Instituto Histórico de Petrópolis
 24/09/1938
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31/07/2000
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Digitação utilizada para inclusão no site:
23/08/2012

Texto revisto segundo Princípios de Edição, considerado o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, promulgado pelo Decreto n.º 6.583/2008.

  

CADMO VENCE A IMENSA SERPENTE - 1ª PARTE - DESCOBRIMENTO DO BRASIL POR CADMO [3/3]

Enrico Mattievich

[ 1/3 - PRÓLOGO,  MITOS ESTELARES COMO UM MEIO PARA CONSERVAR INFORMAÇÕES, O MITO DO COMBATE DE CADMO CONTRA O DRAGÃO ]

[ 2/3 - INTERPRETAÇÃO GEOGRÁFICA DO MITO DE CADMO, CADMO E VIRACOCHA, QUANDO OCORREU O EVENTO MITOLÓGICO DE VIRACOCHA? ]

[ 3/3 - ARQUEOLOGIA RELATIVA AO MITO DE CADMO, A CIDADELA DE LACÔNIA QUE CONSERVOU O NOME DO BRASIL, ADENDA: AS  CORRENTES  OCEÂNICAS, O DRAGÃO DE CEM CABEÇAS VENCIDO POR HÉRCULES ]

ARQUEOLOGIA RELATIVA AO MITO DE CADMO

A interpretação geográfica do mito de Cadmo presume a existência de instrumentos de navegação, apropriados para a medida de arcos; mas, onde está o goniômetro que possa servir de prova? Para defender teses de navegação transatlântica durante o segundo
milênio, é necessário comprovar a existência de sólidas embarcações. Que evidências nos oferece a arqueologia?

Os elementos arqueológicos a favor da difusão transatlântica são abundantes e já foram apontados por diversos autores (54, 55). O que discutiremos a seguir está nos museus, representando uma comédia exibida com muita seriedade no palco da ciência.

O Museu de Antropologia e Arqueologia de Lima exibe um rústico monumento de pedra, de aproximadamente
60cm de altura. Encontra-se num dos corredores sem nenhuma indicação que atenda à curiosidade do visitante; talvez as autoridades do museu suspeitem de seu significado, porém não ousaram identificá-lo. Afortunadamente não tem a identificação proposta num guia de Sechin (56). Os autores deste guia, sem justificá-lo, presumem que a figura representa uma omoplata.

O monólito considerado foi achado no sítio arqueológico de Sechin (Casma), relacionado com a cultura Chavin e situado na costa peruana, ao norte do Departamento de Lima. Os restos mais antigos de carvão encontrados no templo principal de Sechin, datados por radiocarbono (57), indicam uma antiguidade de aproximadamente
1.000 anos a.C. Presume-se que os monólitos com figuras, encontrados em Sechin, têm pelo menos essa antiguidade. O desenho representa uma figura geométrica gravada na pedra com bastante profundidade. Fig. 5. A tosca figura sugere um quadrante com o cursor a meia escala (58). No vértice do quadrante se apresentam dois círculos concêntricos, como se esperaria que tivesse um instrumento que permitisse a rotação e ajuste do cursor. Não é necessário um grande esforço de imaginação para notar que nesse monumento pode estar a representação do mais antigo goniômetro construído pelo homem. A Fig. 5 (b) mostra o esquema de um quadrante para medidas de altura - azimute, semelhante ao instrumento usado pelo astrônomo Tycho Brahe (59), na segunda metade do século XVI. A ausência da escala no quadrante de Sechin poderia explicar-se devido ao tempo. Pelo uso prolongado, a escala, composta de riscos finos, poderia estar apagada no protótipo original; no caso de ter sido gravado em pedra como a representação de um símbolo ou relíquia, é muito provável que desde então tornara-se um objeto sem uso prático, neste caso, também os finos traços da escala, pela sua insignificância, dificilmente seriam representados.

(53) Augusto Cardich, Excavaciones en la Cueva de Huargo, Revista del Museo Nacional, T-39, pág. 11-29, Lima, 1973.
(54) Dick Edgar Ibarra Grasso, America en la Prehistória Mundial (difusión greco-fenícia), Buenos Aires, 1982.
(55) Barry Fell America A. C. (los colonizadores del Nuevo Mundo) Ed. Diana, México, 1983.
(56) Arturo Jimenez Borja y Lorenzo Samaniego Roman, Guia de Sechin, Casma - Peru, 1973.
(57) Rogger Ravines, Panorama de la Arqueologia Andina, p.160, Instituto de Estúdios Peruanos, 1982.
(58) Dick E. Ibarra Grasso na pág. 181 da Ob. Cit. também identifica o desenho de Sechin como instrumento náutico, chamando-o de quadrante.

