1910 foi o ano do inferno astral na política brasileira, fluminense e petropolitana. No plano nacional, a ascensão da figura caricata do Marechal Hermes da Fonseca à suprema magistratura do país, depois de um processo sucessório traumático, iria marcar o início da fase decadentista da República Velha ou melhor da Primeira República.

Na esfera estadual, a diplomação do candidato niilista Oliveira Botelho numa trama cheia de fraudes que alijou do poder o presidente eleito Edwiges de Queiroz, ia inaugurar na terra fluminense um período de desenfreado caciquismo com seu clímax desastroso já nos anos vinte, no triste episódio da deposiçao de Raul Fernandes e da subida de Feliciano Sodré pela mão nefasta de Artur Bernardes.

Em Petrópolis, 1910 marcou o fim da era Hermogênio Silva, que foi das mais esplendorosas que esta urbe já viveu, embalada por um grupo político forte, sério e que fez enormemente pela cidade. A queda do hermogenismo abriu o caminho para a grande crise que provocaria a intervenção no município, ao arrepio dos mais sagrados postulados do ideário e da legislação republicanos, com a imposição da Prefeitura em 1916.

Feita essa tomada de ordem geral, para marcar com letras de fogo o ano fatídico de 1910, ocupemo-nos de um lamentável episódio ocorrido em plena baía da Guanabara, nas barbas do poder central, no mês de novembro daquele ano.

O Marechal Hermes acabara de tomar posse de seu cargo a 15 de novembro. Oito dias depois, na noite de 23 para 24, marinheiros a bordo dos principais navios de guerra brasileiros, sob o comando de um certo João Cândido, iniciaram uma rebelião que passou à História com o nome de Revolta da Chibata.

Em síntese, o movimento reivindicava melhores soldos e abolição por completo dos castigos corporais. Tais os motivos propalados, as causas aparentes do motim. Talvez não fosse prudente descartar outras motivações de ordem política, tanto mais que o governo que se iniciava estava viciado na sua origem por treitas, manobras solertes, fraudes, intrigas e de toda a sorte de baixarias.

Seria ocioso, neste momento em que se pretende rememorar e até repensar a Revolta da Chibata, repetir tudo quanto disseram os jornais da época e publicaram aqueles que se ocuparam do assunto em nível nacional, inclusive os que procuram elevar badamecos à categoria de heróis ou de cidadãos paradigmas.

Prefiro trazer à tona o depoimento de uma testemunha ocular daqueles acontecimentos e que, por motivos vários ficou no desvão da memória brasileira, já que está inserido num livro de impressões publicado em 1911, no Chile.

Trata-se do escritor da terra de Bernardo O’ Higgins, Joaquim Edwards Bello, que esteve no Rio de Janeiro em fins de 1910 e princípios do ano seguinte, tendo deixado suas impressões num volume intitulado Tres Meses en Rio de Janeiro.

Sem perda de tempo, passo a referir os textos de Bello sobre a Revolta da Chibata, os quais sobre serem muito fidedignos, estão eivados da verve satírica chilena e dos judiciosos comentários da testemunha.

O movimento começou, disse Bello, às dez da noite no “Minas Gerais”, quando nada fazia alguém pensar em acontecimentos trágicos.

O comandante do couraçado, João Batista das Neves, jantava nesse momento a bordo do navio escola francês Dugay Trouin. Quando voltou ao Minas Gerais, a pequena lancha em que viajava foi atingida por intensa fuzilaria partida dos revoltosos. Valentemente Batista das Neves tentou chamar à ordem seus comandados, mas foi trucidado pela fúria insana dos amotinados, junto com outros oficiais igualmente destemidos.

A refrega começava sangrenta. A revolta foi ficando fora de controle e de repente tanto a cidade como o próprio Palácio do Catete ficaram à mercê da escalada terrorista.

No mastro do navio foi içada a bandeira vermelha da rebelião.

Comenta o chileno:

“Depois, quando contemplei esta mesma bandeira flutuando no ar presa nos mastros de todos os barcos que fizeram causa comum, me pareceu que esse vermelho não era então o que recorda o sangue, porque pede sangue de vergonhas justiceiras, mas era o ignominioso vermelho da vergonha e da desonra”.

Os revoltosos mandavam mensagens ao governo, como se houvesse um diálogo entre poderes.

Aterrado com os rumos dos acontecimentos, para ele insólitos, Edwards Bello enfatiza:

“As condições propostas pelos revoltosos para submeteram-se, são simplesmentes inaceitáveis e um governo digno não deveria nem siquer toma-las em consideração”.

E mais adiante:

“A maioria dos comandantes e oficiais dos vasos de guerra revolucionados não estava a bordo no momento em que irrompeu o motim. Isto é no meu modo de ver, o mais grave nesse assunto; grande deve ser a desorganização em u ‘a marinha em que acontecem tais coisas “.

Entre outras críticas acerbas ao movimento em si e à aparente desorganização das forças armadas e do próprio aparelho governamental da república brasileira, ousou o cronista chileno, fazendo uma síntese da situaçao vigente:

“Quatro piratas se apoderaram da noite para o dia da esquadra brasileira e impõem sua vontade ao Presidente, fazendo pontaria sobre a residência deste. É uma coisa única; algo iníquo que não haria acontecido ainda em nenhuma parte. Já têm argumento os “vaudevilistas” do “boulevard” para novas cenas grotescas de pronunciamentos sulamericanos”.

