Dona Januária de Bragança, a Princesa da Independência – O Conde d’Aquila e a luta familiar contra Garibaldi –

Carlos Tasso de Saxe-Coburgo e Bragança (Dom), Associado Correspondente

 

Quem foi Dona Januária?
Sua figura esteve sempre à margem da história, sendo desconhecida pelo grande público. De qualquer maneira, sua personagem esteve ofuscada pela do irmão, o grande Imperador Dom Pedro II.

Dona Januária é, sem dúvida, uma personalidade singular.

O berço lhe proporcionou uma altíssima posição, e glórias. A vida lhe reservou o destaque da pátria, o exílio, a penúria, e desgostos familiares.

A sua bondade e a sua primorosa e inata educação a ajudaram a superar a sequência de grandes golpes, sempre suportados desde a infância. Ela herdou a grandeza de ânimo de sua mãe, a Imperatriz Dona Leopoldina, sem ter, no entanto, o privilégio da mesma visão política e cultural.

Era tímida, sensível, introvertida. Ela não era bonita e não irradiava vivacidade, seu semblante era sério e meditativo. A estatura era mediana, mas o porte era de rainha.

Nasceu como Infanta de Portugal, foi chamada de “Princesa da Independência”, foi a primeira princesa imperial do Brasil, irmã de um imperador e de uma rainha aparentada com todas as cabeças coroadas católicas na Europa.

Quando nasceu, no Paço de São Cristóvão, em 11 de março de 1822, a Corte estava de luto. Havia falecido, poucas semanas antes, o pequeno Dom João, precedido do irmão Dom Miguel, dois anos antes, em abril de 1820.

Bem podemos imaginar a ânsia dos pais, já tão provados pela mortalidade infantil, que naquele tempo assolava as famílias.

A natividade de Dona Januária ocorreu em momento de grande reboliço político. A Independência estava na ante porta, à espreita. A pequena herdeira, mimada por todos, foi solenemente batizada na Capela Imperial uma semana após o nascimento, recebendo o nome que a ligaria à sua cidade natal, seguido por mais onze nominativos tradicionais nas famílias reais de Portugal e do Brasil.

Em seis meses, ela passaria de Infanta de Portugal à “Princesa da Independência”, como a “vox populi” a apelidou. Ela não ficaria sozinha na “creche imperial”, pois em 1823, a mesma foi agraciada com o nascimento de Dona Paula Mariana, seguida, em 1824, por Dona Francisca. Por último, nasceu, em 1825, a grande esperança da dinastia, o futuro Dom Pedro II.

Porém, nuvens sombrias começaram a se abater sobre os pequenos infantes. Dona Januária tinha quatro anos e meio quando perdeu a amada mãe . Foi a primeira grande desdita para seu pequeno coração. Emoção e surpresa foi a aparição da madrasta, a bela e ainda jovem Dona Amélia, que soube logo, com seu ar maternal, se fazer amada e estimada.

A amizade da princesa com Dona Amélia foi de tal ordem que duraria para o resto de suas vidas.

O tempo corria entre as agitações políticas, mas sem grandes impactos sobre os pequenos príncipes, até quando o pai, inesperadamente, deixa o Brasil, levando consigo a nova “mãe”, e abandonando, certamente, com pesar, os filhos pequenos. A razão dinástica o exigia.

Dona Januária tinha então 9 anos. O vazio deixado pela partida do pai certamente deve ter sido enorme. Ficaram realmente sendo os “órfãos da nação”.

Dom Pedro não era mais imperador, se tornara rei. Nos momentos livres, ele escrevia saudosas cartas, percebendo-se em suas atitudes quase um remorso por ter deixado para trás as criaturas inocentes. Preparava a expedição para desalojar o irmão Miguel, que havia sido, nos tratados políticos, o “marido” eventual da irmã Maria da Glória. Que família complicada, deve ter pensado anos mais tarde Januária.

Finalmente, chegou uma notícia alegre numa carta de Paris, comunicando o nascimento da irmãzinha Dona Maria Amélia, amadrinhada pela Rainha Maria Amélia dos Franceses . A pequena e linda irmã, entretanto, nunca viria ao Brasil. Ficou conhecida como a Princesa Flor e morreu jovem, na ilha da Madeira.

Com as crianças imperiais, Dona Amélia manteve um contato epistolar frequente. Com o futuro Dom Pedro II, trocou missivas até ao fim dos seus dias.

Com o afastamento dos pais, era natural que as crianças permanecessem cada vez mais unidas. Sobretudo Dona Januária e Dona Paula Mariana, que eram ligadíssimas. Tinham os mesmos interesses, tornando-se inseparáveis. A sorte, mais uma vez, aprontou, e em janeiro de 1833, a simpática e loura Paula Mariana deixa este mundo.

Mais um profundo desgosto, uma perda imensa para a sensível Januária. Quase um grito de desespero é a carta que dirige ao pai distante: “Amado Pai, apesar das nossas constantes súplicas aos céus, a nossa querida irmã Paula Mariana partiu. Não encontramos consolo. Nossa irmã tão amada não está mais conosco”. Estas palavras bem mostram a sua grande aflição.

Também Dom Pedro escreveu uma emocionada mensagem a José Bonifácio, pedindo-lhe que guardasse um bocado do lindo cabelo da menina, e que depositasse o corpo no convento de Nossa Senhora da Ajuda.

Apesar do grande abalo, os estudos das crianças continuaram, com a mesma severidade e com as mais variadas matérias. Taunay nos deixou ver os pequenos príncipes cumprindo seus deveres escolares em uma de suas lindas e famosas litografias. Dona Januária sofria em silêncio, agora eram somente três. Uma infância bem triste!

Reclusos em São Cristóvão, no convento de São Cristóvão, como diria 30 anos mais tarde a Dona Leopoldina à irmã Dona Isabel. Januária, agora, sendo a mais velha, sentia-se duplamente responsável, dando a impressão de cultivar uma afeição toda especial pelo pequeno irmão, como o provam as centenas de cartas que lhe escreveria pelo resto da sua vida.

Poucos eram os contatos com outras crianças da mesma idade, e a severa educação não admitia exceções. Dona Francisca, alegre e ciente da sua beleza, ficava de lado, e mesmo quando adultas não deixavam transparecer uma ligação íntima entre as duas.

No entanto, o pai se batia pela causa liberal, e a sua saúde infelizmente se exauria. No dia 24 de setembro de 1834 faleceu, em Queluz, o amado genitor, o proclamador de nossa Independência.

Agora eram realmente órfãos. Dona Amélia enviava cartas consoladoras, mas, na realidade, devia ser Januária com o seu ar maternal e inata bondade a confortar os pequenos irmãos e colegas de desventura.

Configurava-se um quadro desolador e profundamente melancólico.

Os anos se passavam entre a abdicação de Dom Pedro I ao trono do Brasil e a conquista da Coroa portuguesa para Dona Maria da Glória. Pela turbulência política no país e a tenra idade do monarca, a Regência julgou pertinente, no intuito de fortalecer o sistema monárquico, fazer jurar a Constituição a princesa Dona Januária.

O primeiro passo foi declará-la Princesa Imperial e, portanto, eventual sucessora de Dom Pedro II. O padre Diogo Antônio Feijó, na qualidade de regente aceitou e recebeu o decreto de nomeação em seu nome.

No dia 14 de agosto de 1836, a pequena princesa, numa elegante veste com enfeites dourados, sobre a qual sobressaía a faixa azul da Grã-Cruz da Imperial Ordem do Cruzeiro, entrou com passo solene e firme no Paço do Senado. Na presença de todos os representantes da nação, de pé, ela se ajoelhou, colocando a sua pequena mão sobre o Evangelho e pronunciou, com voz firme, mas comovida, o texto ritual: “Juro manter a religião católica apostólica romana, observar a Constituição política da nação brasileira e ser obediente às leis e ao imperador”.

jan02w

Dona Januária, por ocasião do seu juramento no Senado. Desenho de Debret

Antes deste importante ato, os parlamentares discutiram entre si se a princesa devia jurar em pé ou ajoelhada. Venceu esta última facção. Não existia ainda uma tradição estabelecida sobre a matéria na nova monarquia.

