Tribuna de Petrópolis: 24/06/2001

EDWIGES DE QUEIROZ OITENTA ANOS DEPOIS

Parte 2

Francisco de Vasconcellos

Estávamos no primeiro capítulo desta resenha, em fins de 1893, quando a capital fluminense, por causa da Revolta de 6 de Setembro, deixou Niterói e subiu a serra vindo abrigar-se em Petrópolis.

Em 30 de agosto de 1892, havia tomado posse na chefatura de polícia do Estado o Dr. João Francisco Barcelos, eminente chefe político na região de Valença.

Três meses depois, a lei de 3 de novembro, ao ocupar-se da organização policial desta unidade da Federação, estabelecia na Seção I, do Capítulo II:

Art. 3º - O Chefe de Polícia será nomeado dentre os graduados em Direito pelas Faculdades do país, que tiverem pelo menos quatro anos de prática de Foro ou de administração do Estado.

Art. 4º - É incompatível com os cargos de eleição popular e com qualquer outro encargo ou cargo remunerado pela União, Estados e Municípios.

É evidente que, com a transferência da capital para cá, todos os poderes, órgãos e repartições do Estado deslocaram-se para estas serras e foi assim que o Dr. Edwiges de Queiroz, então deputado estadual, teve que fixar residência nestas paragens, tão distintas daquelas que lhe serviram de berço, e, de habitat por quase quarenta anos.

Em princípios de 1894, teve que desincompatibilizar-se com seu cargo eletivo, nos termos do $ 2º do artigo 4º da Lei de Organização Policial, uma vez que iria assumir a Chefatura de Polícia do Estado do Rio de Janeiro.

Era o último ano do mandato de José Thomaz da Porciúncula e a capital ainda estava aqui em caráter provisório.

A Gazeta de Petrópolis de 19 de maio daquele ano, registrava:

"Assumiu ante-ontem a chefia de polícia do Estado do Rio, nesta capital, o snr. Dr. Edwiges de Queiroz...".

Enquanto isso, Porciúncula estava designando o dia 17 de junho para a eleição de 15 deputados, em virtude de vagas abertas, entre elas a que se dera em razão da renúncia do Dr. Edwiges, pelos motivos já acima explicados.

Em 31 de dezembro de 1894, terminava o primeiro triênio sob a égide da Constituição de 9 de abril de 1892 e assim, assumia o governo fluminense o Dr. Joaquim Maurício de Abreu que manteve o mesmo Chefe de Polícia da gestão anterior.

Corria o ano de 1896. Numa tarde, conversavam ali pela Praça da Liberdade, o Dr. Porciúncula, Edwiges de Queiroz e mais alguns amigos, quando passou por eles um grupo de meninas estudantes do Colégio Santa Isabel então sob a orientação da Irmã Fagalde. (1)

(1) - A Irmã Clara Fagalde era Superiora do Colégio Santa Isabel e faleceu no Rio de Janeiro aos 5 de março de 1900.


Uma delas destaca-se das colegas para cumprimentar o Dr. José Thomaz da Porciúncula, grande e velho amigo de seu pai.

O ex-Presidente do Estado faz as apresentações, dizendo ser aquela jovem filha do Coronel José Candido Monteiro de Barros.

Tratava-se de Maria Tereza, para os íntimos Sinhazinha, na altura, na força dos seus quase dezessete anos.

O Chefe de Polícia, quarentão e solteiro inveterado, interessou-se vivamente pela moça e convenceu o seu amigo Porciúncula a servir de intermediário, de modo que o Coronel José Candido viesse a permitir-lhe fazer a corte à filha.

O resultado de tão delicada missão foi plenamente satisfatório. Apesar das naturais resistências da jovem, o candidato a noivo caira como uma luva nos planos do Coronel e o casamento seria inevitável.

A 27 de janeiro de 1897, na Fazenda da Engenhoca, numa festa inesquecível, o Chefe de Polícia do Estado selava o seu destino, amarrando-se não só à cativante Sinhazinha, mas também a Petrópolis, chão adotivo pelo resto de sua vida. (2)

(2) - O casamento de Manoel Edwiges de Queiroz Vieira e Maria Tereza Monteiro de Barros está registrado no livro nº 1, às fls. 73vº, sob o nº 111, no Cartório do Registro Civil do 2º Distrito de Petrópolis.


O mundo político e social da época prestigiou o acontecimento e quem tiver a paciência de consultar, no Cartório de Cascatinha, o registro de tal casamento, vai ver ali os autógrafos de Porciúncula, Miguel de Carvalho, Maurício de Abreu e outros próceres, que fizeram questão de testemunhar tão auspicioso evento.

Dois meses depois, voltava ao governo da República o Dr. Prudente de Moraes, licenciado há algum tempo, por causa de delicada cirurgia a que tivera de submeter-se.

O homem ainda convalescente retornava às suas atividades num dos piores e mais turbulentos dias de seu atribulado quatriênio.

Fora logo impactado pelo desastre de Moreira Cesar em Canudos e pelos motins que explodiram no Rio de Janeiro em conseqüência daquela tragédia.

O caos instalara-se na Capital da República, culminando com o empastelamento de jornais e o assassinato do Coronel Gentil de Castro. Prudente carecia de um pulso firme para controlar a balbúrdia.

Foi então que Porciúncula, aliado político do Presidente, sugeriu-lhe o nome de Edwiges de Queiroz para debelar a crise no Distrito Federal.

