Tribuna de Petrópolis: 29/07/2001

EDWIGES DE QUEIROZ OITENTA ANOS DEPOIS

Parte 7 (final)

Francisco de Vasconcellos

Em política não há amigos, há correligionários eventuais ou sazonais. Essa fauna é movida por interesses, quase sempre mesquinhos, pequenos e imediatistas. De ética pouco entendem os políticos e a falsidade, a treita e a astúcia são seus atributos inarredáveis. Quanto mais anedótico e pilhérico for o político, mais apoteótica a sua imagem aos olhos do populacho insano e inconseqüente.

Nilo Peçanha e o Marechal Hermes da Fonseca, que foram contemporâneos e afinados no mesmo discurso e nas mesmas atitudes, protagonizaram na cena política nacional e fluminense, muitos dos lamentáveis acontecimentos que marcaram aquela quadra balizada pelos anos 1910 e 1914, inclusive aqueles que se deram quando da sucessão no Ingá, ao fim do governo Backer.

E com isso alimentaram à saciedade o talento satírico de chargistas, caricaturistas, poetas, compositores, jornalistas, autores teatrais e responsáveis pelo anedotário.

O quatriênio Hermes da Fonseca foi um dos mais humorísticos de quantos se sucederam na República Velha e também um dos mais trágicos.

Se revistas como "O Malho", "Careta", "Fon Fon", se embriagaram de argumentos para fazer rir os seus leitores à custa da troça política, também jornais sisudos e respeitáveis encheram suas colunas com notícias alarmantes, que foram da Revolta da Chibata à Sedição do Juazeiro, do bombardeio de Salvador às greves em vários setores da atividade nacional, sempre repelidas a porrete e chicote.

O caso fluminense foi uma espécie de abertura desse festival melodramático.

Aquele Marechal Hermes que um dia subiu a serra para abraçar o seu amigo Edwiges de Queiroz, quando do aniversário deste, foi o mesmo que deu sustentação à posse de Oliveira Botelho, com base em duvidosos argumentos e falsas informações, de que fora porta-voz o Ministro da Justiça Rivadávia Corrêa.

Logicamente que o Presidente da República recém-empossado, não iria contrariar as forças que o haviam alçado ao Catete. Aquilo era uma verdadeira ação entre amigos e muito mal ficaria quem contrariasse o sistema.

Não foi verídica a notícia de que a posse no Ingá tinha transcorrido na maior tranqüilidade e sem qualquer tipo de constrangimento.

Qualquer jornal da época, do Rio de Janeiro, de Niterói, de Campos, eventualmente à disposição dos pesquisadores de hoje, terá documentado as ameaças de terrorismo que pairavam sobre a posse do novo presidente fluminense e o aparato bélico, sob o pretexto do estado de sítio motivado pela Revolta da Chibata, em torno do Palácio do Ingá, onde foi proibida a entrada até mesmo do Presidente Backer, que deveria cumprir normalmente o seu mandato até 31 de dezembro de 1910.

A posse de Oliveira Botelho deu-se praticamente sob a proteção militar, desde que se isolaram as adjacências do palácio do governo do Estado.

E ainda para azar de Edwiges de Queiroz, na véspera da sua prometida posse, haviam-lhe furtado o diploma no Hotel Avenida, no Rio de janeiro, enquanto ele e a senhora se ausentaram do quarto para jantar.

E, convenhamos, também o Supremo Tribunal trabalhou conforme a música, desde que converteu o julgamento da medida urgentíssima, postulada pela Assembléia e por Edwiges, em diligência.

Estava mesmo o circo armado para que o grande vencedor desta batalha solerte fosse o caudilho campista Nilo Peçanha.

Perdendo o bonde da história, enquanto o infeliz Alfredo Augusto Guimarães Backer recolhia-se a um temporário ostracismo, o Dr. Edwiges retomava sua advocacia no Rio de Janeiro e recuperava a nonchalança na tranqüilidade da Engenhoca, com direito a banho de cachoeira e água da "biquinha".

Passado o mal estar causado por essa novela rasteira, com todos os matizes da pobreza de espírito tupiniquim, o Marechal Hermes lembrou-se de seu "amigo" Edwiges de Queiroz e, em meados de 1913, como se fora um prêmio de consolação, deu-lhe a chefia da polícia da Capital Federal.

A posse dera-se a 5 de julho e Edwiges iria substituir o Dr. Belisário Távora.

O compromisso do novo Chefe de Polícia foi firmado no Ministério da Justiça.

Na recepção dada aos jornalistas, disse o Dr. Edwiges que no desempenho de suas funções não teria amigos, fazendo questão de exercê-las com toda a independência e isenção. Se assim não fosse, não permaneceria no cargo.

Estava ali, em poucas palavras, o grande traço de seu caráter de homem publico. Era em verdade um excelente executivo.