Uma mocinha de catorze anos tornou-se solene e oficialmente herdeira do irmão, com todas as obrigações inerentes a este alto cargo. Foi um ato simbólico, a fim de preparar, de qualquer maneira, a ascensão do jovem imperador. Tudo parecia tão confuso que entre certos grupos de liberais surgiu a fugaz ideia de formar uma Regência presidida pela princesa. Esta inoportuna ideia, todavia, alguns anos mais tarde, serviria a uma venenosa intriga.

Desde 1833, o sempre poderoso mordomo-mor, Paulo Barbosa da Silva, influenciava habilmente a política nacional. A sua morada, perto do córrego da Joana, veio se chamar em breve o “Clube da Joana”, por ser o ponto de encontro dos intelectuais, dos magnatas e das pessoas influentes na política. Ali eram tomadas decisões, feitas concessões, se influenciava e se faziam intrigas. A coisa chegou a tal ponto de se dizer que o poder estava nas mãos de Dom Paulo I e não de Dom Pedro II.

A Mordomia Imperial, em contraste com aquela portuguesa, era modesta. Esta última contava com cerca de 350 pessoas, enquanto no Brasil não chegava a 200 indivíduos.

Com a volta de Dom João VI para a Europa, permaneceram poucos cortesões no Rio. Grande parte dos cargos existentes em Lisboa não tinha sido preenchida. Devemos mencionar que a maior parte das funções de relevo era honorífica e, portanto, não pesava sobre as finanças da mordomia nem tampouco da nação.

Com a queda da popularidade da Regência declarou-se a maioridade do Imperador “Menino”. Foi na realidade um golpe político dos liberais. Ficou célebre a frase “Quero já”, que Dom Pedro teria externado.  Parece, no entanto, que se referia à data da convocação das câmaras para prestar o juramento, e não a uma ânsia de poder, que fatalmente o afastaria em parte dos seus estudos. Certamente, não devia sentir-se ainda preparado para a grande tarefa.

Em Portugal e na Espanha, os reis não eram coroados. Os monarcas tinham a coroa como um símbolo. Eram simplesmente aclamados em cerimônia pública, seguida de um solene Te-Deum . No Rio de Janeiro, em 18 de junho de 1841, se realizou a coroação de Dom Pedro II, com a solene sagração e unção, conforme o rito de Santa Madre Igreja, pelo arcebispo primaz da Bahia, Dom Romualdo Antônio de Seixas. Já com a coroação de Dom Pedro I, o Brasil havia seguido a velha tradição dos imperadores do Sagrado Romano Império. O imperador era realmente coroado. O novo e grande Império desejava possuir a própria tradição, enlaçando-se àquela seguida por Carlos Magno e não a pegada dos reis da simpática, mas pequena, terra portuguesa.

Numerosas foram as festividades que se seguiram à sagrada cerimônia . A partir de então, nota-se em Dom Pedro II uma progressiva assunção do poder. O menino era agora um jovem equilibrado e um grande observador. Estava adquirindo, aos poucos, uma experiência a qual, na sua idade, ainda não podia possuir.

Não deve ter sido uma tarefa fácil para um mocinho se desfazer, com habilidade, ponto por ponto, sem a ninguém ferir, daqueles velhos – pode-se dizer -, encanecidos usos políticos, das amizades entre os compadres e pessoas no poder, em troca de favores, escolhendo em seguida, e com sabedoria, personalidades que poderiam dar um real contributo ao país pelas suas competências e honestidade.

Naturalmente, deve-se dizer, a bem da verdade, que o imperador também teve muita sorte, pois contou com figuras notáveis, verdadeiros construtores do Império, aos quais até hoje muito devemos.

Agora, Dom Pedro, mais do que irmão, se sentia um “pai de família”. Era preciso casar as irmãs . Pela lógica, e por uma velha tradição, pensou de começar pela mais velha. Dona Januária tinha 17 anos quando o ministro plenipotenciário do Brasil, acreditado na corte do rei dos Franceses, Bernardo Pereira de Vasconcellos, foi sondado sobre a possibilidade de um conúbio de Dona Januária com o príncipe de Joinville. Também o príncipe Augusto de Saxe-Coburgo foi mencionado, casando-se, posteriormente, com a Princesa Clementina, filha do rei Luís Filipe. Meras conjeturas!

Um pretendente sério em seguida apareceu no horizonte. O rei do Piemonte enviou para “conhecer” o Brasil o príncipe Eugênio de Saboia, a bordo da fragata “Regina”. Foi recebido e convidado a um banquete em São Cristóvão. O rei Carlos Alberto pediu, por via diplomática, a mão da princesa para Eugênio, mas as pretensões foram tantas, por parte do Piemonte, que as negociações fracassaram. Eugênio era apadrinhado pela imperatriz da Áustria, princesa Sarda casada com o imperador Fernando I, irmão de Dona Leopoldina.

Parece que Dona Januária não o teria recusado, e também Dom Pedro II o achou muito simpático e inteligente.

E, finalmente, o ano de 1843 foi um ano de casamentos. Quebrando a regra das precedências estabelecidas pelo vigilante irmão, em primeiro de maio, casou-se Dona Francisca com o príncipe de Joinville. Casamento com cerimônia modesta, pois se realizou na capela de São Cristóvão, e, em pouco tempo, a bonita Dona Francisca foi enfeitar a elegante, mas burguesa, corte de Luís Filipe.

Enquanto isso, no fim do mesmo mês, casavam-se por procuração, em Nápoles, Dom Pedro II com a princesa Dona Teresa Cristina Maria de Bourbon, de Duas Sicílias.

Ficaria Dona Januária a solteirona da família? Mas, na vida, acontecem imprevistos. Dona Teresa Cristina chegaria ao Rio como imperatriz, e todos conhecem os detalhes, as surpresas, as comoções e desilusões que aconteceriam.

A imperatriz, em seu séquito, trazia um acompanhante especial, o irmão mais novo, Dom Luigi, Conde d’Aquila, jovem de 19 anos, loquaz e exuberante como costumam ser os partenopeus. A bordo, realizaram-se os cumprimentos com votos de boas vindas. Realizou-se naquele momento um encontro promissor; no dia seguinte, deu-se o solene desembarque.

jan03wAquila01

Dom Luigi, Conde d’Aquila – Lit. Gatti e Dura, Napoli

As carruagens estavam enfileiradas no cais do porto. O segundo coche estava previsto, pelo protocolo, para o transporte da Princesa Imperial em companhia do irmão da Imperatriz. O trajeto do cais até São Cristóvão era demorado naquele tempo. Durante a viagem, os jovens tiveram tempo de se conhecer pelo menos cerimoniosamente. Tanto Dona Januária como o Conde d’Aquila tinham levado uma vida de órfãos, sem calor familiar e com a rotina reprimida pelo protocolo. Naquele momento, um risonho e simpático Dom Luigi estava à frente de Dona Januária em sua reluzente farda de oficial de Marinha, com a larga fita vermelha da Grã-Cruz da Ordem de São Januário no peito. Januária estava radiante, já começando a sonhar, segura de que este seria o seu futuro marido. Durante os festejos do casamento de Dom Pedro, viram-se, e grande foi o pesar da princesa, quando o exuberante Dom Luigi voltou para a “Bella Napoli”.

O Conde d’Aquila tinha a sua decisão já tomada: casar-se com a tão distinta e equilibrada Januária . Ela exteriorizava compreensão, um ar de bondade que ele ainda não tinha encontrado, e, por coincidência, ela trazia o nome do santo protetor de Nápoles, San Gennaro – em português, Januário. O rei Fernando II, sentindo o entusiasmo do mano, pediu sem perda de tempo, oficialmente, a mão da princesa imperial. A imperatriz Dona Teresa Cristina era uma garantia da origem do pretendente. Assim mesmo, quais eram as suas raízes e o seu passado?

Ao nascer, ele foi registrado pelo prefeito de Nápoles, que também acumulava a função de oficial extraordinário do Estado Civil do Reino, Dom Giuseppe Pignatelli, marquês de Casalnuovo. O nascimento ocorreu às três e meia da manhã, do dia 18 de julho de 1824. Era o décimo primeiro filho do rei Francisco I e de sua segunda esposa, a infanta Isabel da Espanha.

