Tribuna de Petrópolis: 17/06/2001

EDWIGES DE QUEIROZ OITENTA ANOS DEPOIS

Parte 1

Francisco de Vasconcellos

Legítimo rebento da zona rural fluminense, Manoel Edwiges de Queiroz Vieira veio ao mundo a 17 de outubro de 1856, na fazenda Bengalas, na então freguesia de Santana de Macacu, no atual município de Cachoeiras de Macacu.(1)

(1) - Quando Edwiges de Queiroz nasceu, a então freguesia da Santíssima Trindade e Santana de Macacu, pertencia ao velho município de Santo Antonio de Sá, com sede na vila do mesmo nome, tendo sido esta criada em 15 de maio de 1679. Por questões de insalubridade, o decreto nº 1379 de 6 de novembro de 1868, transferiu o caput do município para a freguesia de Santana de Macacu. Em 29 de setembro de 1877, através do decreto nº 2244, o governo provincial modificou o nome daquela comuna fluminense, que passou a chamar-se Santana de Macacu, uma vez que há nove anos ali estava funcionando a sede municipal. Em 10 de dezembro de 1898, nova alteração de nome - Santana de Japuiba, e, em 27 de dezembro de 1923, deu-se mais uma transferência de local, passando a vila a funcionar na povoação de Cachoeiras de Macacu, que recebeu foros de cidade a 27 de dezembro de 1929.


Seus pais foram o Coronel Emygdio Antonio Lopes Vieira e D. Deomethides de Queiroz Vieira.

Criança ainda, sofreu acidente numa tacha de açúcar. O melado fervente mutilou-lhe a mão direita. O defeito físico perseguiu-o a vida toda. Muito vaidoso e elegante, jamais apareceu em público sem que tivesse a destra discretamente escondida no bolso da calça. Não há uma só fotografia sua em que a mão sinistrada se faça visível.

Seus implacáveis adversários na vida pública fizeram desse infortúnio uma arma para feri-lo. A alcunha pejorativa de "Mãozinha" foi glosada em prosa e verso nos discursos inflamados, nas badernas de estudantes, nas sátiras populares, nas colunas desabridas e ferozes da imprensa.

Aluno interno do Colégio Pedro II, bacharelou-se em humanidades em fins de 1874. No ano seguinte rumou para São Paulo onde matriculou-se na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, colando grau em Ciências Jurídicas e Sociais em 1879.

De volta à terra natal, aí exerceu a advocacia por algum tempo. Em 1885 foi nomeado pelo Governo Imperial juiz municipal e de órfãos do termo de Santana de Macacu. Em 1887, acolhida sua solicitação, conseguiu transferência para o termo de Rio Bonito, mantendo-se na judicatura até 1889, quando já proclamada a República.

Filiado ao Partido Conservador, de que era chefe na antiga Província do Rio de Janeiro o Conselheiro Paulino José Soares de Souza, continuou Edwiges de Queiroz, já sob o novo regime instaurado a 15 de novembro, ao lado desse prestigioso prócer, acompanhando-o na luta contra o primeiro governador do Estado, Dr. Francisco Portela.

Sobre essa luta, de que participaram, entre outros, republicanos históricos do quilate de José Thomaz da Porciúncula, Alberto Torres, Barros Franco Junior, Maurício de Abreu, Geraldo Martins, Teixeira Leite, valem algumas considerações, até por ter ela assinalado o fortalecimento do nascente Partido Republicano Fluminense.

Enfocando as origens da república na ex-província do Rio de Janeiro, Antonio Figueira de Almeida na sua "História Fluminense", Rio, 1930, valendo-se do testemunho de Miguel de Carvalho, atesta que "as organizações republicanas regulares tiveram início em São Fidélis, no ano de 1876 com Érico Coelho que ali fundou o jornal 'O Povo' e, em Paraíba do Sul, com Leopoldo Teixeira Leite".

O mesmo Figueira de Almeida declara terem sido Francisco Portela, Augusto Pinto Laper, José Thomaz da Porciúncula, os primeiros republicanos a terem acesso à Assembléia Provincial, abrindo campo para que outros adeptos das novas idéias viessem engrossar as fileiras dos que se opunham à monarquia.