Feitos esses comentários desairosos para os brios nacionais, o escritor chileno passou a ocupar-se do líder da rebelião, tratando-o de ídolo de barro.

Mas tanto para o poviléu comum e corrente, como para certos arraiais da mais alta linhagem, o chefe da revolta ganhara status de herói na “defesa da causa justa dos pobres marinheiros”.

Ruy Barbosa, no conforto de sua eterna cadeira no Senado, verberava a favor do movimento. Quiçá uma forma de vingar-se de seu opositor nas eleiçoes presidenciais que guindaram o Marechal Hermes à suprema magistratura do país. Afinal, pimenta nos olhos dos outros é refresco.

Na manhã do dia 25 de novembro, assinala Bello, a cidade assistiu a um novo espetáculo risível: o chefe da revolta passa em revista a esquadra que lhe rende honras de almirante.

E entatiza:

“O povo está feliz; a gente de cor, os escravos de ontem, sorriem com orgulho mostrando a brancura de seus dentes, porque vem nascer para eles uma nova era de liberdades não sonhadas. A aristocracia está de luto. A situação é extremamente crítica; se o governo cede a marinha morre”.

Naquele mesmo dia 25, Severino Vieira apresentava um projeto de anistia para os amotinados, o qual encontrou em Ruy Barbosa um dos mais ardentes defensores.

Nao foi sem razão que Edgar Hans Brunner disse que o Brasil sempre foi o país mais tolerante do mundo.

O projeto rezava no seu artigo 1°:

“Será concedida anistia aos insurretos da Armada Nacional, se estes, dentro do prazo que Ihes fora marcado, pelo Governo, se submeterem às autoridades constituídas”.

Bello não se conforma com a defesa dos desordeiros feita pelo senador baiano e argumenta:

“O popular politico, o herói das conferências de Haya, onde conseguiu um trianfo brilhante para a América do Sul, o candiduto derrotado por manobras fraudulentas nas últimas eleições, se levanta e começa a fazer luzir sua oratória sublime que nunca serviu para defender uma causa mais injusta que esta”.

Enfim, o projeto é aprovado no Senado por uma quase unanimidade. Nada de novo nessa triste história de transigências com os perturbadores da ordem e demolidores das instituições. Caxias defendeu em outros tempos a anistia para os Farrapos e Campos Sales, durante o quatriênio Prudente de Moraes obrou no mesmo sentido quanto aos participantes da Revolução Federalista.

Enquanto o problema pendia de soluções satisfatórias no tapetão do Congresso e da caneta presidencial, o povo amedrontado fugia para Petrópolis, para São Paulo, para os subúrbios distantes da baía de Guanabara.

Todo esse pânico provocou no chileno este comentário:

“O povo brasileiro é eminentemente passivo e tranqüilo e detesta as efusões de sangue e o ruído da metralha; isto eu observei em toda parte; todos desejam que termine o perigo e nem siquer nos rapazes se observa esse entusiasmo pelo extroordinário, esse gosto pela luta armada que é o distintivo dos povos varonis feitos para a combatividade e a peleja, como o nosso.

Vi garçons de café exclamarem com ademanes femininos – Quando terminará isto, meu Deus! Já não se pode siquer dormir em paz!”.

Ao fim e ao cabo, o projeto da anistia passa pelas duas casas do Congresso com larga margem de votos, apesar dos protestos de Pinheiro Machado, no Senado, e de Irineu Machado na Câmara dos Deputados e vai à sanção presidencial. O Marechal Hermes, sem pestanejar, assina aquilo que seria a rendiçao do governo.

Joaquim Edwards Bello termina sua longa apreciação desses tristes acontecimentos afirmando que os revoltosos estavam bem organizados; que eles formavam uma associação secreta; que cada navio tinha um marinheiro chefe, inteligente, capaz nas manobras, tendo secretário e ajudante de ordens, que o grande chefe da revolução cantado em prosa e verso pelos jornais e pelos congressistas que defenderam a anistia, por sua habilidade e coragem na condução do motim, haveria de permanecer no seu posto, não somente impune, mas consciente de sua fama e de sua glória.

“João Cândido será durante muito tempo a alma da Marinha brasileira, sua sombra será o idolo dos marinheiros de amanhã e suas façanhas serão cantadas pela massa popular que imortaliza mais que os bronzes oficiais.

Os oficiais de galões de ouro que acompanham construções navais em Newcastle e que passeiam no Palais de Glace e nos bulevares, serão a bordo dos barcos brasileiros simples fantoche.

A anistia foi um golpe de morte na marinha deste país. Pobre Brasil”.

Ali estava uma crítica mordaz à completa inversão de valores que se abatera sobre nós, pela capitulaçao pura e simples das autoridades constituídas.

Mas a questão nao terminaria aí. A anistia foi mera fachada. Aceitas as condições dos revoltosos, depostas as armas, o país começou a voltar à moralidade. Somente o governo nao se sentia a cômodo. E, numa ação com todos os contornos da covardia e de torpes maquinações, os revolucionários foram caçados como feras, alguns trucidados, outros torturados e outros mais mandados para os confins da Amazônia, onde as febres e as agruras do meio facilitariam o seu f m.

Mais uma lamentável façanha do mesquinho e medíocre Marechal Hermes, o mesmo que mandou bombardear Salvador e que provocou a Sediçao do Juazeiro.