O rei Francisco faleceu quando Luigi tinha 6 anos, vindo a mãe a casar-se, posteriormente, com um oficial da Guarda Real, ocupando-se pouco dos filhos. Os numerosos herdeiros foram educados por preceptores nem sempre de comprovada competência. A sorte dos príncipes e, em particular, de Dom Luigi, foi que o irmão mais velho, o rei Ferdinando II, era um monarca notável, que não somente fez uma ótima administração do reino, mas se ocupou pessoalmente da instrução dos irmãos. Ao nascer, Dom Luigi recebeu o título de Conde d’Aquila. Aquila é uma pequena e florescente cidade nos Abruzos, de origem pré-romana, com inúmeros e lindos palácios e igrejas. Depois do estudo primário, de religião e de línguas estrangeiras, foi decidido que ele estaria destinado à Marinha. Deve-se sublinhar que naquele tempo a Marinha de Nápoles era a terceira da Europa, ficando atrás somente da Inglaterra e da França. Aos 15 anos , vestiram-lhe a farda e o rapaz começou sua carreira no mar. Tinha ao seu lado, como instrutor, o capitão Gabriele de Tommaso e o capelão Gaetano Ferri.

A família Bourbon era de uma absoluta dedicação à Igreja e em constante contato com o Vaticano, em particular, com o Papa Pio IX. Para mostrar essa grande devoção, no enxoval do jovem oficial figuravam, além do crucifixo, o rosário, textos sagrados e uma água-santeira.

Podemos dizer que seus pertences eram mais de seminarista do que de marinheiro. Serviu a bordo de várias fragatas, como a “Zeffiro”, a “ Valoroso” e “Amélia”, realizando viagens de instrução e visitas a quase todos os portos do Mediterrâneo. As muitas cartas de Fernando II dirigidas ao irmão, pedindo informações sobre as atividades navais e recomendando a observação dos preceitos da Santa Madre Igreja são muito elucidativas. Além das informações do capitão de Tommaso, os comandantes dos vários navios deviam manter o Rei informado constantemente sobre os progressos do real cadete. Uma das paixões de Dom Luigi, desde menino, era a pintura, tendo recebido, já desde a primeira infância, aulas do famoso pintor napolitano Gabriele Samargiassi. Este renomado artista retratou todas as propriedades dos Bourbons, a começar pelo Palácio Real de Caserta, com o seu maravilhoso parque. A especialidade de Samargiassi, porém, era pintar as Marinhas , tema no qual Dom Luigi também se especializou. Este talento seria de suma importância em sua vida futura. Com o passar dos anos, ele conquistaria prêmios no Salão de Paris, além da menção na famosa enciclopédia Benezit.

Ferdinando II conseguiu não somente elevar a Marinha ao mais alto nível, seja a mercantil ou a militar, impulsionando o seu progresso e imprimindo uma estrutura moderna ao reino. Foi ele quem instalou o primeiro trem da Itália, criou o primeiro selo postal, saneou a moeda e conseguiu por um freio no chamado “brigantaggio”. Ele pode ser considerado um dos mais completos governantes da Europa do seu tempo. Todos o respeitavam, e, como veremos, Luigi mantinha verdadeira veneração e admiração, além de um profundo respeito a seu real irmão.

A mão de Dona Januária fora concedida pelo Imperador. A alegria e as esperanças deviam ter sido muitas de ambas as partes.

Na capital partenopeia, em 26 de janeiro de 1844, o enviado especial do Imperador, Eustáquio Adolfo Mello Mattos, assinava , conjuntamente com o chanceler das Duas Sicílias, o Príncipe de Scilla e Duque de Santa Cristina, o Pacto Nupcial em nome do Imperador do Brasil e do Rei das Duas Sicílias. Este tratado, com seus 13 artigos, é, sem dúvida, muito favorável ao jovem noivo. Devemos notar que foi escrito com medo de que a dinastia brasileira pudesse se extinguir, assim sucedendo a dinastia de Bourbon das duas Sicílias.

Em primeiro lugar, pelo pacto, o Conde d´Aquila era considerado Príncipe da Casa e Família Imperial do Brasil. Iria assumir o título da esposa, passando a ser Príncipe Imperial do Brasil, com o tratamento de Alteza Imperial. Seguem-se amplas dotações econômicas, para si e para os filhos, que seriam também Príncipes do Império. Segundo o artigo 11, no entanto, deveriam fixar a sua residência habitual no Império até que o Imperador tivesse uma descendência e que esta assegurasse a sucessão. Assim, o casal principesco só poderia se ausentar do Brasil com a autorização do Imperador, mesmo que temporariamente. Este artigo, no futuro, seria objeto de grande discórdia . O contrato estava feito, e, então, na Fala do Trono, em 3 de maio de 1844, Dom Pedro II anunciaria à nação o casamento de Dona Januária com a sua Alteza Imperial, o Príncipe das Duas Sicílias, Conde d’Aquila, aliança feliz que mais um penhor confere à perpetuidade da minha imperial dinastia […].

O contrato matrimonial é claro e límpido em sua formulação.

Voltemos ao nosso marinheiro napolitano, já casado e no Brasil. Bodas imperiais, bailes, apresentações teatrais e, talvez, uma modesta diplomacia por parte do esposo. Aquila não deve ter dado a devida atenção ao teor do conspícuo pacto matrimonial, pois, depois das bodas, almejava deixar o Brasil. O artigo 11 da convenção o prendia ao Brasil, e a reação do novo Príncipe Imperial, ao saber da restrição, foi absolutamente infantil . Dom Pedro II não podia ceder até que pelo menos o primeiro filho do casal tivesse visto a luz do dia. Aquila, com os seus 19 anos, não parecia disposto a trocar a sua residência europeia pelo então monótono ambiente do Rio de Janeiro.

O jovem Dom Luigi pisava um terreno completamente desconhecido.

Ignorava a maneira de agir da Corte do Brasil, e com certeza desconhecia a influência de um mordomo, mesmo sendo este mordomo-mor, junto ao Imperador. Os dias se passavam e o jovem oficial foi feito Almirante Honorário da Armada, presidente honorário deste venerável silogeu, recebendo todas as condecorações do Império. Enfim, estava sendo agraciado com todas as honrarias possíveis na nova terra. Escrevia para Nápoles, descrevendo como a população do Rio tinha-o recebido, aclamando-o com entusiasmo, e que a imprensa lhe fazia grandes elogios. Passava temporadas em Santa Cruz, saía a cavalo em companhia do Imperador e de Dona Januária, chegando a subir a cavalo até ao Corcovado . Tudo parecia um mar de rosas. Paulo Barbosa deve ter tido contatos desde o começo com o “Novo Príncipe Imperial”, que era impulsivo, mas também um grande observador. Na Europa, Aquila certamente era acostumado a receber um tratamento condizente com a sua posição. Deve ter sido um choque de parte a parte. Daquele momento em diante o mordomo procurou afastar o “novato” das graças do Imperador. Temia que a união entre os dois pusesse em perigo o seu domínio. Aquila talvez estivesse vendo coisas que Dom Pedro ou não via ou confiava na ação do seu velho mordomo.

Paulo Barbosa esperava que o inexperiente príncipe se sujeitasse ao seu poder, e isto ele não conseguiu. Depois de tantos anos, como o Imperador confiasse ainda na sua pessoa, Barbosa lançou presumivelmente, como autodefesa, sua venenosa intriga: o Conde d’Aquila desejava afastá-lo do poder, criando uma Regência presidida por Dona Januária e, quem sabe, com o tempo, o Brasil não teria um Dom Luís I no trono? Este boato surtiu um grande efeito sobre Dom Pedro, que voltou-se abertamente contro o cunhado. E Barbosa estava a salvo!

Muitas foram então as vozes, das mais variadas, que se levantaram a respeito destes acontecimentos, que, infelizmente, se tornaram de domínio público. Heitor Lyra, na sua conceituada obra sobre Dom Pedro II, diz:

“[…] os documentos que se conhece não autorizam a formar sobre eles uma opinião segura. Que tenha havido, em todo caso, um forte trabalho de intriga, visando incompatibilizar o imperador com seu cunhado é ponto passivo. Inimigos ou desafetos de um e de outro tiveram em tudo isso uma grande participação”.

