CONTRIBUIÇÃO À HISTÓRIA DA IMPRENSA PETROPOLITANA – OS GUIAS PETROPOLITANOS

Oazinguito Ferreira da Silveira Filho, associado titular, cadeira n.º 13, patrono Coronel Amaro Emílio da Veiga

Dando continuidade ao trabalho intitulado “A IMPRENSA PETROPOLITANA NA REPÚBLICA VELHA”, abordaremos neste ensaio “OS GUIAS PETROPOLITANOS”. Porém antes de explorarmos o assunto torna-se necessário definirmos “guia”.

O grande filólogo Aurélio B. De Holanda, em seu célebre Dicionário da Língua Portuguesa, página 709, relaciona 19 itens para a palavra guia, onde podemos encontrar no de número 16, o que se coaduna com a nossa proposta:

“Publicação destinada a orientar habitantes ou visitantes de determinada região ou cidade sobre atrações turísticas, estradas, logradouros, horários de transportes, etc…; roteiro”

Podemos observar que esta definição em muito se difere da que é destinada a “almanaque”, que é uma publicação de características mais genéricas quanto à abordagem dos assuntos e universalista quanto aos mesmos. Já o guia não, este é local ou regional (1) . É claro que não é uma regra especificada e determinada (2) .

(1) Dicionário da Língua Portuguesa, Aurélio B. De Holanda, p.71

(2) O guia de Cameron possuía alguns elementos característicos de Almanaque

Os guias ou roteiros, como também podem ser denominados, são antigos na história da civilização humana; já na antiga Roma, são inúmeras as descrições de guias produzidos pelos órgãos do Império e dirigidos a seus cidadãos mais ilustres que saíam em viagens de negócios, ou de assuntos políticos de Estado. Entre a Idade Média e a Moderna, eram produzidos como fruto do mercantilismo desenfreado que se processava pelas nações e consumidos pela burguesia comercial ávida por lucros, enquanto frades e padres também possuíam seus roteiros ou cartas de viagem, os quais eram passados de mãos em mãos para a suas solitárias viagens de peregrinação ou de catequização.

Com o advento da imprensa, estes se tornam uma rotina dentro das publicações das comunidades sequiosas de informações e atualizações sobre as transformações que se operavam e possuíam como fontes cartas de comerciantes e viajantes que lhes definiam novas rotas e condições. Porém, sua prática e comercialização definitiva ocorre com o advento da Revolução Industrial, onde o aperfeiçoamento da imprensa mecânica e a diversificação das feiras comerciais e industriais européias, a partir do século XVIII, são os elementos propícios à sua evolução.

No Brasil, inúmeros foram os guias produzidos desde o estabelecimento da Imprensa Oficial, contudo, o que mais se tornou célebre no Império foi o Almanaque Laemmert, um guia sofisticadíssimo com características de almanaque, fornecendo todas as descrições e assuntos sobre todas as temáticas existentes nas províncias brasileiras, não somente industriais e comerciais, como também sociais e de apelo regional para a população.

GUIAS PETROPOLITANOS

Como vem sendo discorrido em nossos trabalhos sobre a imprensa petropolitana, esta por número e variedades de publicações foi uma das mais importantes do Brasil, com um excelente parque tipográfico e dotado dos mais experientes profissionais, no que nada deixou a dever à da capital e às das mais importantes cidades do pais.

Por tal é que a publicação de guias foi um elemento da maior importância no passado de nossa cidade, e que muito contribuiu para celebrizá-la em vários particulares, pela grande eficiência na apresentação de guias e roteiros (indicadores). A época de ouro dos mesmos situa-se no período de 1885 a 1928, quando ocorrem as explosões tipográficas (3) em nossa cidade (mais precisamente na República Velha).

(3) Fenômeno particular acusado em Petrópolis em grande parte pela fuga para veraneio em Petrópolis que durante as primeiras décadas do século XX passam a acusar movimento idêntico ao das penúltimas décadas do século XIX período final do Império. (N.a )

UMA OBRA RARA

O mais antigo de todos os guias petropolitanos que constitui hoje uma obra rara de nossa imprensa é o de Thomas Cameron, intitulado “Os Estabelecimentos de Petrópolis” e que foi publicado em 1879, impresso na Tipografia de Bartolomeu Pereira Sudré, situada no número 66 da antiga Rua Tereza. Obra esta que já foi republicada quando de seu centenário, por intermédio do Museu Imperial quando de administração direta do Ministério da Educação e Cultura, em seu Anuário.

Cameron, em sua página de introdução que é dedicada ao leitor, destacava não ser este um eficiente trabalho, mas que servia aos propósitos de dar conhecimento aos visitantes de uma cidade “… das que mais tem se avantajado…”, acrescentando, “…não somos uma população morta e que neste recanto do Brasil sente-se sangue americano ao lado da vida européia…”.

Assim sendo, seu guia descrevia os inúmeros estabelecimentos importantes na Petrópolis de então: O Colégio Paixão, Asilo de Santa Isabel, Hotel Bragança, Hotel Beresford, Hotel Inglês, Escola Nossa Senhora do Amparo, Hospital Santa Tereza, Estabelecimento Hidroterápico, a Imperial Fábrica de São Pedro de Alcântara e tipografia do Jornal Mercantil (4).

(4) Pertencente a Sudré, o pai da imprensa petropolitana.

Em 1885, Cameron retorna ao cenário da imprensa com outra publicação semelhante, o “Guia de Petrópolis para o Ano de 1885″, um trabalho mais completo, onde Cameron procurava seguir a linha dos mais antigos e tradicionais “almanaks” europeus, ou do já consagrado brasileiro “Laemmert”.