Por toda a Velha Província multiplicaram-se os propagandistas da república. Os líderes foram indubitavelmente Teixeira Leite e Barros Franco Junior em Paraíba do Sul; Porciúncula e Hermogenio Silva em Petrópolis; Maurício de Abreu em Sapucaia; Francisco Portela, Pedro Tavares e Nilo Peçanha em Campos; Fidélis Alves em Itaboraí; Alberto Torres em Niterói; Ferreira da Luz em Pádua; João Francisco Barcelos em Valença; Gustavo Jardim em Resende; José Bueno em Saquarema e Ciro de Azevedo em Rio Bonito.

Vitorioso o movimento de 15 de novembro, nesse mesmo dia tomou posse interinamente no governo fluminense o Capitão Francisco Victor da Fonseca e Silva. A 16, nomeado por decreto de Deodoro, a conselho de Quintino Bocaiúva, assumiu o executivo fluminense o médico piauiense Francisco Portela, há muito radicado em Campos dos Goitacazes, onde fora jornalista e empresário, sobejamente conhecido como republicano ortodoxo.

A 20 de março de 1891 foi eleita a primeira constituinte republicana no Estado. O clima era bastante tenso pois o governador era acusado, entre outras coisas, de fraudador do processo eleitoral.

Edwiges de Queiroz, candidato a deputado pela oposição a Portela, não conseguiu eleger-se. Curiosamente, em Petrópolis, terra a que mais tarde ligaria o seu nome, obteve 270 votos, tendo sido o 37º candidato mais votado.

A 11 de maio do mesmo ano, a Assembléia elegia Francisco Portela e Arthur Getulio das Neves, respectivamente, Governador e Vice-Governador do Estado e a 29 de junho a constituinte encerrava seus trabalhos, promulgando a primeira Carta desta unidade da federação.

O segundo semestre de 1891 começou bastante tumultuado. As crises sucediam-se no âmbito do Governo Federal e já em outubro era flagrante o confronto entre Deodoro e o Congresso. A 3 de novembro foi este fechado pelo Marechal Presidente, que assim tornou-se o primeiro ditador da história republicana brasileira. Estávamos enfim nivelados à maioria dos nossos vizinhos atormentados pelo caudilhismo desenfreado e inconseqüente.

Conquanto todos os governadores dos Estados, a exceção de Lauro Sodré, do Pará, tivessem endossado o golpe de Deodoro, grupos exaltados, notadamente na Capital Federal, conspiravam visando à deposição do Generalíssimo.

Os despautérios do aprendiz de ditador não lhe garantiram mais que três semanas à frente dos destinos da República, já claudicante.

A 23 de novembro ele renunciava e o efeito cascata fez-se sentir nos Estados, com a queda dos governadores. Francisco Portela não escaparia dessa derribada por atacado. Uma revolução com fulcro em Paraíba do Sul pôs fim ao curto e medíocre mandato do piauiense, que resignou o cargo a 10 de dezembro. O Vice Artur Getulio das Neves recusou-se a assumir o governo. Da mesma forma agiram os demais substitutos legais do governador. Instaurou-se assim, por alguns dias, a balbúrdia administrativa no Estado.

O quadro era de tal modo calamitoso, que Artur Azevedo chegou a publicar venenosa quadra em "O País", tão oportunamente recordada por Brígido Tinoco em seu "A Vida de Nilo Peçanha":

De mão em mão anda a vara!
Ninguém a quer aceitar;
Anunciam - cousa rara:
Estado para alugar.

Diante de tão graves ameaças à integridade estadual, Floriano Peixoto, no exercício da Presidência da República, ordenou que fosse empossado na governadoria do Estado do Rio de Janeiro, o Contra-Almirante Balthazar da Silveira, que assumiu a 14 de dezembro de 1891, segundo a segura informação de Figueira de Almeida.

O novo chefe do executivo fluminense, que não ficaria no poder mais do que quatro meses, dissolveu a Assembléia e convocou nova Constituinte.

Dessa agremiação de constituintes que trabalhou sob a presidência de José Thomaz da Porciúncula, fez parte, como 1º Secretário, o Dr. Edwiges de Queiroz.

