MORTE TRÁGICA DE SINHÁ MOÇA NO RIO DA CIDADE (A)

Gabriel Kopke Fróes

A 12 de novembro de 1721, o capitão Luís Peixoto da Silva fez requerimento ao governador e capitão-geral da Capitania do Rio de Janeiro Aires Saldanha de Albuquerque para ser dono de terras vizinhas às de Bernardo Soares de Proença. Concedida a sesmaria, tornou-se o referido capitão o primeiro fazendeiro do Rio da Cidade.

Deve ter sido no meado do século XVIII que a fazenda do capitão Peixoto foi vendida a Manuel Antunes Goulão.

De posse das terras, deu-lhes Goulão grande impulso, construindo, com provisão de 29 de outubro de 1749 e benção exatamente dois anos após, a Capela de Nossa Senhora do Amor de Deus, origem da devoção que dura até os nossos dias. Grande terreno ao lado da capela foi reservado para o cemitério que ali funcionou durante muitos anos, mesmo depois de abandonada a fazenda.

A capela do Rio da Cidade, a segunda, provavelmente erigida em todo o território da futura Petrópolis, tornou-se logo o centro religioso da vasta vizinhança. Nela houve missa já no Natal de 1751.

A alegre capelinha possuia ao centro do altar a imagem dedicada ao culto do Amor Divino que lhe deu o nome. E esse título é a prova da devoção dos donos e lembra um mistério da nossa fé católica: o mistério da S. S. Trindade, no qual adoramos um Deus em três pessoas, chamando o Espírito Santo, com justa razão, a pessoa do Amor Divino. A bela imagem apresenta Maria Santíssima segurando em suas mãos imaculadas a pombinha branca, símbolo do Espírito Santo, para significar que a Santa Mãe do Salvador vivia em união íntima com o Espírito do Amor Divino e estava cheia de graça celestial.

Nos anos de 1783 a 1789, os padres Antônio Tomás Aquino Corrêa e José Joaquim de Santana celebraram atos religiosos na antiga capela do Rio da Cidade, como provam os livros da paróquia de Inhomirim. Daí em diante, há confusão com respeito à Fazenda do Rio da Cidade e sua capela.

O certo é que em 1808 a capela conhecida pelo nome de Nossa Senhora do Amor de Deus é a do padre Tomás de Aquino Corrêa construida na célebre Fazenda dos Corrêas, sinal de que o altar e orago foram transportados do Rio da Cidade para a nova vivenda e que a velha capela deixara de existir.

O tronco da família dos Corrêas, de tão largas tradições entre nós, foi o chamado “casal português” constituido por Manuel Corrêa da Silva e Brites Maria da Assunção Goulão, ele chegado ao Brasil por volta de 1750, e ela rebento único do matrimônio de Manuel Antunes Goulão.

Desse par, houve os seguintes filhos, nascidos uns na Fazenda do Rio da Cidade e outro na de Corrêas, tomando, conforme o uso europeu, ora o nome paterno, ora o materno: Padre Antônio Tomás de Aquino Corrêa, Dr. Agostinho Corrêa da Silva Goulão, Dr. Luís Joaquim Corrêa da Silva, Arcângela Joaquina da Silva Goulão e Maria Brígida da Assunção Corrêa. Uma outra filha, a mais velha, cujo nome, com o decorrer do tempo, seria esquecido, teve morte trágica no verdor dos anos, comovendo toda uma geração. Vejamos como foi.

O sol, pela manhã, trouxera a ventura e a esperança à casa grande da Fazenda do Rio da Cidade. Casava-se, naquele dia, a linda Sinhá-Moça, a mais mimosa dona daqueles sertões risonhos, com José da Cunha Barbosa, o mais guapo oficial do exército reinol destacado no colônia. Boa, alegre, generosa, ela e as irmãzinhas Arcângela e Maria Brígida, eram o ídolo da pretalhada e a alegria daquele lar feliz. Seus irmãos, um, o mais velho, vinha de regressar de longínquo seminário, consagrado sacerdote a serviço da Igreja; e os outros dois estavam no Reino a concluir humanidades.

O altar engalanado da Capela do Amor de Deus – ao centro, a imagem de Nossa Senhora – resplandecia à claridade do sol generoso do sertão. Ante aquele santuário – quantos anos havia! – tinham se unido para sempre os avós maternos de Sinhá-Moça, ambos já descansando no seio do Senhor. Primeiro ele, depois ela, a boa avózinha que, quantas vezes, acalentara a netinha querida, para quem bordara com as próprias mãos um lenço primoroso, com a recomendação de guardá-lo para quando fosse moça e chegasse o dia feliz do casamento.

Também ali se haviam casado os pais da linda noiva, os quais, embora já senhores de tantos bens, ainda mourejavam no trabalho rude do campo, achando-se presentes e orgulhosos daquele grande dia.

Agora chegara a vez de Sinhá-Moça. Unir-se-ia ante o altar ao seu príncipe encantado, másculo de corpo e enérgico de espírito. Os esponsais firmariam uma união transbordante de risos e esperanças. Radiante de alegria, ultimava a noivinha, em seus aposentos, os preparativos para o ato sagrado.

Eis, porém, que já pronta, nota a falta, entre as peças do enxoval, da prenda indispensável: o lenço da vovózinha. Corre, então, a buscá-lo. Procura-o, procura-o, mas em vão, entre os móveis do quarto. Por fim, lembra-se da velha cômoda, já fora de uso, levada para acanhado compartimento dos fundos da casa. Para lá vai nervosamente. Forceja e abre, descuidosa, o emperrado gavetão fechado desde muito. E sucedeu a fatalidade, rápida, fulminante: jacto venenoso, tonteira súbita, fá-la cair de borco, embriagada pelo cheiro forte que dali se desprende. No móvel fatídico, guardavam-se flores secas de esponjeira, de emanação mortífera!

Já a vida se lhe esvaía, quando a encontraram.

Sinhá-Moça, a formosa princesa do sertão, na hora justa em que deveria transpor, alegremente, o limiar de uma nova vida, retirava-se para o seio tenebroso da morte.

As flores do noivado convertiam-se em flores mortuárias.

E o sol que nascera naquele dia trazendo alegria e esperança, retirava-se agora magoado deixando o luto e a desolação no Rio da Cidade!