Contaremos ahora una história concercniente a la muerte del sol". "Antiguamente el sol murió. La oscuridadie dura cinco dias. Entonces las piedras se pusieron a golpear unas contra otras. Los morteros y las piedras de moler a comerse los hombres y las llamas aperseguirlos". Francisco de Avila, Manuscrito quechua, cap IV. Traduzido por Gerald Taylor, Ed. L'Harmattan, Paris, 1980.

(53) Augusto Cardich, Excavaciones en la Cueva de Huargo, Revista del Museo Nacional, T-39, pág. 11-29, Lima, 1973.

 


[ 1/3 -
PRÓLOGO,  MITOS ESTELARES COMO UM MEIO PARA CONSERVAR INFORMAÇÕES, O MITO DO COMBATE DE CADMO CONTRA O DRAGÃO ]

[ 2/3 - INTERPRETAÇÃO GEOGRÁFICA DO MITO DE CADMO, CADMO E VIRACOCHA, QUANDO OCORREU O EVENTO MITOLÓGICO DE VIRACOCHA? ]

[ 3/3 - ARQUEOLOGIA RELATIVA AO MITO DE CADMO, A CIDADELA DE LACÔNIA QUE CONSERVOU O NOME DO BRASIL, ADENDA: AS  CORRENTES  OCEÂNICAS, O DRAGÃO DE CEM CABEÇAS VENCIDO POR HÉRCULES ]

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