Aquela dose de veneno é a única atitude que poderia ter levado Dom Pedro II àquela reação . Os cunhados não se falavam mais, Dona Januária e a Imperatriz choravam, procurando conformar-se com o desentendimento. Dom Pedro não concedia a licença de partir ao casal, e Aquila já planejava em como fugir ou então fazer com que Dona Januária renunciasse ao título de “Princesa Imperial” junto à Câmara para assim se ver livre e poder viajar.

Os absurdos projetos também eram confirmados pelo ministro Merolla, em um dos seus relatórios ao chanceler das Duas Sicílias. Por seu lado, Dona Teresa Cristina não gostava de Paulo Barbosa, o qual se permitia certas inacreditáveis liberdades conforme escrevia o Conde Ney, ministro da França:

“A Imperatriz não gosta do Sr. Barbosa, e o sentimento de repugnância que sente é tal que, há poucos dias, estando uma noite a sós com o irmão e a Princesa Januária, no seu salão em São Cristóvão, sentiu-se gelar ao entrar ali, de repente, o Sr. Barbosa. No mesmo instante, todas as fisionomias se fecharam, e, quando o mordomo deixou o salão, a Imperatriz disse que a sua aparição era por certo sinal de uma desgraça.”

Parece que ele procurava o Imperador para solicitar sua assinatura para a demissão de D. Joaquina Adelaide de Verna Bilstein, sobrinha da Condessa de Belmonte, que educara a Princesa Dona Januária desde a infância. Mais um golpe para ferir os Aquila! No entanto, o capelão Ferri foi de grande valia naqueles conturbados momentos, que naturalmente perturbaram também a Imperatriz e a nova esposa, pois ele conseguia acalmar os ânimos e invocava orações.

Aquila, sempre agitado, escreve para Fernando II:

“Rio de Janeiro, 23 de julho de 1844.
[…] O Imperador encontra-se ainda em Santa Cruz, onde se diverte muitíssimo, mas sempre sem a coitada da Teresa, a qual fica confinada em suas acomodações no palácio (de São Cristóvão) […] Januária está bem, graças à Santíssima Virgem e ao Bom Jesus […] O Capelão se põe aos Vossos pés.”

Em 1º de julho mencionava: “O imperador é mais humano do que de costume, talvez por causa da quase segura gravidez de Teresa.”

No dia 2 de agosto, abre-se ainda mais com o Rei, pois o Imperador com toda razão ainda não lhe concedia a licença de deixar o país, sempre em cumprimento ao mencionado art. 11, do pacto nupcial:

“Caríssimo Ferdinando,
Estamos sempre na mesma: o Imperador é ainda aquele que sempre foi, malcriado, covarde e não deixa de seguir os falsos conselhos de Paulo Barbosa, que por sua vez não deixa de enganá-lo e sugá-lo para chegar a seu intento, isto é, jogá-lo cada vez mais na teia de intrigas. Vos envio uma carta autografada de Teresa à Januária, para que percebas bem a potência de Paulo Barbosa”.

Em 5 de agosto de 1844:
“O Imperador é sempre igual. Nada de novo para o momento, sempre a mesma apatia e malcriação […] Eu vos garanto que não vejo o momento para fugir daqui, talvez antes do parto de Teresa”.

No dia 24 de agosto do mesmo ano:
“[…] Nas outras cartas esqueci-me de vos dizer que, provisoriamente, nomeei o Capelão e meu Superintendente, Lutério, com a finalidade de que eles, e não eu, tenham que contatar com aqueles farsantes, e para evitar as suas indicações… sobretudo, por não ter o que fazer com Paulo Barbosa e outros da sua mesma ralé.”

Aquila muitas vezes escrevia cartas cifradas, das quais algumas, por sorte, eu consegui decifrar. Depois de ficarem hospedados no Paço da Cidade, Dom Luigi alugou um palacete em Botafogo para fugir do ar “putrefeito” – em sua opinião -, do centro da cidade e, sobretudo, para não ficar sob o controle do mordomo. Uma das queixas foi a de que o mordomo expediu somente um dia antes da realização do Gala do Paço, os convites para a comemoração do aniversário de casamento do Imperador, em 4 de setembro de 1844. Os Aquila não o receberam a tempo e não puderam comparecer.

O Imperador pensou que se tratava de uma afronta voluntária. A situação já tinha chegado a tal ponto que, vindo Dom Pedro visitar a irmã, não cumprimentou o cunhado e não lhe dirigiu sequer a palavra, saindo sem olhá-lo. O Rei, em Nápoles recebia não somente as cartas desesperadas do irmão, mas obtinha igualmente os relatórios do ministro Merolla. Fernando II devia estar preocupado com a situação no Rio e tentava acalmar os ânimos exaltados do jovem, conforme mostra um trecho da missiva do dia 21 de agosto: “[…] tenho esperança que tu conserves a mesma moderação que conservastes até agora, de maneira a poder merecer a afeição de todos.”

Em 29 de novembro de 1844, o Rei volta a escrever dando mais ênfase às suas palavras, enviando ao irmão diversos conselhos:

“[…] Com o maior pesar partilho as angústias do teu espírito e reconheço todos os seus motivos. Continua, porém, a ter paciência: aconselhe-se com o Senhor e a Nossa Senhora […] Relativamente sobre aquilo que tu me falas na tua resposta sobre a renúncia de Januária, te aconselho aflitivamente – e o peço como irmão que te ama muitíssimo -, a não dar nenhum passo ilegal, e nunca a renúncia […]. Um passo precipitadamente traria um dano enorme a ti e aos teus filhos. Assim que tiver notícia do parto de Teresa vou enviar imediatamente para o Brasil um navio a vela. Não o envio antes, pois seria uma ação inconveniente para mim, e especialmente para ti, pelos embaraços que tivestes […]. Te aconselho sempre a calma, a prudência e a te aconselhares sempre com o Senhor e a Maria Santíssima.”

Foram palavras quase de um padre confessor e de um irmão deveras preocupado.

O casal passava o tempo, não sabemos se com pequenas excursões ou visitas, certamente não em companhia do Imperador. A pressão familiar devia ser forte, e assim, Dom Pedro, para livrar-se do incômodo cunhado, assina, no dia 18 de outubro 1844, a licença para que deixasse o país por um ano, com a obrigação de que voltasse, se possível, antes. Esta permissão foi comunicada informal e antecipadamente à Câmara, que oficialmente, entretanto, só tomou conhecimento em 1º de janeiro de 1845, através da Fala do Trono, quando o Imperador alegou a saúde de Dona Januária como justificativa da viagem. Da mesma maneira, a anuência fora antecipada ao nascimento do herdeiro, Dom Afonso Pedro, o qual nasceria em 23 de fevereiro de 1845.

Dom Pedro deve ter ficado triste com a partida da irmã, mas profundamente aliviado com o afastamento do cunhado. Poderia ter tido um convívio amigável com Dom Luigi, se a intriga não tivesse surtido o efeito tão devastador. Dom Pedro propôs ceder um navio, possivelmente o “Constituição” para levá-los à Europa. Aquila, confiante por ter conseguido arrancar esta licença do Imperador recusou, dizendo que tomaria o navio francês Reine Blanche, que estava prestes a chegar. Esta resolução deixou os Imperadores, e sobretudo a Imperatriz Dona Tereza Cristina, muito angustiados. Para ela, seria mais uma separação da família e assim resolveu escrever ao irmão:

“Caro Mano,
Se a moléstia da Mana não é grave e pode curar-se com os remédios ordinários, porque me queres privar de tão doce companhia? A Mana, caro Luís, não é só tua, pertence também aos brasileiros, que a estimam como sua própria filha, amor este de que eles têm dado sobejas provas; mas se, apesar de tudo, queres por força, o que muito sinto, ir passear pela Europa, consente ao menos, a fim de evitar tristes interpretações indecorosas à tua alta posição e a de meu amado esposo, que te leve uma fragata nacional, e se ainda assim recusas minha amizade, que consinta que os acompanhe uma corveta brasileira com o criado e a criada de honra que tu quiseres escolher.
Tua Mana do coração”.

