A SAUDOSA ENGENHOCA

Gabriel Kopke Fróes

A Tomás Gonçalves Dias Goulão, filho de Pedro Gonçalves Dias e Maria Brígida da Assunção, coube, por morte de sua mãe em 1829, o nosso conhecido Retiro de São Tomás e São Luís. Essa extensa gleba, cujas terras começavam na Westphalia, pouco abaixo do local em que viria a ser construído o atual Matadouro Municipal e terminavam em Corrêas, nunca chegou a produzir grande coisa. Seu solo era, todo ele, coberto por magnífica floresta, mas era só.

Em 1840, o Goulão, após haver arrendado a Fazenda do Córrego Seco e tentado, sem sucesso explorá-la comercialmente, resolveu constituir em senhorio as terras do seu Retiro de São Thomás e São Luís. E para moradia, lá construiu a Fazenda da Engenhoca com linda casa posta em pitoresco outeiro e interessante pequena lavoura, sobressaindo o pomar, as árvores do cravo da Índia e o chá chinês. O nome de Engenhoca derivou do avantajado monjolo que funcionava atrás da casa.

No entretanto, só com a abertura, em 1858, da estrada União e Indústria, flanqueando as terras de ponta a ponta, é que a região passaria a desenvolver-se razoavelmente.

Era Tomás Goulão excelente criatura, tanto que foi agraciado pela Coroa com as insígnias de Cavalheiro da Ordem de N. S. Jesus Cristo. Mas tendo chegado a casa dos oitenta anos no estado de solteiro, não passava, talvez por isso mesmo, de um refinado apreciador do belo sexo … E já velhinho, inofensivo, de pernas frouxas, mãos trêmulas e gengivas murchas, não se conformava em viver apenas das recordações: seu olhar para qualquer rabo de saia denunciava bem o fogo a lhe tostar a alma. Costumava dizer, muito sério, que estava um pouco usado, mas velho nunca …

Ginete emérito nos bons tempos, conservava, apesar de tudo, o gosto pelos passeios a cavalo. Nos últimos anos, trocara a montaria por uma burrinha branda de gênio e muito afeiçoada que lhe merecia confiança, principalmente, por ser velhota também.

Em 1872, afinal, o acúmulo de anos arrebatou o bom Goulão do número dos vivos. Um mal-estar indefinido durante o dia, agravado à noite, e a parca inexorável, com sua horrenda foice, entendeu que já era tempo de cortar o débil fio que prendia à vida o venerando Tomás Gonçalves Dias Goulão. E antes do raiar da madrugada, lá se foi para o além aquela alma errática e indecisa.

Ocorreu, então um caso, positivamente, singular. Aos primeiros alvores do dia, a burrinha predileta do Goulão foi encontrada de pernas esticadas na chácara, bem ao lado da morada. Fiel animal! … Quis servir ao amo até na longa jornada para o outro mundo…

O Retiro de São Tomás e São Luís seria transferido, logo após a morte do Tomás Goulão, para José Cândido Monteiro de Barros que, no entanto, só em 1885 se mudou para a Engenhoca. A casa da fazenda foi, então, muito melhorada, sendo construído ao lado, como que a montar-lhe guarda, um lindo templozinho.

Passou a Engenhoca, d’ali em diante, a viver seu bom tempo. Os negócios progrediram e o major José Cândido, mercê de sua simpatia pessoal, atraia as atenções gerais do mundo social e político de Petrópolis. O solar era uma autêntica casa brasileira, sempre alegre e hospitaleira…

Depois de exercer a vereança na Câmara Municipal de Petrópolis quantas vezes quis, assumindo a presidência várias vezes, José Cândido Monteiro de Barros foi agraciado pelo Governo Imperial com o Oficialato e a Comenda da Ordem da Rosa, e Pedro II nomeou-o Fidalgo da Casa Imperial. Floriano Peixoto, embora a conhecida simpatia do major José Cândido pelas causas monárquica, conservá-lo-ia no Comando Superior da Guarda Nacional de Petrópolis durante todo o período revolucionário de 1891.

Ainda no limiar do século XX, continuava a doce e suave Engenhoca sua vidinha feliz, eis que o pior lhe aconteceria: adoece e morre o major José Cândido. Foi a 13 de abril de 1902.

Pobre Engenhoca, que golpe!

Tocando, por herança, a propriedade ao dr. Manuel Edwiges de Queiroz Vieira, genro de José Cândido, reviveria a Engenhoca alguns dos seus melhores dias. O dr. Edwiges, tal como o sogro, era político prestigioso, com a circunstância de exercer os mais altos cargos nas administrações federal e estadual. Por isso sua residência se transformaria numa espécie de Meca da política nacional. O Marechal Hermes da Fonseca, presidente da República e o general Pinheiro Machado, chefe político nacional, foram, entre muitos outros, assíduos frequentadores da Engenhoca.

E lá estava, sempre alegre e prestativa, dona Maria Tereza esposa do dr. Edwiges, ou melhor, dona Sinhazinha, o anjo tutelar d’aquela casa.

Depois … depois morreria também o dr. Edwiges e aí não houve mais salvação para a fazendinha.

Chegou o prédio, por volta de 1922, a ser alugado para hotel, nele aparecendo a taboleta profana de “Pensão Engenhoca”. Mas por pouco tempo. Fracassaria a iniciativa.

Moradia e templo, já muito envelhecidos, acabaram por sofrer os golpes demolidores e inclementes das picaretas do progresso.

E adeus, para sempre, velha, querida e muito saudosa Engenhoca!