Tribuna de Petrópolis: 15/07/2001

EDWIGES DE QUEIROZ OITENTA ANOS DEPOIS

Parte 5

Francisco de Vasconcellos

Eleito Alfredo Augusto Guimarães Backer Presidente do Estado do Rio de Janeiro, no segundo domingo de julho de 1906, foi o mesmo proclamado pela Assembléia fluminense na sessão de 30 de agosto daquele ano.

Antes disso, a Tribuna de Petrópolis, jornal então a serviço da dupla Hermogênio-Sá Earp, na edição de 21 de julho, fazendo o perfil do futuro governante do Estado, assim se houve:

"Andou por isso com alto acerto e descortínio a Comissão Executiva, elegendo seu candidato o Dr. Alfredo Backer, o seu passado na política e na administração fluminense legitimava cabalmente tal indicação, sem discrepância acolhida por todos os municípios do Estado. É um republicano de rija têmpera, da velha guarda escoimado de vaidades e de orgulho, modesto e simples, leal, sincero e despretensioso, em todos os seus atos. Ergueu-se pelo seu próprio esforço e pertinácia, batalhando sempre pelo ideal democrático, combatendo tenaz e vantajosamente os retrógrados representantes da rotina e do atraso, sem temores ou tibieza".

Estavam pois os homens da situação político-administrativa petropolitana com o Presidente eleito e por conseguinte com o futuro Vice-Presidente da República, o Dr. Nilo Peçanha.

Tudo parecia bem azeitado, no Município, no Estado e na União, como nos velhos tempos em que Porciúncula dava as cartas.

Mas o futuro próximo não seria tão risonho assim.

A 1º de novembro de 1906, Nilo Peçanha deixava definitivamente o Ingá, sendo substituído por Oliveira Botelho, que levaria o falso triênio ao cabo. A 15, Nilo tomava posse de seu novo cargo ao lado de Afonso Pena e, a 31 de dezembro, Alfredo Backer era empossado na presidência do Estado.

Era a primeira vez que havia uma coincidência de mandatos, a nível federal e estadual.

Nos primeiros meses de 1907, o quadro político nacional começava a apresentar certa turbulência. Afonso Pena, tido por alguns como trânsfuga, já que conselheiro da monarquia, havia abraçado um tanto inopinadamente a causa republicana, quiçá sentindo-se ameaçado pela índole macunaimesca de seu Vice, resolveu hostilizá-lo. Aliás, Nilo Peçanha nunca deu sorte com mineiros. Primeiro foi o seu companheiro de chapa e mais tarde o seu opositor nas eleições de 1922, Arthur Bernardes.

Alfredo Backer, por sua vez querendo livrar-se da sombra asfixiante do caudilho campista, decidiu unir-se a Pena para derrubar Nilo.

De azedume em azedume a crise veio a furo e em setembro, o Vice-Presidente da República rompia suas relações com o primeiro mandatário fluminense.

Imediatamente os caciques do partido solidarizaram-se com Backer, inclusive Hermogênio Pereira da Silva, então Presidente da Câmara Municipal de Petrópolis.

Essa adesão valia ipso facto uma sólida aliança com o Catete.

Em telegramas de 16 de setembro de 1907, Hermogênio, Sá Earp e outros vereadores petropolitanos, entre eles, Horácio Magalhães Gomes, José Henrique Thyne Land, José Magalhães Bessa, Otto Hees, Francisco Limongi, Felipe Faulhaber e Aristides Werneck, hipotecaram solidariedade ao Presidente do Estado.

Na noite de 26 de abril de 1908, em Niterói, deu-se a convenção do Partido Republicano Fluminense, para que fosse eleita sua executiva para cumprir um mandato que terminaria em 31 de dezembro de 1909. Lá estava entre os líderes de cada município, o nosso Hermogênio Pereira da Silva, que, juntamente com seus pares, uma vez mais fechou com o Presidente Backer.

Mas, como Deus escreve certo por linhas tortas, a morte política de Nilo Peçanha que era tida como favas contadas, de repente foi empurrada para bem longe. Em meados de 1909, o velho Afonso Pena não resistiu às afrontas sofridas por causa da sucessão presidencial e cantou pra subir.

Nilo passou então de Vice a Presidente da República, para completar o quatriênio que deveria terminar a 15 de novembro de 1910. E os ventos passaram a soprar em outra direção no Estado do Rio de Janeiro.

Alfredo Backer, de rabo entre as pernas, pensou que ia ser despejado do Ingá de mala e cuia. Mas Nilo, misto de Getúlio e Juscelino, disse-lhe que ficasse tranqüilo, que ele estava mais firme no poder do que imaginava. Ainda não soara a hora da grande cartada.