(59) Nature nº 15, p. 409, March 8, 1877.

 


Fig. 5 —Monólito de Sechin (c. 1.000 a.C.) com figura esculpida em baixo relevo, análoga ao quadrante desenhado ao lado.

 

Pouco sabemos das embarcações que sulcavam as águas do Mediterâneo, de suas rotas e portos de destino, durante o 2º milênio a.C. Apenas por indícios é possível deduzir que o porto de Ugarit acomodava grandes embarcações. Pelas dimensões de uma âncora de pedra achada neste porto fenício, Miss Honor Frost estimou que a embarcação deslocava 200 toneladas (60). A maior surpresa encontramos num famoso museu, exibida sob a ingênua identificação de embarcação funerária.

No Museu Nacional de História, em Chicago,
encontra-se uma embarcação de cedro de 32 pés (9,6m) de comprimento (61). Esta embarcação formou parte das oferendas funerárias do Rei Sesostris (Senusret) III, que pela cronologia histórica viveu ao redor de 1.800 anos a.C; entretanto, pela datação mediante radiocarbono realizada no casco de cedro da embarcação, a idade indica 1.670 ± 180 a.C. A embarcação foi enterrada perto da sua pirâmide, em Dahsur. Os egiptólogos interpretaram esta oferenda funerária como parte de um ritual religioso: como sendo a embarcação que transportaria a alma do faraó através das águas, para alcançar o mundo inferior. Já indicamos que o mundo inferior ou Hades, como era chamado pelos gregos, poderia ser uma referência à América. Note-se o desenho robusto e elegante do casco desta embarcação, Fig. 6, construída com grossos pranchões de cedro, adequado até para enfrentar o oceano. Quando os egiptólogos, retificando um erro histórico, aceitarem a hipótese da navegação transoceânica nessa época, poderão escrever a seguinte errata: Onde se diz "com esta embarcação de cedro Sesostris III planejava navegar ao mundo dos mortos" - diga-se - "com esta embarcação de cedro Sesostris III planejava navegar à América".

(60) Citado na pág. 131, nota 7, The Cambridge Ancient History II - Part 2, Cambridge, 1975.
(61) The National Geographic Magazine V. 114 N - 2, Aug. 1958. Washington, D. C.

 



Fig. 6 – Embarcação de cedro mediante a qual Sesostris III planejava navegar até o inferno (1670 +180 a.C.)

 


Outro modelo em escala natural de uma embarcação oceânica pode estar mascarado sob o nome de "barca funerária de Queops".
Trata-se de uma magnífica obra de engenharia naval, de 42,6m de comprimento (62). Fig. 7. Algumas das pranchas de cedro usadas nessa embarcação medem 18m. As maiores embarcações saídas dos estaleiros do Egito, segundo os registros escritos na pedra de Palermo, foram construídas pelo rei Sneferu (63). Ele trouxe ao Egito quarenta embarcações carregadas de madeira. Com esse material construiu 44 embarcações, algumas de até 100 cúbitos, equivalente a 51m de comprimento.

(62) The Cambridge Ancient History V-I Part 2, p. 347, 3rd Ed.
(63) Idem, p. 346.

 


Fig. 7 – Modelo de embarcação oceânica, com 42,6m, achado junto a pirâmide de Quéops.

 


Se conseguirmos imaginar uma elegante embarcação, com a empertigada proa coroada por uma carranca deslizando sobre a "sinuosa serpente", como poucos anos atrás embarcações semelhantes
sulcavam as águas do São Francisco, teremos conseguido visualizar a embarcação de Cadmo. Pausânias permite este vôo de imaginação, reportando que em Tebas havia três imagens de Afrodite, esculpidas na madeira que procedia da carranca do barco de Cadmo (64).