Depois desse apelo, Aquila aceitou o acompanhamento da corveta “Sete de Abril”. As despedidas foram protocolares e secas, e, ao que parece, Dona Januária chorou muito. Foi um adeus para sempre do Brasil. Durante a longa travessia, Aquila preparou uma minuciosa exposição ao seu Rei e irmão. Foram doze páginas às quais ele intitula “Raguaglio alla Reale Maestà Ferdinando 2º Re del Regno delle Due Sicilie – sulle ultime peripezie a Rio de Janeiro nell`ottobre del 1844”. Este interessante documento, depois de decifrado e traduzido, poderia ser publicado na Revista do Instituto a fim de ouvir-se igualmente a voz da pessoa mais interessada nesta espinhosa ocorrência.

Paulo Barbosa, depois desses acontecimentos, devia sentir a necessidade de uma mudança de ares, e assim solicitou demissão do cargo, pedindo ao Imperador que fosse nomeado ministro em São Petersburgo, o que lhe foi concedido com suma agilidade. A nomeação foi recebida no Rio com grande alívio, como conta Merolla, em 27 de junho 1846 ao chanceler:

“Excelência,
Amanhã, o demasiadamente célebre Mordomo Paulo Barbosa da Silva deixa o Rio de Janeiro num navio inglês, e todos, sem omitir os seus mais íntimos aliados, ficam aliviados com esta partida como sendo um peso que se lhes retira dos ombros. Este homem era um fardo para todos, mesmo aos seus mais íntimos amigos. Ele se colocava entre o imperador e as autoridades diretas e legítimas responsáveis pela administração, com a esperteza dos sumos sacerdotes da antiguidade, que faziam falar do ídolo . Caso tivesse se servido de sua posição pelo menos para reforçar a autoridade soberana, e para o bem dos interesses gerais… mas não, somente se voltava a seus escusos interesses pessoais, para fazer aumentar as trevas ao redor do jovem soberano, esbanjando com tranquilidade as rendas do mesmo. Ele revolvia as águas, tornando-as turvas para poder pescar em segurança […].”

O casal Aquila, proveniente do Brasil, desembarcou em Brest, onde o prefeito local os aguardava. Seguiram logo para Paris, onde foram hospedados no Eliseu. Dona Januária ficou encantada com tão familiar recepção. A Rainha Maria Amélia era tia do Conde d’Aquila e da Imperatriz Tereza Cristina. Finalmente, depois de alguns dias, seguiram para Nápoles. Um navio os levaria de Marselha à capital do Reino. Grandes festejos os esperavam na chegada, hospedando-se por um período no Palácio Real. O Rei lhes reservou o Palácio Campo Franco, no centro de Nápoles. Nos primeiros dias, receberam muitas visitas de parentes e amigos que desejavam conhecer a brasileira. Pouco tempo depois da chegada, no dia 18 de julho de 1845, nasce o primeiro filho de D. Januária e Dom Luigi. Receberia o nome do pai.
Naquele ano, São Gennaro, o mártir protetor da cidade, liquefez em agosto o seu sangue, o que nem sempre acontece. Grande foi a felicidade do povo pelo prognóstico tão favorável. Nos anos futuros teriam necessidade de muitas intervenções do santo pelos acontecimentos políticos que penalizariam a região. Dona Januária se acostumou bem à sua nova residência. Dali avistava um mar esplêndido, o clima era agradável, e além disso, ela mantinha um contato muito aprazível com todos os parentes. Saudades ela certamente sentia do longínquo Brasil, do bondoso mano, ao qual frequentemente escrevia, e da natureza exuberante da fazenda do Córrego Seco.

Dom Luigi fora designado ao comando da Armada e, por muitas vezes, foi preciso acompanhar o Rei em breves viagens e inspeções ao setor naval. Quase um ano depois do primeiro filho, em 22 de julho de 1846, nasce a pequena Maria Isabel. Dona Januária não devia frequentar muito a sociedade, mantendo uma vida bastante solitária, embora recebesse regularmente em audiência, e com prazer, o Visconde de Santo Amaro e a consorte D. Ana Constança Caldeira Brant, filha dos Marqueses de Barbacena. O Visconde era ministro do Brasil junto ao Reino das Duas Sicílias. O casal revelaria, no futuro, grande dedicação e amizade para com os Condes d´Aquila.

Muitas foram as visitas realizadas ao Paço de Capodimonte, onde encontra-se a imponente pinacoteca que os Bourbons herdaram dos Farnese. O lugar predileto do casal passou a ser o maravilhoso Paço Real de Caserta, que visitaram no verão, quando Fernando II lá residia. Este maravilhoso palácio, cuja obra foi iniciada em 1752, de acordo com o projeto do famoso arquiteto Luigi Vanvitelli, é considerado o Versailles italiano.

Em 12 de agosto de 1847, nasceu o Príncipe Philippe. Os Aquila viveram então um período sereno. Dona Januária se ocupava dos filhos, e pouco se sabe sobre ela naqueles anos. Aquila se dedicava não somente à Marinha, mas ao restauro de antigas igrejas, à obras de caridade e à pintura.

Para abalar-lhes a vida de paz aparece um agente, o tenente-coronel Barão de Mascarenhas, fazendo uma excitante oferta à Coroa de um futuro “Reino do alto Peru”. Na realidade, esperava-se que o cunhado de Dom Pedro II tivesse a possibilidade de obter a licença para que a British-Bolivian pudesse transitar livremente no Amazonas. Afinal, Aquila não queria um trono tão fantasioso e recusou com ironia a oferta.

Em 1857, Aquila adquiriu a Villa Rosebery, no golfo de Nápoles, perto de Possílipo, que ostentava uma das mais bonitas vistas da região. Hoje é uma das residências de verão do Presidente da República italiana. Na mesma Dom Luigi continuava a ampliar o parque com plantas raras e construiu um pequeno porto. Ele batizou a vila de “Brasiliana”, em homenagem à Dona Januária.

Os trabalhos de repristinação do parque duraram 3 anos, até que, em 1860, com a queda da Monarquia Borbônica, os piemonteses, iniquamente expropriaram a “Brasiliana”, sem que a família tivesse tido ocasião de usá-la.

O ano de 1859 foi muito triste para o casal, pois em 14 de fevereiro faleceu a simpática Maria Isabel, com 13 anos. Para Dona Januária foi uma profunda dor – era a minha consolação e companhia, lamentava-se ela.

Poucos meses depois, em 22 de maio faleceu o Rei Fernando II, então com 49 anos. Foi outra perda irreparável, e daquele momento em diante o Reino estava fadado ao fim, e também o prestígio do Conde d’Aquila.

jan05wAquila02

Conde d’Aquila, Vice-Almirante, Presidente do Conselho do Almirantado. Gravura anônima.

Antes de morrer, o Rei nomeu o Conde d´Aquila comandante em chefe da marinha, confiando erroneamente, na sua dedicação e capacidade. O Rei ainda deixou em testamento a cada um dos irmãos uma herança de 20.000 ducados e objetos de natureza familiar, que não chegaram a receber, pois a mão dos invasores foi mais rápida . Seguiu o filho mais velho com o nome de Francisco II. Tinha vinte três anos. A mãe era a Princesa Cristina de Savoia, a qual faleceu poucos dias depois do parto. Pela sua piedade e suas muitas obras de caridade foi elevada à honra dos altares.

O jovem rei precisou enfrentar logo uma situação das mais difíceis. Não tinha a experiência do pai, não conhecia a malícia dos políticos e estava rodeado por tios que se achavam com mais direitos à coroa do que ele próprio. Quatro meses antes da morte do pai Francisco II havia casado a Princesa Maria da Baviera, irmã da Imperatriz Elisabeta da Áustria.

A Itália, desde 1848, estava num grande rebuliço político. Já Napoleão I tinha sonhado com o reino da Itália. Fez-se coroar com a célebre coroa de ferro, nomeou seu filho adotivo Eugênio de Beauharnais Vice-Rei, e o filho de Maria Luísa declarou-o, romanticamente, Rei de Roma. Este desejo da unidade já almejado por Bonaparte deve ter ficado como uma semente no espírito popular.