Era na verdade uma assembléia composta dos nomes mais representativos da política estadual. Clodomiro Vasconcelos, em sua "História do Estado do Rio de Janeiro", traz à pág. 190, a relação dos integrantes desse corpo legislativo, entre os quais destacavam-se Manoel Henrique da Fonseca Portela, Joaquim Maurício de Abreu (futuro presidente do Estado), Alberto de Seixas Martins Torres (idem), Agostinho Vidal Leite de Castro, Antonio Furquim Werneck de Almeida, Alfredo Augusto de Guimarães Backer (também futuro presidente do Estado), Alcebíades Peçanha (irmão de Nilo, mais tarde figura destacada na diplomacia brasileira), Francisco Pinheiro de Souza Werneck (Barão de Ipiabas), Hermogenio Pereira da Silva (chefe político de expressão em Petrópolis até 1910), Lourenço Maria de Almeida Batista (Barão de Miracema), João Francisco Barcelos, Leopoldo Teixeira Leite, José de Barros Franco Junior, Oscar de Macedo Soares, João Gomes de Matos, Sebastião Eurico Gonçalves de Lacerda (futuro Secretário de Interior e Justiça de Maurício de Abreu, avô de Carlos Lacerda).

A 9 de abril de 1892, encerram-se os trabalhos da Constituinte. Vinha a furo, finalmente, a nova constituição do Estado, que haveria, apesar das revisões que sofreu, de orientar a vida político administrativa fluminense por quatro décadas.

Na mesma data foram eleitos pela Assembléia, para um mandato tampão, para exercerem a presidência e a vice-presidência do Estado, respectivamente, o Contra-Almirante Balthazar da Silveira e Miguel Joaquim Ribeiro de Carvalho.

As eleições pelo voto direto da população foram marcadas para 24 de abril e delas saiu o nome de José Thomaz da Porciúncula para Presidente desta unidade da Federação. A posse do renomado prócer republicano deu-se a 3 de maio e o mandato terminaria a 31 de dezembro de 1894.

Para a Assembléia Legislativa, que começou suas sessões em 6 de maio de 1892, foi Edwiges de Queiroz eleito com 18.911 votos, colocando-se em 32º lugar entre os sessenta deputados sufragados pelo povo para compor o legislativo fluminense.

Da mesa provisória desse corpo legislativo, presidida por Paulino Soares de Souza Junior, fez parte Edwiges como 1º Secretário.

E quando a 22 de julho de 1892, elegeram-se os membros da mesa definitiva da Assembléia Legislativa fluminense, o nosso biografado foi mais uma vez apontado para 1º Secretário. Os demais cargos foram assim preenchidos: Presidente, o Deputado Castrioto; 1º e 2º Vice-Presidentes, os Deputados Ferreira de Matos e Ferreira da Luz; 2º Secretário, Geraldo Martins.

Além de sua função meramente burocrática, o Deputado Edwiges de Queiroz não foi dos mais atuantes, fosse na discussão de temas polêmicos, ou na apresentação de projetos de interesse do Estado, onde tudo estava por ser feito.

Apenas, na sessão de 9 de setembro de 1892, propôs a criação de uma escola do sexo masculino na localidade de Catimbau Grande, no município de Araruama e, a 25 de janeiro de 1893, votou com mais 26 colegas a favor da transferência da capital do Estado de Niterói para Teresópolis (2).

(2) - Sobre a transferência da capital de Niterói para Teresópolis, ver o alentado ensaio que fiz publicar na Revista do Instituto Histórico de Petrópolis, vol. II, ano de 1981, págs. 121 e segs.


A turbulência política no primeiro semestre de 1893 foi tão grande a nível federal quanto estadual. Havia no ar uma inquietação que perturbava a boa marcha dos trabalhos legislativos e a caprichosa e bem intencionada administração de Porciúncula.

A 6 de setembro, rebentou a revolta de parte da Armada na baía da Guanabara e, como Niterói tornou-se altamente insegura para abrigar a sede do governo do Estado, o Presidente, não tendo condições ainda de transferi-la de fato para Teresópolis, que ainda era um projeto in fieri, trouxe-a para Petrópolis, onde os poderes do Estado começaram a funcionar precariamente em 18 de dezembro de 1893. A transferência provisória deu-se pela lei de 30 de janeiro de 1894 e a definitiva, a 1º de outubro do mesmo ano, quando já não havia mais qualquer sinal de revolta na Guanabara, voltando Niterói à rotina de sempre.

Essa estada da capital em Petrópolis por quase dez anos trouxe muita gente de outros rincões para cá e o destino encarregar-se-ia de mantê-la ou não aqui, conforme os seus caprichos.

Foi nessa leva que Manoel Edwiges de Queiroz Vieira acabou por radicar-se nestas serras, aqui criando raízes, aqui ligando seu nome a um dos rincões mais bucólicos de quantos há nos desvãos destas nossas montanhas privilegiadas. É o que veremos no próximo número.

topo da página

índice de trabalhos

índice de autores