Cadmea,
a cidadela tebana que Cadmo fundou em Beócia (Grécia), foi descoberta e escavada. Entre os restos que acusam um incêndio de grandes proporções, foram encontradas jarras para armazenar vinho e azeite; fragmentos contendo inscrições tipo Linear B, confirmando a conexão minóica; fragmentos de marfim, dos objetos de arte que decoravam as suntuosas habitações do palácio, mostrando a opulência e luxo de seus habitantes. Também foi achado um tesouro de pedras semipreciosas, inclusive 39 cilindros de lápis-lazúli gravados segundo o estilo kassita de Babilônia, indicado dilatados contatos com as fronteiras orientais (65).

Do palácio de
Cadmo apenas restam indícios do luxo e opulência. Hoje, em vez de perfumes exóticos e aromáticos vinhos, os escombros exalam o acre odor de terra queimada, evocando o fim trágico de uma raça. No perímetro dessa cidadela, uma das mais recordadas nas tragédias de Esquilo, teve seu fim a estirpe de heróis. Na obra "Sete Contra Tebas" se narra esse drama. Cilindros, vasilhas, inscrições, nenhum dos restos retirados do solo queimado da Cadmea permite supor que a cidadela foi habitada após o incêndio. O sítio permaneceu desocupado até a era cristã, confirmando as informações que nos transmite Estrabão (66).

Na época que Pausânias passou pela localidade, onde diziam se encontravam os restos da própria casa de
Cadmo, perto dos portais e do túmulo dos soldados que lutaram contra as tropas de Alexandre, foi-lhe indicado o lugar que Cadmo teria semeado os dentes. Pausânias não deu crédito a essa história (67). Longe estava de imaginar como eram grandes os dentes do Dragão que Cadmo semeou!

(64) Pausânias IX, XVI, 3.
(65) The Cambridge Ancient History V. II, Part 2, p. 168, 3rd Ed.
Cambridge, 1975.
(66) Idem, p. 169

(67) Pausânias, IX, X, 1

 


A CIDADELA DE LACÔNIA QUE CONSERVOU O NOME DO BRASIL

Nos mitos e na
toponímia da península de Lacônia, no extremo sul da Grécia, se conservou a proeza realizada por Cadmo. Como se a costa oriental de Lacônia representasse a costa da América do Sul, e tudo pudesse ser reduzido ao pequeno porto micênico situado no golfo de Argos, o porto recebeu o nome Brasiae. Lacônica geografia. A pequena península de Lacônia representava em miniatura toda a América do Sul!

O nome antigo de Lacônia, citado por Homero, era Lacedemone. Segundo alguns autores, este nome se devia ao herói
Laco ou Lacedemone; segundo etimólogos modernos se devia a Lacus ou Lacuna, devido ao profundo vale rodeado por montanhas, pelo qual corre com largura o Rio Eurotas. Privilegiada por seu agradável clima e belos panoramas, foi denominada por Homero com o epíteto de "A amável Lacedemone" (Ilíada, III, 443). É possível que há três ou mais milênios estivesse coberta de exuberantes bosques; hoje, entretanto, seu solo desgastado é adequado apenas ao cultivo da oliveira. No meio de Lacônia, a oeste do que foi Brasiae, está Esparta, banhada pelo Eurotas, Fig. 8. Seus habitantes (espartoi = homens semeados), se diziam descender dos dentes semeados por Cadmo.


Fig. 8 -  O nome Brasil é muito antigo e se conservaria numa cidadela da Lacônia.

Pausânias (III, 24, 3) refere que os habitantes de Lacônia conservavam uma série de mitos relacionados com o mundo inferior ou Hades (68). Os habitantes de Brasiae dizem possuir uma história que não se encontra em nenhum outro lugar da Grécia. Narram que a filha de Cadmo, Semele, após ter de Zeus seu filho, Dionísio, foi depositada num cesto, e junto a seu filho foi arrojada nas costas de Brasiae. Por este motivo, prossegue Pausânias, o nome do lugar ao qual foram levados pelas ondas do mar, e que antes se chamava Oreiatae, foi mudado por Brasiae. Efetivamente, Brasis (BrasiV) expressa em grego a ação pela qual as ondas arrojam na praia os objetos que flutuam no mar (69). Isto nos leva a reconsiderar a origem do nome Brasil. Teria realmente o nome Brasil sua origem na palavra semítica BRZL, que significa ferro, como afirma o professor Cyrus Gordon? Ou o seu nome teria vindo do significado micênico do verbo Brasis, e o ferro, descoberto nessa época e achado com abundância no Brasil, teria recebido seu nome desse lugar?