Surgiram associações secretas como a Giovane Italia e outras de matriz massônica, que se batiam pela unidade da península italiana. O Conde de Cavour, primeiro-ministro do Reino piemontês, homem de grande intuição política e com total déficit de moralidade, viu a possibilidade de unir a Itália sob o cetro dos Saboia. Começou então a bajular Napoleão III, ajudando a França na guerra da Crimeia e enviando o exército piemontês para combater ao lado das tropas francesas. Criava-se assim um “bônus” político a seu favor. Em seguida, ofereceu à França duas propriedade tradicionais do Piemonte, a Saboia e o território de Nizza. A condição seria que, se aliando à França na guerra contra a Áustria, o Piemonte recebesse a Lombardia e o Veneto com suas respectivas capitais, Milão e Veneza. Tudo isso se confirmou, segundo o plano de Cavour. A Giovane Italia começou a florescer, e Cavour, querendo engrandecer sempre mais o Piemonte, precisava de um aventureiro para movimentar as massas, ficando ele e o Rei do Piemonte nos bastidores.

É nesse ínterim que aparece Garibaldi, que perambulava sem “trabalho” depois das aventuras americanas. Cavour e o Rei o ajudariam, sempre às escondidas, com armas e muito dinheiro. Garibaldi adquiriu então dois navios com o aval do Rei Vittorio Emanuele e de Cavour. Durante vários meses Garibaldi recolheu uma turma de mil aventureiros, encheu com eles os navios e estava pronto para o assalto à Sicília.

Tudo bem camuflado. Meses antes, o Reino das Duas Sicílias foi secretamente invadido por agentes de Cavour, que começaram a corromper, com fortes somas de dinheiro, uma parte da alta oficialidade do Exército e da Marinha locais. O maior corruptor foi o almirante piemontês Persano que, numa visita de “cortesia”, trouxera no seu navio uma ingente soma de cruzados – conta-se que mais de um milhão-, para serem distribuídos aos comandantes corrompidos, com a finalidade “patriótica” de combater pela unidade da Itália, rompendo o juramento prestado ao próprio rei.

Em carta Persano (documento nº 436, vol. 1º Carteggio Cavour, La liberazione del Mezzogiorno), escreve a Cavour :
“Possiamo ormai far conto sulla maggior parte dell´ufficialitá della regia marina napoletana. Mi scrivono che se si trata di venire sotto il mio comando son pronti quando che sia. Gli Stati Maggiori di questa marina si possono dire tutti nostri, pochissime essendo le eccezioni.”

Infelizmente, no Exército foi ainda pior. Podemos dizer, com toda segurança, que as chamadas glórias dos piemonteses e de Garibaldi não corresponderam à realidade. As traições foram inúmeras, escondendo-se os traidores atrás do discutível patriotismo da unificação da Itália. O terreno estava preparado com traições, tudo era feito em surdina, e assim aconteceu uma invasão mesquinha que infringiu todas as leis internacionais, éticas e a honra militar.

No dia 5 de maio de 1860, as duas naus de Garibaldi com os mil aventureiros levantaram as ancoras em Quarto, perto de Gênova em direção da Sicília. Já em 22 de março 1859, Dona Januária escrevia ao mano no Brasil alertando que, “aqui na Itália não estamos quietos […]. Eles já estão em Gênova recrutando a legião comandada por Garibaldi e Piveta para a guerra contra a Áustria.”

Para despistar, Garibaldi tinha propagado um suposto combate contra a Áustria, pensando que assim não levantaria suspeitas em Nápoles. No dia 25, Dona Januária comunicava a Dom Pedro que o Papa tinha excomungado Vittorio Emanuele. Uma princesa da Casa Savoia declarada Santa e o rei da mesma estirpe excomungado!

Dona Januária estava em Possílipo com a família. Devemos dizer que tanto a França como a Inglaterra estavam interessadas na queda da Monarquia Borbônica por razões econômicas e comerciais. Ambos os países estavam interessadíssimos em explorar as ricas jazidas de enxofre da Sicília, as quais o Rei Ferdinando II sempre tinha protegido como grandes riquezas do seu país.

Em 11 de maio, Garibaldi desembarca em Marsala. Duas naus borbônicas que lá se encontravam não reagiram, com a desculpa de que duas naus inglesas estariam no porto. Assim começou a primeira traição! Nós, praticamente, podemos seguir o desenrolar da tomada do Reino pelas comunicações de Dona Januária ao Imperador; são, todavia, muitos detalhes.

Nosso intuito hoje é seguir somente à margem estes acontecimentos na medida em que eles mudaram a vida da nossa primeira Princesa Imperial. Assim, sempre de Possílipo, ela comunica: “Aqui em Napoli estamos calmos, mas em Palermo houve uma grande revolução […] que foi reprimida. A Sicília toda está em fogo. Diz-se que a Áustria e a Espanha estão protestando contra a invasão. A França, cinicamente, dizia que não era a favor dessa expedição, mas tinha nela envolvidos 7 vapores e 20 peças de artilharia. Garibaldi e os seus homens foram batidos pelas tropas de Nápoles perto de Marsala, e ele estaria em fuga nas montanhas.”

Seguimos de semana em semana o avanço das tropas invasoras, e a esta altura já havia destacamentos piemonteses misturados com a turma de Garibaldi. Em Nápoles devia reinar o caos. Alexandre Dumas, que se uniu a Garibaldi, nos fala da situação e de quem tinha realmente o mando nas mãos:

“A ‘Camorra’ é o único poder real ao qual Nápoles obedece. Ferdinando II, Francisco II, Garibaldi, Farini, Nigra, La Marmora, todos eles são o poder visível: o verdadeiro poder é aquele escondido, o da ‘Camorra’! Esta é uma organização criminosa fantástica, muito ampla e centralizada, vingativa e com o seu tribunal invisível.”

A situação estava cada vez mais tensa. Dona Januária pediu a Dom Pedro que enviasse a corveta “Isabela”, que estava em Marsília, para proteger a ela e aos filhos. Em 3 de junho, de Possílipo, noticiava: “A fortaleza de Castelnuovo, que é perto de Palermo, foi entregue ao almirante inglês para ser deixada a Garibaldi. Fala-se abertamente que os generais traíram o rei”.

Em 24 de junho, a Princesa envia a última carta do Reino de Nápoles: “O navio “Veloce” se entregou a Garibaldi por traição do comandante, mas boa parte da tripulação, pilotos e maquinistas se recusaram a trair a pátria, e, assim, Garibaldi os substituiu pelos marinheiros de um vapor Sardo”.

De Torino, Cavour incansavelmente insistia junto aos seus agentes secretos para que, chantageando-os com dinheiro, conseguissem mais deserções entre os oficiais do Exército e da Marinha borbônica, alcançando um número maior de combatentes, vislumbrando a Itália unida e uma boa promoção na nova Marinha a ser constituída.

Não sabemos exatamente o dia em que Dona Januária embarcou na corveta. Este foi fixado por ordem de Francisco II, pois em virtude das maquinações secretas do Conde d´Aquila lhe ordenaram o exílio.

Michele Topa nos conta que estava claro que o Conde d´Aquila, numa exasperada tentativa, quis depor o Rei e criar uma Regência por ele presidida. Foi traído, e o fato comunicado a Francisco II, que sem poder acreditar, deu uma gargalhada dizendo: “O Conde d’Aquila que aspire ao trono do Brasil”. De qualquer maneira, na dúvida, Franciso II condenou-o ao exílio.

Não se sabe exatamente o que aconteceu naquele período. Foram apreendidas pela alfândega borbônica caixas de armas e uniformes da Guarda Nacional destinadas a Dom Luigi, o tio conspirador. Aquila mantinha contatos secretos com ministros de Napoleão III, e completamente confuso e desesperado, de conservador se transformou, repentinamente, em fervoroso liberal. Ele também havia indicado como primeiro-ministro Romano Libório, que depois o traiu. Devia reinar uma situação de pânico total.
Francisco II, entretanto, estava aliviado em ter-se livrado do tio. Tio este que havia fracassado duplamente, como comandante da frota e como governador da Sicília, este último, cargo recebido ainda do irmão Ferdinando II.