Usando uma imagem bem rural, disse o responsável pela ordem na Capital da Republica:

"Esse cargo será uma espécie de monjolo: seguirá sempre batendo e se algum amigo puser a cabeça embaixo dele, tê-la-á por certo esmagada".

O homem era duro de verdade, como deve ser todo aquele que tenha o poder de polícia. Talvez por isso, neste país de coitadinhos e de transgressores, tipos de tal calibre acabam não interessando ao sistema. E o Dr. Edwiges de Queiroz deixou o cargo a 26 de novembro de 1913, para receber do Presidente uma nova benesse consoladora: o Ministério da Agricultura.

Ia substituir no cargo de Ministro o Dr. Pedro de Toledo, que iria ocupar o posto de Embaixador do Brasil em Portugal.

Na chefatura de polícia, assumia o mineiro Francisco Valadares.

Os jornais da época falavam de intrigas feitas pela situação no Estado do Rio de Janeiro, para afastar Edwiges de Queiroz do Presidente Hermes. Mas as futricas de Oliveira Botelho et caterva de nada valeram, tanto que o Marechal contemplara o seu ex-Chefe de Polícia com o honroso cargo de Ministro da Agricultura.

Em breve Edwiges demonstraria sua capacidade de trabalho, seu talento administrativo, sua energia e probidade no trato da coisa publica.

A 17 de julho de 1914, o Jornal do Comércio do Rio de Janeiro publicou o relatório do novo Ministro da Agricultura, o que provocou notas e artigos elogiosos por parte da imprensa carioca e paulista.

Em São Paulo, o periódico "A Platea", de 29 de julho, na seção "Cartas do Rio", teceu alentado comentário ao tema em apreço. No Rio de Janeiro, o "Correio da Manhã" de 20 de julho assim tratava o assunto do relatório:

"O titular da pasta da agricultura, compreendendo bem que no regime republicano deve-se antes de tudo ser franco, expondo com verdade a situação dos diferentes serviços públicos, adotou esse processo.

Desde o início ao fim da introdução de seu relatório, ao lado de conceitos superiormente aduzidos, o digno Ministro da Agricultura traça com firmeza e segurança de opinião, diz aquilo que julga uma necessidade imperiosa ao desenvolvimento desse importante aparelho administrativo, que recebe os influxos de sua direção".

Mais adiante:

"Sente-se pela leitura desse documento, que o ilustre titular da pasta da agricultura, tendo em vista a crise atual que é mais econômica que financeira e, conseqüentemente, mais de perto ligada ao aparelho que S. Excia. dirige, preocupou-se seriamente em indicar ao Poder Legislativo os meios de impulsionar as forças produtoras do país.

Ao mesmo tempo, entretanto, em que o Dr. Edwiges de Queiroz apresenta esses meios, não descura da situação financeira do país, pois ao lado daquelas medidas, se encontram outras cujo fim é diminuir sensivelmente os gastos desse departamento, que o seu antecessor elevara no último exercício de sua gestão a 41.160:849$598, reduzidas à nossa moeda as importâncias orçamentárias em ouro.

Assumindo a administração do Ministério da Agricultura, no penúltimo mês daquele exercício, conjugou esforços com as comissões de orçamento da Câmara dos Deputados e do Senado e conseguiu uma redução orçamentária de 11.319:713$354.

Isso por si só já representava um relevante serviço à República. O espírito de S. Excia., porém, ante as necessidades do país, ditava-lhe continuar o regime de economias sem desorganizar serviços e assim conseguir, por uma série de medidas verdadeiramente sábias, evitar gastos que até o fim do exercício atual ascenderiam a - 800:000$000".

O "Diário de Campos" de 2 de setembro de 1914 noticiava a visita inesperada a essa cidade do norte fluminense do Ministro da Agricultura, em companhia de seu oficial de gabinete Dr. Gabriel Bastos, médico e sobrinho de sua mulher.

E, no mesmo dia de sua chegada, o Dr. Edwiges, sempre disposto e ativo, partiu em visita à Fazenda da Boa Vista, de propriedade do Senador Pinheiro Machado. No dia seguinte, inspecionou a Estação Experimental de Canas de Açúcar, a Escola de Aprendizes Artífices e as Inspetorias Agrícola e de Veterinária.

O periódico em tela, a certa altura de seu noticiário, ousou o juízo seguinte:

"Não nos enganávamos, pois, quando ao noticiarmos a sua escolha para ocupar o alto cargo de Ministro da Agricultura dizíamos que a sua gestão seria bastante profícua e brilhante, atendendo-se ao seu longo cabedal de serviços à causa pública, à sua capacidade de administrador, às suas múltiplas qualidades de organizador".

Terminado o quatriênio Hermes da Fonseca a 15 de novembro de 1914, desfez-se o seu ministério e, mais uma vez Edwiges de Queiroz recolheu-se à Engenhoca, seguindo a sua vida normal.