(68) No outro lado do mundo familiar aos taciturnos Lacedemones, também se conservaram indícios de presença grega, na península Yucatán. Não posso deixar de citar neste ponto um fragmento da História de los Incas escrita pelo erudito navegante e descobridor espanhol Pedro Sarmiento de Gamboa (*1532, + 1592). Concordando com as observações de outros historiadores e cronistas, assinala a presença grega na América Central, inclusive citando uma província de México que conservou o nome Lacandones, que parece corresponder ao nome grego Lacedemones. Eis aqui, textualmente, as curiosas observações de Sarmiento de Gamboa: "Dice Strabón, y Solino, que Ulises, despúes de la expugnación de Troya, navego en poniente, y en Lusitania poblo a Lisbona; y después de edificarla, quiso probar su aventura por el Mar Atlântico, Oceano por dende ahora venimos a las índias, y desaparició, que jamás se supo después que se hizo. Esto dice Pero Anton Beuter, noble historiador valenciano y, como el mismo refiere, así lo siente el Dante Aligieri, ilustre poeta florentino. Este Ulises, dando crédito a lo dicho, podemos deducir por indícios que de isla em isla vino a dar a la tierra de Yucatán y Campeche, tierra de Nueva Espana, porque los desta tierra tienen el traje, tocado y vestido grecesco de la nacion de Ulises, y muchos vocablos usan griegos y tienen letras griegas. Y desto yo he visto muchas senales y pruebas. Y llaman a Dios Teos, que es griego, y aún en toda Nueva Espana usan deste término Teos por Dios. Oi tambien decir, pasando yo por allí, que antiguamente conservaron éstos una áncora de navío como en veneración de ídolo, y tenian cierto Génesis en griego, sino que disparataba a los primeros pasos. Indicios son bastantes de mi conjetura sobre lo de Ulises. Y de allí se pudieron poblar todas aquellas províncias de México, Tabasco, Jalisco y las septentrionales éstas, y los Zapotecas, Chiapas, Guatemalas, Honduras, Lacandones, Nicaraguas y Tlaguzgalpas, hasta Nicoya y Costa Rica y Beragua.”  Ps. 98 e 99, Pedro Sarmiento de Gamboa, História de los Incas, EMECÉ EDITORES, Bs. As. 1943.
(69) Brasilas ou Brasidas, nomes próprios de pessoas em Sparta
[BrasiV]
(Brasis) significa borbulhamento (da água), fermentação, fervura. Também significa a ação da água de rejeitar objetos na praia. P. 376, A. Baily, Dictionnaire Grec Français, Hachette, Paris, 1950.
 


ADENDA

AS  CORRENTES  OCEÂNICAS

Thor Heyerdahl publicou um estudo (70) no qual demonstra a rota mais provável através do oceano, seguida pelos antigos navegadores, para chegar a América. Segundo Heyerdahl, uma poderosa corrente começa ao norte da África, passa pelas ilhas Canárias e se dirige diretamente ao litoral norte da América do Sul e ao Golfo de México. Esta rota oferece um clima calmo e favoráveis condições de navegação, com ventos predominantes na mesma direção da corrente oceânica. Ele escolheu como porto de partida, nas duas expedições Rá, a cidade de Safi, na costa Atlântica de Marrocos (71). Com esta escolha queria provar que fenícios, egípcios, líbios, e outros navegadores do Mediterrâneo, seguiram a mesma rota, tirando vantagem dos ventos e correntes oceânicas favoráveis, para chegar à América milhares de anos antes de Colombo. Ao sul de Safi se encontra a montanha que os nativos sempre denominaram Dyris ou Daram e Heródoto a identificou com o mitológico monte Atlas. Eu demonstrei que Heródoto acreditava na realidade geográfica dos mitos, porém os limites ocidentais do mundo conhecido se haviam reduzido, terminando nos extremos ocidentais de Europa e África. O mitológico Atlas, referido na Teogonia de Hesíodo, se encontrava na América do Sul (72). Perto de Safi estão as formidáveis ruínas megalíticas do porto fenício de Lixus. Seus muros orientados pelo Sol e construídos com imensas pedras perfeitamente ajustadas a seco, nos fazem lembrar os muros ciclópicos dos Incas. Ressaltando a importância que teve o porto fenício de Lixus na antiguidade, Heyerdahl o descreve assim (73): “A historia de Lixus se desvanece na alvorada da história. Os romanos a chamaram Cidade Eterna e diziam que ali repousam os restos de Hércules, o grande herói dos gregos e fenícios (Os gregos o chamam Héracles e o identificam com o Melkart dos fenícios). Os adoradores do Sol que a construíram, orientaram os gigantescos muros megalíticos com o Sol. Seu mais antigo nome conhecido, em efeito, foi Cidade do Sol e, certamente, quaisquer que a tenham fundado e construído, conviviam nessa cidade com: sacerdotes, astrônomos, escribas, hábeis pedreiros e ceramistas.

