“Eu era então copeiro do rei”

(Neemias, 1,11)

Com os modernos sistemas de informação da hora, especialmente através das rádios-relógios e do telefone, conjugados e dependentes dos equipamentos de Observatórios Astronômicos, perdeu-se a noção do que representava, tempos atrás, a dificuldade de se saber e de se manter a hora certa.

Pense-se, por exemplo, em uma pequena cidade afastada dos grandes centros, em um período em que a população não mais se guiava pelo deslocamento do Sol entre a aurora e o poente. Como se teria ali o conhecimento da exatidão da hora? Quem, afinal, dizia qual era a hora certa?

É claro que se está cogitando de referências de tempo mais precisas do que aquelas manifestadas por expressões como “à noitinha nos encontramos”, ou “depois da chuva passo lá”, ou “chegue logo que amanhecer”, ou “o nosso acordo vale até o pôr-do-sol”.

Em termos de minutos, quem dizia naquela cidade o que era certo ou errado, quem afirmava que este ou aquele relógio marchava bem ou não?

Vem, então, à lembrança os relógios públicos. O da torre da igreja, o da estação, o do relojoeiro. Sim, é interessante marcar que a vida das cidades se organizava, no tocante a horários, pelos relógios públicos, sobretudo aqueles de maior confiança, aqueles dos relojoeiros que forneciam o padrão, a “hora certa”.

Em Petrópolis (RJ), na Rua Dr. Porciúncula, diante da Estação da Estrada de Ferro Leopoldina, o relojoeiro OTTO JERKE instalou por sobre a loja onde funcionava a sua “Relojoaria e Ourivesaria Suissa”, um grande relógio, de duas faces, luminoso. Isto ocorreu entre setembro e outubro de 1922. O requerimento de licença para instalação foi protocolado na Prefeitura Municipal sob o nº 3359, a 4 de setembro de 1922 e foi deferido a 18 do mesmo mês, fixando-se o dia 20 de outubro seguinte como termo final do prazo para a colocação do relógio na posição indicada na parede do prédio. O serviço foi realizado satisfatoriamente e encaminhou-se o requerimento ao arquivo a 3 de novembro. Tanto a caixa e o artístico suporte representando uma águia, como o mecanismo haviam sido importados da Alemanha.

A precisão do funcionamento foi por todos logo reconhecida e o relógio passou a comandar os avanços, os atrasos e a pontualidade da vida de boa parte da gente petropolitana. Os bondes e os ônibus, que tinham ali diante da estação o ponto inicial, saíam de acordo com o relógio. Até mesmo o relógio da estação da estrada de ferro era posto em confronto com o de OTTO JERKE, merecendo mais fé o último. Não é descabido afirmar que a denominação popular de “Relógio da Estação” pertencia muito mais ao aparelho da Relojoaria e Ourivesaria Suissa do que aos marcadores de tempo da estação propriamente dita. Isto se acentuou quando passaram a circular os ônibus para o Rio, com partidas da Rua Dr. Porciúncula, observados os horários segundo indicado no relógio de JERKE.

Durante cerca de quarenta e dois anos assim ocorreu, até 1964, ao se fechar a loja de FARACO LOTERIAS, que por volta de 1960, após a Relojoaria e Ourivesaria Suissa encerrar suas atividades, se estabelecera no local e conservara em funcionamento o relógio.

É de se mencionar que o mecanismo original, apesar de cuidadosamente tratado, começou a demandar enormes esforços para manutenção da precisão, dados os desgastes do tempo e as dificuldades de reparo das peças, certamente agravadas pela 2ª Grande Guerra e suas consequências.

Foi, então, no princípio da década de 50, substituído por um conjunto IBM, de fabricação da subsidiária desta Companhia Nacional de Máquinas Industriais, sediada em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. A IBM, que começou pela Serviços Olerite S. A., passara a produzir a partir de 1940 pela citada Companhia Nacional relógio-mestre e secundários como os da Relojoaria Suissa.

Já nos dias finais de Faraco Loterias e, a seguir, com o novo proprietário e os seus sucessores, os problemas de manutenção do relógio se acumularam de tal ordem que ele parou e se tornou inviável evitar a ação destruidora do tempo. A imobilidade perdurou e tomou conta daqueles ponteiros. Os olhares lançados ao relógio deixaram de encontrar a procurada resposta.

A 30 de abril de 1984, depois de 62 anos de instalado e de tanta utilidade, o grande relógio foi retirado. Não se podia permitir que caísse, como o seu estado de deterioração apontava estar prestes a acontecer, e provocasse danos, sobretudo a pessoas.