Quanto mais o tempo passava, mais evidente ficava a invasão do Reino das Duas Sicílias como um dos mais tristes acontecimentos do século XIX, cheio de vergonhosas traições, em detrimento da população local, a qual passaria por fome, numa séria e longa crise.

Dona Januária estava a salvo, e a bordo da Corveta “Isabel” escreve a Dom Pedro II, que, sem dúvida, devia andar preocupado com as notícias que chegavam do velho continente. A versão da princesa difere, naturalmente, de outras versões sobre os acontecimentos, mas devemos ouvir todas as vozes:

“Tu hás de saber que o Luiz muito se ocupou para que vigorasse aqui a Constituição e as reformas para salvar o rei e a família desta horrível torrente que é anexação ao Piemonte, porque ele tem amor à pátria. No dia 12, Luiz, percebendo que o país ia numa perfeita anarquia, foi ao Conselho e falou duramente ao rei […]. No dia seguinte, às 6 horas da tarde. veio-lhe a ordem de exílio para Londres”.

Na corveta brasileira “Isabel”, comandada pelo capitão Bento José de Carvalho, viajaram também o Conde e a Condessa de Santo Amaro, que da maneira mais encantadora assistiriam Dona Januária e os filhos quando estes o precisaram.

Mas deixemos de lado as notícias sobre o decurso da invasão dos piemonteses no reino borbônico, as quais exigiriam diversos capítulos para serem contadas. Por uma questão de justiça, mencionamos todavia que o Rei Francisco II e a Rainha se retiraram na Fortaleza de Gaeta, onde resistiram heroicamente a vários meses de bombardeios incessantes, vindos do mar ou da terra. Foi uma resistência heroica! Conseguiram, outro sim, afundar diversos navios de guerra franceses enviados pelo “amigo” Napoleão, do qual, a esta altura, já tinham tirado a máscara. O povo napolitano se sentiu saqueado e tratado como numa colônia, por esse motivo emigrando em massa, para o Brasil, Argentina e Estados Unidos. Até hoje se percebe na Itália como o sul foi abandonado em detrimento do norte da península. A frota borbônica foi incorporada àquela piemontesa, a caixa do Estado foi saqueada, os palácios borbônicos depredados e todos os bens particulares dos membros da Casa Real foram confiscados. A despeito de seguirem para Londres, os condes d’Aquila desembarcaram em Marsilia e optaram por permanecer em Paris, onde se instalaram à Avenue de l`Imperatrce, 5 . Napoleão III não criou alguma dificuldade e falsamente os declarou bem-vindos.

jan04w-Januaria

D. Januária. Foto feita presumivelmente em Paris. Disderi & Cie. Phot.

Dona Januária preferiu a capital francesa pelo clima, pois se queixava de muitas dores reumáticas. O Conde d’Aquila teve que se defender, pois os piemonteses o acusaram de traidor do sobrinho e de ter combinado várias traições com a maçonaria, aconselhando seus oficiais de se renderem. Foi uma campanha denigridora do Piemonte contra todos os membros da casa real das Duas Sicílias.

A realidade, todavia, ainda não fora esclarecida completamente, mas com o passar dos anos a verdade aparece com toda a sua clareza. Dona Januária padecia muito com todas essas acusações, ela devia já conhecer bem o marido que certamente não nascera para oficial de Marinha. Embora tenha sido educado militarmente, tinha uma outra vocação. Ele não podia ter nem uma pálida ideia das dificuldades enfrentadas por um cidadão comum na vida normal de todo dia. De repente, finda-se sua fase dourada e tem início a dura existência como exilado, que para continuar mantendo o mesmo padrão de vida ao qual estava acostumado iria dilapidar rapidamente aquilo pouco que conseguira salvar.

Dona Januária acompanhou pelos jornais as notícias vindas do Brasil. Me faz pena ler nos jornais que o Brasil tenha reconhecido o rei da Itália, lamuriava-se. Não sabemos a reação do Imperador a respeito desta posição política, mas entre outros assuntos, ele deve ter feito para a Europa algumas ressalvas quanto ao precário português das cartas da irmã. Esta reagiu imediatamente:

“[…] Tu me dizes que me esqueço de escrever na nossa língua. Isto não é difícil porque pouco falo o português e também tu me dizes que os meus livros ficaram todos em Nápoles. Faço tudo quanto está em meu poder para não me esquecer que sou e sempre serei brasileira . A língua de minha pátria eu não quero esquecer, nem a esquecerei.”

Vamos ver o Visconde de Itaúna, Cândido Borges Monteiro, ex-Presidente da Província de São Paulo, ex-Ministro de Estado em Paris. Ele foi o renomado médico que assistiu a Princesa Dona Leopoldina, Duquesa de Saxe, em todos os partos. Dom Pedro II o fez acompanhar a filha à Europa . Depois de uma estadia de 3 anos em Viena o Duque de Saxe lhe proporcionou uma viagem através da Alemanha, recomendando de não deixar de conhecer a “cidade Luz”.

Da capital francesa, Itaúna se dirige ao monarca com uma longa missiva:

“No dia imediato ao de minha chegada, apesar da chuva, procurei imediatamente o palácio de S. A., o Sr. Príncipe Conde d’Aquila, que fica localizado na Avenue de L’Imperatrice. Ali chegando, entreguei o meu cartão ao guarda do portão (era um homem todo arrumado, da cabeça até aos pés, trajando calças e meia de seda branca), esperei um momento e recebi logo a ordem para entrar. Fui conduzido a uma pequena sala, e desta, a outra um pouco maior, e finalmente a um salão cuja riqueza e magnificência não conseguirei descrever. A princesa Dona Januária não me fez esperar nem um minuto. Oh! Não me recordo de ter tido em minha vida emoção mais profunda e arrebatadora! Eu me via diante, depois de tantos anos, da princesa brasileira que ainda tão moça vi tantas vezes em minha pátria. E esta princesa era a irmã do imperador, e em seu coração havia necessariamente de imperar a mesma saudade que trucidava o meu, e… Não foi preciso senão um instante para que S. A. demonstrasse evidentemente que eu tinha razão. S. A., ao entrar no salão, dirigiu-se a mim com visível agitação. Beijei-lhe a mão, e ela me disse imediatamente, venha para cá, assente-se aqui perto de mim, porque sei que o senhor é amigo de nossa família e que ela lhe estima. Diga-me como está o mano Pedro, o retrato dele depois que veio do sul me diz que está magro, e que tem envelhecido. Coitado!… E estas palavras, Meu Senhor, foram quase imperceptíveis, porque o pranto cobriu os lábios de S.A. E o pranto lançou igualmente um denso véu diante de meus olhos. Não pude responder à S. A. Imediatamente, e quando novamente senhor de mim, respondi como pude a todas as Suas perguntas, notando que S. A. teve a bondade, de dizer-me que ia chamar S. A., o Conde d’Aquila , e com efeito, um instante depois, tive a honra de dirigir-lhe a palavra. O Sr. Conde d’Aquila conversou muito tempo, e confesso que gostei de ouvi-lo, apreciando seus raciocínios a cerca do panorama político da Europa e das consequências prováveis desta situação. A propósito, traçou ele um paralelo entre alguns soberanos da Europa, e voltando-se logo para o governo do Brasil, disse-me: ‘O imperador é o verdadeiro Soberano Constitucional que eu conheço, e ainda ultimamente indo ao sul, provou mais uma vez que está marchando com seu país e que é o primeiro defensor da independência e da dignidade da nação. Por esta ocasião, disse eu à S.A.: ‘Mas, meu Senhor, S. M. o Imperador às vezes arrisca-se demais, porque sacrifica sua saúde e mesmo a vida’. A conversação ainda demorou.”

Itaúna despediu-se emocionado. O Conde o acompanhou ainda até a última sala. Nota-se que Itaúna não mencionou os filhos do casal. Estes deram muitas preocupações, não somente aos pais como também aos Imperadores.