A diversidade de assuntos sobre Petrópolis era sua característica, chegando a incluir um calendário e cronologia com um santuário completo, no molde dos almanaques. O mesmo guia dedicava também um grande número de páginas às publicidades das casas comerciais, profissionais e industriais de então.

EM PLENA REPÚBLICA VELHA

O primeiro a destacar-se é o “Almanak Cyclistico” e “Anuário do Cycle Club do Brazil para 1899″, publicado em 1898 pela direção desta entidade em Petrópolis, que possuía entre os veranistas um imenso número de associados, e que foi editado e compilado por Theodoro Rombauer, contendo prefácio do Dr. Afonso Celso (Conde de Afonso Celso). O preço era de cinco mil réis, algo de nada acessível à população da época, com características de se destinar exclusivamente aos ciclistas, sendo, portanto, uma raridade no gênero, pois se destinava a uma elite desta modalidade esportiva cara para a época (5).

(5) Guias semelhantes foram publicados na França.

Era constituído de um calendário em forma de agenda; Comparação de Medidas e Velocidades; Itinerários para Excussões; Horários dos trens não só de Petrópolis, assim como do Rio de Janeiro; Fretes das Bicicletas nas Estradas de Ferro; História do Cycle Club com seus estatutos e mapas ciclísticos.

Podemos destacar como mais importante nestes elementos o tópico “itinerário”, o qual continha descrições dos caminhos a partir de Petrópolis, com descrição das paisagens e relevo, etc.

Em 1904 é publicado o “Guia de Petrópolis” de A. C. de Cavalheiro Lago, o qual retoma o caminho de um guia original, com descrições generalizadas de servidões; entidades; autoridades; impostos; corpo diplomático estabelecido; preço dos transportes, além dos respectivos pontos e itinerários; clubes; sociedades; profissionais; planta da cidade (6) ; publicidades e outros. Quanto a impressora, não obtivemos informação, mas podemos ressaltar ser uma das mais perfeitas apresentações para a época, e de acabamento gráfico de luxo.

Já em 1910, publicou-se “Petrópolis Cidade do Brasil – A Rainha das Serras”, da Empresa de Propaganda ALEX, a qual possuía como diretor-gerente o memorável editor e jornalista João Roberto d’Escragnolle (7), sendo impresso na tipografia da Escola Gratuita São José, e sua publicação era uma Concessão Municipal, o que constitui uma informação apreciável no transcurso do histórico da administração municipal.

(6) Uma novidade para a época.

(7) Uma revista de grande sucesso no período e sob sua direção foi “Verão em Petrópolis”, de 1902.

Este era de esmerado acabamento gráfico, como o eram a maioria das publicações de d’Escragnolle. Continha um histórico e evolução da cidade, extraídos do relatório de Arthur de Sá Earp, conceituado médico petropolitano e ex-presidente da Câmara Municipal, uma descrição geográfica da cidade, com suas características e mais importantes pontos turísticos, os quais deslumbravam os visitantes.

Outras características importantes além de sua diversidade de assuntos, era a de ser trilíngue quanto ao seu “Guia para Turistas” e ser ilustrado com fotogravuras.

No terceiro trimestre de 1915, Sabino Lopes Ribeiro, proprietário da Tipografia e Papelaria Ribeiro, organiza o que denominou por “Novo Guia de Petrópolis”, cuja distribuição era gratuita. Desfilando por suas 40 paginas as mais resumidas e importantes informações sobre a cidade, e inovando com alguns trechos literários escolhidos e interpostos entre os assuntos.

Quando das comemorações do Centenário de Nascimento de Pedro II, o recém-criado Sindicato de Iniciativa de Turismo do Município de Petrópolis, organiza um guia que foi impresso na gráfica do Centro da Boa Imprensa, atual Editora Vozes, e que trazia um Catálogo Geral da Exposição Industrial e Agrícola de Petrópolis realizada para comemoração do centenário.

Este também era bem ilustrado com fotos dos inúmeros recantos petropolitanos, como de personalidades da vida pública e empresarial da cidade. Completo quanto aos assuntos do município, uma característica que dominara todos os demais guias petropolitanos até a década de 50.

Em 1928, surge o guia de Antonio Castelar, que foi impresso na Gráfica e Papelaria Esteves, o qual segue a mesma linha de publicação criada por d’Escragnolle em 1910. Quanto ao tamanho, todos estes guias seguiam um padrão semi-uniforme, com geralmente 9 a 12 cm. de largura por 15 a 17 de comprimento, uma coluna, e comportando uma média de 40 a 90 páginas.

UM GUIA EXCÊNTRICO

Única ressalva seja feita à uma jóia tipográfica de Petrópolis, o miniguia de bolso, um indicador, publicado pelos editores, Muller e Passos, intitulado “Petrópolis de Bolso”, de 1928, cuja importância é a de ser provavelmente um dos menores guias ou indicadores já impressos no Brasil na República Velha, em 1928.

Suas dimensões são de 9cmX 6,5 com 1cm de espessura e 200 paginas. E para realce desta raridade gráfica petropolitana, trazia diminutas ilustrações fotográficas.

Portanto, uma publicação que por si só já era um desafio ao profissionalismo da época, abordando toda a variedade de assuntos causando inveja aos seus concorrentes e antecessores.

BIBLIOGRAFIA

Guias que compõem o acervo da Hemeroteca Pública da Biblioteca Municipal de Petrópolis.