(70) Heyerdahl, Thor (1963),  Feasible Ocean Routes to and from the Americas in Pre-Columbian Times, American Antiquary, Vol. 28, Nº 4, pp. 482-488.
(71) “Las Expediciones RA”, por Thor Heyerdahl, Editorial Juventud, Barcelons (España), 1980.

(72) “Journey to the Mythological Inferno”, Chapter II, by Enrico Mattievich, Rogem Press, Denver, 2010.

(73) “Isolationist or Diffusionist?” by Thor Heyerdahl – (1971) www.whiteindians.com/diffusionism.html

 


A travessia oceânica desde África até América, na Idade de Bronze, navegando pela corrente das Canárias, como demonstrou Heyerdahl nas duas expedições Rá, podia realizar-se em menos de dois meses e possivelmente não mais de um mês, considerando a destreza dos navegadores fenícios. No entanto, o retorno desde América não era factível pela mesma rota, porque a embarcação deveria vencer a forte corrente, e navegar contra os ventos prevalecentes desfavoráveis. A dificuldade da viagem de retorno é citada explicitamente no sexto livro da “Eneida” de Virgilio (VI, 126-129), nas instruções que o troiano Enéas recebe da Sibila de Cumas, antes da jornada ao mundo inferior:


Ó Troiano, filho de Anquises, gerado do sangue dos deuses
É fácil a descida ao Averno: durante as noites e os dias está
Aberta a porta do negro Plutão; mas volver pelos mesmos passos
E sair (novamente) para os ares vitais, esta é a grande dificuldade
(*).


(*) Daqui, o adágio: hoc opus, hic labor est = aqui é que a porca torce o rabo.

Nos mil e vinte dois versos da Teogonia, Hesíodo cita “O grande Oceano”, “A profunda corrente do Oceano” e “A corrente do Oceano que circunda a terra” pelo menos seis vezes. Evidentemente, esses versos indicam um conhecimento das correntes oceânicas, que hoje sabemos resultam da aceleração de Coriolis, devido ao movimento de rotação da Terra. Certamente essas “correntes oceânicas” não foram inventadas pelo poeta. Seu conhecimento veio das experiências náuticas realizadas pelos navegadores oceânicos da Idade de Bronze.

No mapa das correntes oceânicas, que apresenta no seu livro Ra (primeira figura dos Adenda), Heyerdahl mostra que devido à aceleração de Coriolis, a corrente tem movimento anti-horário no hemisfério sul e circula no sentido horário no hemisfério norte. Desde a desembocadura do Rio Solimões -- que todos conhecem pelo nome Amazonas -- a corrente equatorial favorece a navegação para o hemisfério norte. A partir da Flórida, inicia-se uma forte corrente tropical, chamada Corrente do Golfo, que se dirige ao norte da Europa. Logo, a jornada natural de retorno, desde a foz do Amazonas, seguindo a corrente oceânica, era mais extensa e demorada.

A descoberta da Corrente do Golfo, ou mais corretamente, a sua primeira citação, aconteceu duas décadas após o descobrimento do Novo Mundo. A início de março de 1513, Ponce de Leon levantaram velas navegando desde Porto Rico, com três embarcações, numa viagem de exploração. Seguindo rumo noroeste a expedição descobriu Flórida, aportando em algum lugar da costa leste, próximo ao Cabo Canaveral. Levantando velas em 22 de abril para voltar ao Sul, encontraram “uma corrente tão forte que, apesar de ter vento favorável de popa, eles não conseguiram avançar, sendo arrastados em direção contrária”. Foi assim que a Corrente do Golfo foi notada pela primeira vez. Durante as centúrias seguintes, os marinheiros aproveitaram a Corrente do Golfo, porém essa informação era mantida como um segredo profissional (74).