O mais velho, Dom Luís, foi enviado aos Estados Unidos, não sabemos com que finalidade, e, no fim, acabou casando-se em Nova York com Maria Bellow-Hamel, dando um grande desgosto à família pelo fato de ter sido excluído, por causa de ser excluído com a sua descendência, da casa de Bourbon, recebendo mais tarde o título para si, a esposa e os herdeiros de Conde de Rocca Guglielma. Deixou uma numerosa descendência. O segundo filho, Dom Philippe foi enviado ao Brasil e entrou na Escola do Exército. Criou numerosos problemas ao imperador e voltou para Europa.

Curioso é o comentário da Princesa Dona Isabel sobre este primo, em uma carta enviada à irmã, Dona Leopoldina. Dom Philippe parece que estava procurando uma noiva de alta linhagem e constava que na sua lista de casadouras estava a Princesa Amélie, irmã do Duque de Saxe. Este é o juízo impiedoso da redentora:

“São Cristovão, 4 de fevereiro de 1870,
[…] Philippe foi a Petrópolis. Ele não está aclimatado, sofre com o calor do Rio onde se padece de febre amarela. Creio que ele voltará para a Europa em março e é provável que procure casar-se bem, que se diga. ‘Une femme à que quoi (sic) cela serf?’ Vou-lhe dizer uma coisa, e é pelo interesse que trago por Amélie, de quem gosto tanto, você o sabe bem. Deus lhe livre de propor-lhe Philippe por marido. Se o tivessem melhor preparado poderia ter sido bom rapaz, mas o seu caráter está degenerado. Seu maior defeito, aos meus olhos, é não ser religioso – ele mesmo diz que não acredita em nada, que Paris o deixou assim. Deveria antes dizer àqueles com quem convive, e é indiferente a quase tudo, exceto às caçadas e cavalos. É muitíssimo ‘blagueur”, digo-lhe isso, minha queridinha, porque se ele aparecer por lá com pretensões você saiba o que não se pode saber em dias. Para nós, ele tem sido muito bonzinho e tenho muita pena que ele seja assim. Nada lhe fala em favor […].”

No mês seguinte, ela reforça a dose:
“Philippe deve voltar de Petrópolis no dia 10 e assentar praça e, no dia 15, parte para o sul como cadete. Ainda hei de ver para crer, pois ele é muito indeciso. Deus queira que ele possa servir a ser alguma coisa.”

Philippe casou em Londres, em 1882, com Flora Boonen, mas não deixaria descendentes.

Poucos anos após receberem a visita de Itaúna em Paris, os Condes d’Aquila transferiram-se para Londres, onde, em 1872, acontece finalmente o encontro, certamente comovedor, entre Dom Pedro II, Dona Teresa Cristina e Dona Francisca, depois de 30 anos.

Infelizmente, em Londres, alguns anos mais tarde, parece que esgotaram-se os recursos familiares e os Condes tiveram sério revés, passando a viver em estado de grande penúria. Desgraçadamente Dom Luigi ficou, penso pela sua inexperiência e leviandade, envolvido num problema de dívidas e sequestro de bens, que foi infelizmente largamente divulgado e que repercutiu também negativamente no Brasil. Pobre Dona Januária, não merecia uma tal angústia. O conde morreu em Paris, em 1897.

jan06wAquila03

Conde d’Aquila, desenho de Riera, segundo foto dos irmãos Alessandri, Roma, publicado em L’Illustrazione Italiana, de 18 de fevereiro de 1883.

 

Com a morte do marido, Dona Januária se transferiu para o sul da França, passando a residir com o filho Philippe. Ela sobreviveu à queda do Império e aos irmãos, levando ao final uma vida pobre, mas digna, falecendo em Nizza, em março de 1901.

No Brasil, Dona Januária é lembrada por três cidades que trazem o seu nome mas é esquecida pela maior parte dos nossos compatriotas. A bondosa primeira Princesa Imperial do Brasil está sepultada numa modestíssima tumba no cemitério Père Lachaise, em Paris, onde o musgo encobre até a inscrição da lápide. Nota-se um triste e total abandono.

jan07wTumulo

Paris, Cemitério Père Lachaise nº 64P1897

Encontrando depois de longa sindicância seu jazigo, me lembrei com emoção das palavras que ela escreveu ao mano :

“Sou e sempre serei brasileira”

 

BIBLIOGRAFIA

Arquivos Consultados

Arquivo Borbónico de Napoles
Arquivo Histórico do Museu Imperial de Petrópolis
Obras Consultadas

ACTON, Harold – Gli Ultimi Borboni di Napoli – Ed. Martello, Milano 1960
BRAGANÇA, Dom Carlos Tasso de Saxe-Coburgo e -As confidências do Visconde de Itaúna a Dom Pedro II – Rev. IHGB vol. 424, Vol. 429, Vol. 430
BRAGANÇA, Dom Carlos Tasso de Saxe-Coburgo e – A Intriga – Retrospecto de intricados acontecimentos históricos, e suas consequências no Brasil Imperial – Ed. Senac, São Paulo,2012
BUTTÀ, Giuseppe – Un viaggio da Boccadifalco a Gaeta – Memoria della Rivoluzione 1860 – 1861 Ed. Trabant, Brindisi 2009
CALLÀ-ULLOA, Pietro – Il Regno di Ferdinando II – Ed. Scientifiche Italiane, Napoli 1967
COLACINO, Carmine etc. –La Storia Proibita – Quando i Piemontesi invasero il Sud – Ed. Controcorrente, Napoli 2001
CALMON, Pedro -História de Dom Pedro II, 5 vol. –Livraria José Olympio Ed., Rio 1975
DUSSIEUX, L. – Généalogie de la Maison de Bourbon – Ed. J. Lecoffre , Paris 1872
FALAS do TRONO– 1823 – 1889 , Imp. Nacional, Rio 1889
FORTE, Nicola – Viaggio nella memoria persa del Regno delle Due Sicilie – Ed. Imaeganaria, Ischia (Napoli) 2007
FRANÇA, Mario Ferreira – O casamento da Princesa Imperial D. Januária …., Vol. 2, 1984, – Rev. IHGB – Anais Congresso de História do 2º Reinado, Vol. 2, 1984 Pag. 35- 80
GUARDIONE, Francesco -Il Dominio dei Borboni in Sicilia dal 1830 al 1861, 2 Vol. Torino 1907
JAEGER, Pier Giusto -Francesco II di Borbone – L`Ultimo Re di Napoli – Ed. A. Mondadori, Milano 1982
KARENBROUCK, Patrick -La Maison de Bourbon, 2ª Ed. , Villeneuve d`Ascq 200 O
LACOMBE, Américo Jacobina – O Mordomo do Imperador – Bibl. Do Exercito Ed.,Rio 1994
LEONI, Franceso -Il Governo Borbonico in Esilio (1861-1866), Guida Ed., Napoli 1977
LYRA, Heitor – História de Dom Pedro II, 2 Vol. Camara Brasileira do Livro, 1977
MARIZ, Vasco – O Império Brasileiro e o Reino de Napoles e das Duas Sicílias. IHGB Vol. 438
MAZZOLENI, Jole -Archivio Borbone, Vol. I, Inventario Sommario, Ministero dell`Interno 1961
MAZZOLENI, Jole – L`Archivio Riservato di Ferdinando II di Borbone.- Atti dell`Academia Pantoniana. Nuova Serie, Vol. VII, Napoli
RADOGNA L . – Storia della Marina Militare delle Due Sicilie (1734-1860) Milano 1978
RUSINS, Alfredo Teodoro — Casamento de Dom Pedro II – Anuário do M: II. Nº 5, 1944
RUSSO, Filippo – Ferdinando II di Borbone , Il Grande Re- Fede e Cultura, Verona 2007
SALADINO, Antonio -L`Estrema Difesa del Regno delle Due Sicilie -Aprile-Settembre 1960-
SPAGNOLETTI, Angeloantonio, Storia del Regno delle Due Sicilie-Soc. Ed. Il Mulino, Bologna, 1997.
VIANNA, Hélio – Estudos de Hist. Imperial. Brasiliana Vol. 269 , Ed. Nac., São Paulo 1950
ZAZO, Alfredo . L´Esilio del Conte d´Aquila –  Sammium, Pubblicazione, Benevento, XIV, 1936, Pag. 222- 237