A MORTE DO SÍTIO

Francisco de Vasconcellos, Associado Emérito –

De Petrópolis a Barbacena, somos todos tributários do Caminho Novo, elos dessa mesma corrente que há mais de duzentos anos nos une de maneira total e irreversível.

Lamentavelmente, entretanto, essa linha mestra que nos aglutina a todos, não tem merecido, da parte dos pesquisadores e estudiosos, a atenção que merece. É pequena ainda a bibliografia referente a tão instigante tema.

Não querem, os que pensam insuladamente, extrapolar os limites de seu quintal e consideram mesmo, desperdício de tempo e de espaço em jornais e livros, qualquer tipo de elaboração de caráter mais abrangente, abarcante, ecumênico.

A cultura não é municipal, mas universal com cheiros, sabores, contornos, regionais.

Faz parte – propus num dos números da revista do I.H.P. – o estudo integrado, sistemático e metódico das histórias de Petrópolis e de Juiz de Fora, tendo reiterado a proposta quando do Colóquio comemorativo do sesquicentenário da colonização germânica nestas serras, em junho/julho de 1995.

Agora, um tema novo se nos apresenta, tema nacional, que tem origem em Santa Catarina, passa pelo Rio de Janeiro, para eclipsar-se nos arredores de Barbacena, o que poderia ter ocorrido em Corrêas, também reduto de tuberculosos, quando clima, cama e comida eram a base do tratamento.

Mas Corrêas não tinha ainda um sanatório na verdadeira expressão do termo, quando se deram os fatos a serem aqui esmiuçados. O isolamento perfeito estava, então, numa das dobras da Mantiqueira, a cerca de 10kms de Barbacena, na direção da história Borda do Campo.

E foi para lá que viajou em desespero de causa o poeta e escritor catarinense João da Cruz e Souza, das maiores expressões do simbolismo brasileiro, morto no Sítio, à época município de Barbacena, aos 19 de março de 1898. Tinha apenas 36 anos, já que completaria 37 anos aos 24 de novembro daquele ano.

Seus biógrafos, ao tratarem do local de seu passamento, apenas mencionavam Sítio, sem entrar em maiores detalhes.

Fustigado pelo vírus investigatório, vali-me do Dicionário Histórico – Geográfico de Minas Gerais de Mestre Waldemar de Almeida Barbosa e alí encontrei no verbete correspondente ao local em epígrafe:

SÍTIO – Ver Antonio Carlos

E foi o que fiz.

ANTONIO CARLOS – “O povoado e estação do Sítio fazia parte do distrito de Bias Fortes, município de Barbacena. A capela do Sítio era primitivamente filial da igreja de Barbacena, tendo sido promovida a curato por provisão de 10 de outubro de 1910. Em 1938 o distrito de Bias Fortes passou a denominar-se Sítio, em virtude do decreto-lei nº 148 de 17 de dezembro de 1938. Foi a freguesia criada por provisão de 30 de abril de 1941. Sítio foi elevado à categoria da cidade, com a denominação de Antonio Carlos pela lei nº 336 de 27 de dezembro de 1948, que criou o município do mesmo nome desmembrado do de Barbacena”.

Portanto, fica esclarecido que o velho arraial do Sítio, marco zero da Estrada de Ferro Oeste de Minas, passagem da linha da Central do Brasil no rumo de Belo Horizonte, é a sede do atual município no campo das vertentes das Minas Gerais, chamado Antonio Carlos, insigne Presidente do Estado, contendor de Júlio Prestes na sucessão de Washington Luis à Presidência da República.

O Sítio de cem anos atrás não tinha mais que a estação, que meia dúzia de casas e que um sanatório para recolhimento e tratamento de tuberculose, mais tarde desativado, quando se criou o Sanatório da Mantiqueira em Barbacena.

Situado a mais de mil metros de altitude, o arraial de 1898, na sua paz e tranqüilidade, fornecia todos os requisitos para minorar o sofrimento daqueles infelizes atacados pelo chamado mal do século, que tantas vidas ceifara, entre anônimos e consagrados poetas, de Castro Alves a Álvares de Azevedo, de Gonçalves Dias a Cruz e Souza.

Hoje, sede municipal, o velho Sítio, batizado de Antonio Carlos, tem já considerável casario, comércio regular, uma fábrica de queijo, escolas, clubes. O prédio do antigo sanatório transformou-se na Prefeitura, onde se acha inclusive uma biblioteca pública.

Visitei Antonio Carlos, uma semana depois do transcurso do centenário da morte de Cruz e Souza, ocorrido a 19 de março do corrente. Impressionou-me o interesse despertado pelo evento na comunidade local. Na estação, uma faixa saudava o poeta negro catarinense, que apesar de vinculado ao mar e ao marinhismo, foi exalar seu último suspiro em plena Mantiqueira, entre dispneias e hemopitises.

Na Prefeitura, especialmente na pequena biblioteca, reunia-se já algum material alusivo à vida e à obra do simbolista, avolumando-se a correspondência vinda de várias partes do Brasil, indagando sobre o local onde Cruz e Souza fechar os olhos para este mundo.

Tanta inquietação, tanta azafama naquele pequeno burgo, em torno de um poeta, alentaram o meu espírito já intoxicado pelo materialismo selvagem e destruidor que nos avassala a todos neste triste fim de século XX.

Talvez nas comunas mais afastadas, teime ainda em resistir a chama da pátria e os nossos verdadeiros e autênticos valores culturais.

Comparado a Mallarmé por Roger Bastide, João da Cruz e Souza, nasceu no Desterro, atual Florianópolis, S.C., aos 24 de novembro de 1861. Filho de escravos, foi adotado por uma família que o educou. Seu primeiro livro “Tropos e Fantasias”, foi editado em 1885 e foi inscrito em colaboração com Virgílio Várzea, também natural do Desterro, nascido em 1862, marinhista como Cruz e Souza, gênero tão pouco explorado entre nós, apesar dos nossos muitos milhares de kilômetros de costa. Os rios estão mais presentes em nossa cultura que o mar, aspecto que não escapou à fina sensibilidade de Mestre Câmara Cascudo.

Em 1890, Cruz e Souza transferiu-se para o Rio, onde fez parte do corpo redacional do Jornal Popular de Emiliano Perneta.

São de 1893 seus dois livros fundamentais: Missal e Broqueis.

Postumamente, ganharam as livrarias, Faróis, em 1900 e Últimos Sonetos em 1905.

Homem sofrido, discriminado em razão de sua origem, viveu Cruz e Souza à margem da grande vitrine beletrista brasileira. Foi tão vítima da sociedade cruel e presunçosa deste Brasil mestiço, quanto Lima Barreto.

Vivendo de modestos empregos, Cruz e Souza, já minado pela tuberculose buscou refúgio no Sítio e lá deixou de existir no dia de São José, 19 de março de 1898. Livre da pobre carcaça, seu espírito se eternizou na obra que com sensibilidade, talento e sacrifício plasmou para enlevo e libação das gerações e gerações de brasileiros que para sempre velarão por sua memória.