A Corrente do Golfo se forma no Mar Caribe, a partir da Corrente de Guiana. É uma corrente intensa de águas mornas que se deslocam em direção norte desde a costa da Flórida e logo giram na direção leste desde Norte Carolina, fluindo rumo nordeste através do Atlântico. A Corrente do Golfo flui aproximadamente 300 vezes mais rápida que a corrente do Amazonas. A maior velocidade é na superfície, de aproximadamente 5,6 milhas por hora (9km por hora). Conforme avança ao norte a velocidade da corrente diminui e se reduz a uma milha por hora (1,6km por hora). A Corrente do Golfo transporta aproximadamente quatro bilhões de pés cúbicos de água por segundo, uma quantidade de água superior a toda a água transportada por todos os rios combinados do mundo (75).

(74) “The Sea” by H. A. Marmer, Chapter XVIII, p. 266, D. Appleton and Company, New York, 1930.

(75)  www.oceanservice.noaa.gov/facts/gulfstramspeed.html
 


O DRAGÃO DE CEM CABEÇAS VENCIDO POR HÉRCULES

A constelação circumpolar de Hércules, entre Lira e Boieiro (Bootes), mostra o herói vestido na pele do leão, ameaçando com a clava ao Dragão e pisando com seu pé a cabeça da serpentiforme constelação. A constelação do Dragão, seu corpo enrolado no céu estrelado, é representada entre as duas Ursas. Na terra essa serpente protegia a entrada do jardim das Hespérides, identificadas com as Górgonas por Hesíodo (Th. 274-278): As Górgonas habitam no outro lado do glorioso Oceano, nas regiões extremas próximas da noite, lá onde estão as Hespérides de sonoras vozes: Esteno, Euríale e Medusa; esta última, que sofre um espantoso infortúnio, é mortal; as outras duas são imunes à morte e à velhice...” Depois que Hércules mata o Dragão, é posto por Juno (Hera) entre as estrelas (76). Para realizar esse trabalho, Hércules recebe de Hélios a embarcação que lhe permitirá cruzar o Oceano (77).

Existem três contendas sobre a mitológica representação de Draco. De longe a versão mais comumente aceita da sua representação no céu é a versão que identifica Draco com o dragão vencido por Cadmo (78).  Eu também concordo com esta interpretação. Na minha interpretação geográfica o mito estelar de Cadmo é uma alegoria que imortaliza a conquista do Rio Amazonas na Idade de Bronze (79). Divido à precessão dos equinócios, uma das estrelas de Draco, provavelmente
a Thubam, era a estrela mais próxima ao pólo norte, uma referência muito importante para a navegação oceânica. Draco é visível durante todo o ano no hemisfério norte, mais para o navegador situado no hemisfério sul, debaixo da latitude de 10º Draco é invisível. Para conquistar o Rio Amazonas, situado no hemisfério sul, de certa forma, é necessário “matar” Draco. Virgilio (Georgicas, Livro I, 242-246)  chama Maximus Anguis à constelação de Draco, e localiza o Rio Styx, do mundo inferior, no hemisfério sul:

Um dos pólos esta sempre acima de nossas cabeças; o outro debaixo de nossos pés
Frente a frente do negro Styx, nas profundidades onde vão as almas.
Aqui, o imenso Dragão passa, a maneira de um rio, ao redor e através
Das duas Ursas, as Ursas que temem mergulhar no plano líquido.

(76) “The Myts of Hyginus” by Mary Grant, p.184, University of Kansas Publications, Lawrence, 1960.
(77) “Python” – A study of Delphic Myth and its Origin – By Joseph Fontenrose, p. 345, University of California Press, 1980.
(78) www.constellations-class.webs.com/lesson4.htm

(79) According the inscribed Marmor Parium stele, preserved in the Ashmolean Museum, Oxford, Cadmus is placed three hundred ten years before the fall of Troy. Hercules lived fifty two years and his death was placed about twenty sixth years before the Troyan Era. Thus, Cadmus precedes Hercules by about two hundred years. “Fasti Hellenici”, The Civil and Literary Chronology of Greece, by Henry Fines Clinton, Vol.
III, p. 75 to 85, Oxford, At the University Press, 1834.

 


[ 1/3 -
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[ 3/3 - ARQUEOLOGIA RELATIVA AO MITO DE CADMO, A CIDADELA DE LACÔNIA QUE CONSERVOU O NOME DO BRASIL, ADENDA: AS  CORRENTES  OCEÂNICAS, O DRAGÃO DE CEM CABEÇAS VENCIDO POR HÉRCULES ]

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