Mas a operação não foi um melancólico ato, nem o lance extremo da história que Otto Jerke inaugurara. Ela estava inserida num plano de recuperação que há quatro anos vinha se formando e foi dele o primeiro resultado concreto. Depois de muitas conversas e pesquisas, principalmente de busca de técnicos disponíveis, conseguiu-se reunir uma equipe de restauração, devidamente apoiada por consultores nas diversas áreas envolvidas.

Posta no chão a velha caixa e desmontados o relógio-mestre e os relógios secundários, começaram os meticulosos trabalhos destinados a repor em sua melhor forma o célebre relógio da estação.

“Eu era então copeiro do rei”. A frase de Neemias podia encabeçar página que descreveria o impulso de restauração que a todos inspirava, semelhante ao que animou aquele a reconstruir Jerusalém. A recordação de outros ditos, como “em busca do tempo perdido”, usado em encontro em via pública de Petrópolis com a proprietária do relógio, podia fazer parte de escrito sobre os pensamentos fortes que estão no âmago da decisão de recuperar o relógio. Um deles, sem dúvida o mais importante, merece ser aqui referido, embora na forma mais sucinta.

A idéia de restaurar o relógio decorreu do respeito à dignidade da pessoa humana. Respeito materializado na conservação daquelas coisas que o ser humano chegou a criar, fruto de seu empenho no desenvolvimento da ciência e da arte de fazer. Respeito materializado na transmissão aos pósteros dos conhecimentos alcançados. O respeito à riqueza material e imaterial que o cérebro e o coração humanos fizeram brotar é por certo respeito à dignidade da pessoa, inclusive na dimensão das gerações posteriores, que tem o direito de conhecer plenamente o que os antepassados descobriram.

Nasce desta última consideração irreprimível exclamação: ah, se não se houvesse perdido o mais profundo saber que orientou a construção do misterioso círculo de pedras de Stonehenge; ah, se não houvessem caído em inexplicado segredo os ensinamentos dos habitantes de Machu Picchu!

O relojoeiro FERNANDO SOARES RABELLO, com enorme dedicação, já no dia 15 de maio de 1984 obteve recolocar o relógio-mestre e os secundários em funcionamento, iniciando os testes que deviam se prolongar por mais tempo que fosse necessário à confirmação de se ter recuperado não só a marcha regular mas a precisão no melhor grau possível.

FRANCISCO MOTTA e seu auxiliar, o serralheiro JONEI JORGE REBELLO, havendo se lançado a 12 de junho de 1984 ao conserto da caixa e da águia que enfeita o suporte, deram-no por concluído a 28 de agosto seguinte. Foram trocadas todas as partes de chapa e da estrutura que estavam corroídas e procedeu-se a especial e reforçada pintura de tudo.

Os mostradores, que são de vidro e foram cortados e furados por ALLYRIO AZEVEDO RAMOS, receberam tinta nova de fundo e de marcação dos números das horas e dos sinais de minutos, bem como a inscrição “Casa Comércio”. Tais serviços também estiveram a cargo de Fernando Soares Rabello.

A escolha do novo nome pelos atuais proprietários, em sequência àqueles que os antecessores foram usando (O. Jerke, Relojoaria Suissa, Faraco Loterias), se apoiou em parecer de LUIZ ANTONIO MACEDO EWBANK e teve o intuito de, com a atenção voltada para os valores históricos e não para os interesses de propaganda exclusiva, dar realce à designação tradicional daquela região da Rua Dr. Porciúncula, designação mais ampla e hoje genérica, não pertencente a qualquer negócio em particular.

Visando a difundir a história de tão importante marcador de tempo e a tornar conhecido o seu funcionamento, antes do retorno dele à posição de onde se destina a servir ao público, foi organizada por JOSÉ KOPKE FRÓES uma exposição no saguão do Correio de Petrópolis, composta de antigas e recentes fotografias, tendo ao centro o próprio relógio, completo, com o mestre e os secundários em movimento. Embora há tempos estivesse pronto o relógio, a exposição só foi armada em junho de 1985 para não se perturbar o acesso ao Correio na época do Natal de 1984 e para que com a volta às aulas se pudesse dar às escolas a oportunidade de programar visitas dos alunos.

O primeiro minuto do Século XXI também será marcado pelo Relógio da Estação, a caminho do seu centenário, conforme se espera e se lutará por acontecer.