Brígido Tinoco às págs. 154/156 de sua obra já aqui citada sobre Nilo Peçanha, conta:

"Alfredo Backer, desconfiado, prepara as malas para desocupar o Ingá. De relações rotas com o chefe do governo nacional, não queria ser colhido de surpresa. Num relance, poderiam pretextar catástrofes no Estado e sobreviria a intervenção, como vingança de seu apoio a Afonso Pena".

"Ciente disso, o campista manda dizer-lhe que sossegue. Nunca estivera tão firme no Ingá como naquela hora. Com efeito, Nilo não era homem de arbitrariedades, de violências. Ardiloso, porém, a pouco e pouco, afugentou-lhe os adeptos, dissecou-lhe suavemente o prestígio, reduzindo-lhe a autoridade política à expressão mais simples. Um ano e meio antes, quando da ruptura entre os dois, o próprio Coronel Ezequiel Baptista de Araújo Pinheiro, Presidente do Partido em Macaé, terra de Backer, ficara fiel a Nilo. Os que tergiversavam, os que o não seguiam como Nestor Ascoli e outros, recebiam o troco devido".

Um dos que experimentaram a ardilosidade niilista, foi indubitavelmente Hermogênio Pereira da Silva, quando, em 30 de janeiro de 1909, concorreu a uma vaga no Senado Federal, tendo como adversário, Quintino Bocayuva.

É verdade que o fato aconteceu quando ainda Afonso Pena estava no poder. Mas também é verdade que o velho Conselheiro já sofria desgastes por causa da sucessão presidencial e tinha sua autoridade de Presidente bastante comprometida, enquanto Nilo desfrutava de bons aliados no Congresso, especialmente no Senado.

Vitorioso nas urnas, com larga margem de votos, Hermogênio perdeu no tapetão da Comissão Verificadora de Poderes da Câmara Alta do Congresso. Foi seu relator, propositalmente, o velhaco Senador Antonio Azeredo, que fazia oposição a Afonso Pena e precisava de aliados para ainda mais hostilizar o infeliz Presidente da Republica.

Nilo nunca se esquecera do apoio dado por Hermogênio a Backer, em setembro de 1907 e Quintino Bocayuva, sobre ser velho aliado do campista, ainda era seu padrinho de casamento.

Nessa eleição, o Senado Federal, com suas treitas e desavergonhadas maquinações para derribar Hermogênio, eleito nas urnas e regularmente diplomado, escreveu uma das páginas mais tristes e acachapantes de sua história.

Ao fim e ao cabo tudo não passou de mais uma travessura do Dr. Nilo.

No fim de 1909, o quadro político nacional e fluminense apresentava enormes mudanças. Muitos daqueles que haviam se solidarizado um ano e meio antes e até depois com Alfredo Backer, haviam se bandeado para o ciclo de correligionários de Nilo Peçanha, então repimpado no Catete.

Um deles foi justamente Hermogênio Pereira da Silva, que à véspera do pleito para renovação da Câmara Municipal de Petrópolis, que se daria a 19 de dezembro, apresentava a chapa completa dos candidatos, todos rendidos ao nilismo. Eram eles: Major Otto Hees, Coronel José Henrique Thyne Land, Dr. José de Barros Franco Junior, José Lourenço Pinto, Dr. Hermogênio Pereira da Silva, Capitão Henrique Sixel, Dr. Edmundo de Lacerda, Dr. Arthur de Sá Earp.

A grande maioria dessas prestigiosas figuras, havia firmado aquele telegrama de apoio ao Presidente Backer, quando do rompimento deste com Nilo Peçanha em setembro de 1907.

Na política, realmente, nada como um dia depois do outro. Bem dizia Augusto dos Anjos: a mão que afaga é a mesma que apedreja.

E a Tribuna de Petrópolis, antes medularmente backerista, agora dizia cobras e lagartos do macaense então ocupante do Ingá. Basta conferir as edições de 15, 16 e principalmente a de 18 de dezembro de 1909, onde se lê:

"O povo fluminense é chamado amanhã às urnas para escolher os seus mandatários na Assembléia Legislativa, nas câmaras municipais e nos juizados de paz, durante o período de 1910 a 1912. O pleito que se vai ferir é, como todos sabem, um pleito de honra. De um lado, se encontram aqueles que prestigiam a política do ilustre Presidente da República; de outro lado vêm-se os que acompanham o Presidente do Estado. Não pode haver, pois, dubiedades: ou se é por um ou por outro. Querer encobrir a situação é mentir ao generoso povo fluminense, cuja abnegação e civismo tem demonstrado nos momentos tormentosos de sua vida política".