Mais tarde elegeu-se vereador à Câmara Municipal de Petrópolis e estava nessa condição, quando faleceu em sua residência aos 18 de março de 1921, há portanto oitenta anos.

Foi sepultado no Cemitério Municipal, misturando-se à terra que adotara para viver os anos mais significativos de sua existência.

Ao cabo dessa já longa resenha dos lances fundamentais que marcaram a caminhada de Edwiges de Queiroz nesse planeta, poder-se-ia dizer que esse fluminense que viveu os últimos anos do Império e os primeiros da Republica, foi um parlamentar inexpressivo, um advogado comum e correto, mas um executivo de grandes méritos e como tal teria sido um bom presidente do Estado do Rio de Janeiro.

Foi, como Chefe de Polícia do Estado e do Distrito Federal em duas gestões distintas, que ele demonstrou todo o seu talento para coibir excessos, prevenir crises, guarnecer a segurança pública e individual, impedir a subversão e o desrespeito.

De uma integridade a toda prova, enérgico, inflexível no cumprimento do dever, sem hesitações ou tergiversações na mantença da ordem e da disciplina, deu sustentação ao tormentoso quatriênio de Prudente de Moares e no governo Hermes da Fonseca, amparou o Presidente, quando as debochadas campanhas contra ele contaminavam todos os setores da vida na Capital da Republica, o grande tambor do Brasil naquela altura.

Como Ministro da Agricultura, apesar de sua curta passagem pelo cargo, deixou as melhores impressões que a imprensa soube recolher e exaltar conforme ficou patente neste capítulo final da vida do filho de Santana de Macacu.

Petrópolis, mais especialmente Corrêas preocupou-se pouco depois da morte de Edwiges de Queiroz, em fazer-lhe uma homenagem, dando o seu nome a um logradouro do segundo distrito.

O ato nº 12 de 3 de março de 1923, assinado pelo então Prefeito Alcindo Sodré, dizia o seguinte:

"O Prefeito Municipal de Petrópolis, de acordo com a letra a do artigo 33 da lei nº 1734 de 14 de novembro de 1921, resolve dar aos logradouros públicos situados em Corrêas, 2º distrito, abaixo discriminados, as seguintes denominações: de Praça Euzébio de Queiroz, ao logradouro compreendido entre a linha da Leopoldina Railway e as pontes sobre os rios Piabanha e Morto; de rua Álvares de Azevedo, ao trecho da Estrada do Bonfim situado entre a linha férrea e o Poço do Imperador e, de rua Edwiges de Queiroz, ao trecho que, partindo da praça acima, margeia o leito da Leopoldina Railway em direção à Nogueira, numa extensão de 700 metros".

Antonio Machado à pág. 244 do 1º volume dos Trabalhos da Comissão do Centenário de Petrópolis, no seu "Nomenclatura Urbana", assinala:

"Por ato de 1923 foi dado o nome de Edwiges de Queiroz à artéria entre a ponte do rio Morto em Corrêas e o povoado de Nogueira, compreendendo a rua Maria Carolina ( mulher de Joaquim Zeferino de Souza ), que termina no princípio da rua Tiradentes, junto à célebre figueira e, o trecho da Estrada Mineira que daí segue até a Estação de Nogueira. O ato municipal, entretanto, não foi executado".

Na verdade o nome não pegou.

Trinta anos depois, a Deliberação 445 de 23 de julho de 1953, estabelecia no seu artigo 1º:

"Fica denominada Praça Edwiges de Queiroz o logradouro público entre as ruas E Bis, D, D Bis e B Bis, na localidade de Corrêas, 2º distrito de Petrópolis, Loteamento de Domingos de Souza Nogueira Filho".

Não consta aos moradores daquela localidade que essa investida do poder municipal, tenha tido oficial e oficiosamente qualquer sucesso.

Em 1973, graças a gestões feitas pela viúva do Dr. Edwiges de Queiroz junto à Câmara Municipal, a Deliberação 3459 de 24 de setembro, sancionada pelo Prefeito Paulo Rattes, denominou Estrada Edwiges de Queiroz, o logradouro público conhecido por Estrada do Caetetu.

Apesar de perfeitamente adequada ao meio, dado que o Caetetu foi a menina dos olhos do homenageado, mais uma vez o nome não emplacou.

Erradamente consta o logradouro dos cadastros municipais como Estrada Luiz Gomes da Silva, mas, na prática e na placa a artéria foi, é e será sempre Estrada do Caetetu, nome expressivo e natural que o povo deu e consagrou.

Seja como for a figura do Dr. Edwiges de Queiroz merecia essa reabilitação perante a memória fluminense e petropolitana, da qual encarreguei-me prazeirosamente, neste ano em que transcorrem os oitenta anos de seu falecimento.

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