Ainda praticamente em lua de mel, Edwiges aceitou o desafio e despedindo-se da mulher tomou o rumo do Rio onde hospedou-se no Grande Hotel, bem no largo da Lapa.

Assumiu o espinhoso posto e começou a agir com mão de ferro.

Qual não foi sua surpresa, um dia aparece-lhe a consorte no hotel e o convence a juntos tomarem uma casa onde poderia o Chefe de Polícia desfrutar de maior conforto.

Foi então que alugaram palacete à rua Hadock Lobo, onde tiveram a sorte de contar com um cozinheiro francês, capaz de satisfazer as exigências do paladar do homem forte do governo.

O maior problema a ser enfrentado então, no contexto da segurança da Capital brasileira, era o clima de insurreição insuflado pela imprensa panfletária e pelo grupo liderado pelo Vice-Presidente Manoel Victorino Pereira, que fazia oposição irresponsável e sem trégua ao Presidente da República.

Para neutralizar os arroubos da caterva desvairada, era preciso implantar um espião em casa do safardana Victorino.

Uma certa Amélia Iracema, informou ao Edwiges que o Vice-Presidente estava sem copeiro. A notícia veio a calhar. O Chefe de Polícia contratou um estudante de sua confiança, que travestido de serviçal passou a vigiar as manobras e os passos do solerte conspirador.

Mas apesar de tanta astúcia, não foi possível evitar o atentado sofrido por Prudente de Moraes no Arsenal de Guerra e que redundaria na morte do Ministro da Guerra, General Machado Bittencourt.

O lamentável incidente ocorreu em princípio de novembro de 1897, quando a quilômetros de distância ainda fumegavam as cinzas de Canudos.

Um ano depois, Prudente de Moraes deixava o governo prestigiado por seus correligionários e pelo povo em geral.

Seus auxiliares mais chegados, entre eles o Dr. Edwiges, foram buscá-lo no hotel, levaram-no à estação da Central do Brasil e embarcaram com ele em sua viagem de retorno a São Paulo e Piracicaba.

Aproveitando-se da ausência do governo e sempre preocupado com a filha sozinha num casarão da rua Hadock Lobo, o Coronel José Candido Monteiro de Barros, foi ao Rio, fez toda a mudança do casal para Petrópolis, entregou o palacete ao locador e aqui, criou as condições necessárias para que o ex-Chefe de Polícia da Capital e sua jovem mulher pudessem se instalar confortavelmente na Fazenda da Engenhoca.

Ao voltar de sua viagem, Edwiges não teve mais que conformar-se com a situação, aceitando o veredicto do sogro.

Os caprichos da família por vezes falam mais alto que a índole inflexível e dura de certos homens públicos.

O ex-Chefe de Polícia deixou-se vencer pela trama doméstica e não pôde resistir ao imã da Engenhoca, que o prenderia para sempre a estas serras.

A Fazenda da Engenhoca, de propriedade do Coronel José Candido Monteiro de Barros, era parte da enfiteuse do Retiro de São Thomaz e São Luiz, cujo domínio direto pertencia ao mesmo Coronel. Sua sede ficava numa elevação do terreno, fazendo frente para a Estrada União e Indústria, num ponto hoje situado entre a Estação de Transbordo de Correas e o posto de gasolina. Na parte dos fundos a propriedade era guarnecida pelas densas matas do Caetetu, por onde serpeavam o córrego ainda imáculo e uma picada que fazia a conexão da sede com o Carangola.

Edwiges de Queiroz tomou-se de amores pelo seu novo habitat e passou a nutrir imenso ciúme do Caetetu, onde ele não permitia a entrada de estranhos. Era um ecologista nato, que chegou a ponto de expulsar de suas terras uma princesa italiana que ousou devassá-las a partir do Carangola.

A duzentos metros da casa grande da fazenda, havia nascente de água cristalina que atendia por biquinha, xodó do patrão. Era ali que ele se abastecia e não suportava o arroz que não fosse feito na hora da refeição e com aquela água quase milagrosa.

Volvidas tantas décadas, a biquinha segue em pleno funcionamento, inverno e verão e não são poucos os que vêm muita vez de longe para ali se abastecerem de tão puro e genuíno líquido.

"Manoel, vá buscar água na biquinha que o Dr. Edwiges já vem", tal a frase tantas vezes repetida pela minha saudosa amiga Maria Tereza Monteiro de Queiroz Vieira, a quem devo grande parte dessas reminiscências.

Uma vez repimpado na Engenhoca, o Dr. Edwiges passou a dedicar-se à advocacia, mantendo escritório à rua do Rosário no Rio de Janeiro.

Descia no trem das 7:20 e voltava aí pelas 19:30 horas.

Quando no último ano do governo Alberto Torres houve o racha no Partido Republicano Fluminense, Edwiges de Queiroz seguiu a facção liderada pelo Dr. Porciúncula, que por desgraça morreria aos 46 anos, no dia 28 de setembro de 1901. No ano seguinte, outra perda irreparável: faleceu o Coronel José Candido Monteiro de Barros.

Meio ao desabrigo, Edwiges sem perder o contato com o mundo político fluminense e petropolitano, em particular, dividia o tempo entre a tranqüilidade da Engenhoca, os negócios da família de sua mulher e o seu escritório na Capital Federal, que não deixava de ser uma espécie de comitê dos seus correligionários.

Enquanto isso, Nilo Peçanha subia feito um foguete, ocupando todos os espaços políticos no Estado, criando uma corrente que só daria de si, após a morte desse grande líder em 1924.

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