Por ironia do destino, os candidatos mais votados em Petrópolis, para a futura Câmara foram aqueles que estavam muito mais para o backerismo do que para o niilismo. Foram eles: João Werneck com 748 votos; Eduardo Moraes com 723 e Joaquim Moreira com 713. Depois é que vieram Sá Earp com 678 e Hermogênio com 656, seguidos de perto de seus correligionários Thyne Land com 649 votos, Barros Franco com 646 e Edmundo de Lacerda com 641.

Desenhava-se o ocaso político de Hermogênio Pereira da Silva. Num mesmo ano sofrera duas derrotas em situações diametralmente opostas.

Depois de uma presença constante de vinte anos à frente dos destinos deste município, perderia Petrópolis o seu maior administrador de todos os tempos.

Agonizava o hermogenismo, enquanto rompia no horizonte destas serras o chamado moreirismo, encarnado pelo novo líder, o também médico Dr. Joaquim Moreira.

Mas enquanto davam-se essas transições a nível meramente municipal, no plano estadual preparava-se o terreno para as eleições presidenciais que se dariam a 10 de julho de 1910, para a escolha do sucessor de Alfredo Backer.

É bom que se diga antes de mais nada que tudo ia acontecer durante a mandato de Nilo Peçanha como chefe supremo da Nação.

O pleito prometia ser renhido e seria muito difícil que não fosse decidido definitivamente no tapetão.

Há uma notícia na Tribuna de Petrópolis em sua edição de 19 de outubro de 1909, que é bem significativa. Dizia ela:

"Pelo expresso da manhã, subiu ante-ontem em companhia de S. Exma. Senhora, o snr. Marechal Hermes da Fonseca, que veio em visita ao snr. dr. Edwiges de Queiroz, cujo aniversário natalício passou naquele dia. S. Excia. seguiu de carro para a residência do Dr. Edwiges, na Engenhoca, 2º distrito deste município, regressando ao Rio pelo expresso da tarde".

Ora, tal visita, dava incontestavelmente prova do prestígio do Dr. Edwiges, junto ao homem, que os caciques da política nacional haviam escolhido para substituir Nilo Peçanha no Catete, a partir de 15 de novembro de 1910, cujo nome seria homologado no tapetão, mesmo a despeito do estardalhaço da campanha civilista de Ruy Barbosa e ainda que o resultado das urnas fosse favorável a este.

Era um jogo de cartas marcadas, sendo dono do cassino o nefasto caudilho Pinheiro Machado, a quem ninguém ousava contrariar.

Havia mesmo uma quadrilha no Congresso teúda e manteúda em roubar a vontade do povo, manipulando o resultado das urnas. Aí estava o segredo da reeleição sem rótulo, sendo o nome do candidato coisa de somenos, desde que ele pertencesse à mesma patota.

Um mês depois dessa visita do Marechal Hermes à Engenhoca, o Dr. Edwiges de Queiroz convocava uma reunião política que se realizaria no consultório do Dr. Joaquim Moreira.

Cerca de vinte próceres políticos do município e do estado, se puseram de acordo, para assentar as bases de um novo partido.

Para presidir a reunião, foi convidado o Dr. Paulino Junior, deputado federal backerista.

Com a palavra, o Dr. Edwiges de Queiroz explanou em linhas gerais a finalidade daquele encontro. Falaram em seguida o Dr. Joaquim Moreira, Vicente de Ouro Preto, João Baptista de Castro, Antonio Fialho e João Werneck, ficando assentado entre os cavalheiros presentes que a nova agremiação não seria nem niilista, nem backerista, nem civilista, nem hermista, nem monarquista.

Ora, naquela conjuntura, fundar-se um partido sem qualquer vinculação com uma das correntes políticas atuantes nos cenários federal e estadual seria o mesmo que criar-se um partido utopista, fadado a fazer discursos para surdos.

Tanto isso é verdade, que, passado o encontro desses próceres, alguém maldosamente disse que o novo partido seria uma salada de frutas política.

O certo mesmo é que ali estava a fina flor da corrente backerista, que inclusive valeu-se da oportunidade para compor uma comissão para indicar os candidatos ao pleito municipal marcado para 19 de dezembro. E, dois dos membros desse grupo de trabalho - Joaquim Moreira e Eduardo de Moraes - foram, juntamente com João Werneck, os candidatos melhor colocados na eleição em apreço.

Naquele fim de ano de 1909, Edwiges de Queiroz estava dando seus primeiros passos no rumo da candidatura a Presidente do Estado. Viria indubitavelmente como alinhado ao backerismo em oposição a Oliveira Botelho que tinha o bafejo do Catete.

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