BASTIDORES DO PRIMEIRO REINADO

Paulo Roberto Damico, Associado Titular, cadeira nº 35 –

Falar sobre o bicentenário de nascimento da princesa Carolina Josefa Leopoldina, 1797/1997, que nasceu num domingo, a 22 de janeiro de 1797, no Palácio de Schonbrunn nos arredores de Viena, é revelar historicamente a importância de uma das principais figuras que muito contribuiu para o processo de independência do Brasil.

No palco das grandes manifestações que antecederam ao Grito do Ipiranga, ela nos deixou exemplos de patriotismo, lealdade, perseverança, sofrimento e amor.

Sua bibliografia não é farta, mas com muita acuidade e paciência de historiador foi possível colher algumas informações importantes a respeito de sua vida como esposa, como mãe e como Princesa Real de Portugal, do Brasil e dos Algarves, primeira Imperatriz do Brasil.

D. Pedro contava apenas vinte e dois anos quando D. João VI voltou para Portugal deixando-o como regente do reino do Brasil.

Nascera no palácio de Queluz, a 12 de outubro de 1798, viera para o Brasil com apenas nove anos e aqui vivera desde então. Era enérgico e decidido, bastante inteligente e possuia imaginação viva, mas sua instrução fôra limitada e superficial. A pouca educação que recebera, aliada ao seu temperamento arrebatado e espírito altivo e independente, acentuou os seus defeitos. Em vez de prepará-lo para o papel que assumiria mais tarde, seus preceptores tinham apenas alimentado seus caprichos. Apesar disso, o príncipe era franco e dedicado aos amigos. Seus hábitos e costumes eram simples e sua maneira de viver bem pouco ostentosa.

Até a ocasião em que D. João se tornou rei de Portugal, D. Pedro não tinha qualquer educação política. Reconhecendo essa deficiência, procurou instruir-se: estudou bastante, iniciou-se na música. Segundo consta, possuía o Principe excelente voz, tendo cantado uma ária com as irmãs, que também se exibiram com esse dote na festa comemorativa do casamento de D. Leopoldina. Dispunha de rara habilidade para tocar quase todos os instrumentos, sendo exímio no fagote, no violino e na flauta. D. Pedro tinha, sem dúvida, natureza de artista que não se aprimorou. Várias aptidões desleixadas no Brasil não puderam nunca produzir frutos aceitáveis. Um aforismo de Rousseau diz que a cultura e a forma do gôsto dependem da sociedade em que se vive. No ar que enfezou o virtuose imperial esterilizava-se o talento dos Taunays…

Em 1818 casou-se com a arquiduquesa da Áustria, D. Maria Leopoldina, terceira filha de Francisco II, imperador do Sacro Império Romano Germânico e primeiro imperador da Áustria, e da imperatriz Maria Tereza, das Duas Sicílias, que chega ao Brasil com 20 anos, já casada por procuração com o Príncipe de Portugal do Brasil e dos Algarves D.Pedro de Bragança.

D.Pedro abandona os estudos e o matrimônio surgiu, de repente em sua vida, como um acontecimento surpreendente e inesperado. Para os seus dezoito anos, vividos à solta em estroinices e desordens pelos bairros turbulentos da cidade, o casamento era, de fato, qualquer coisa de extraordinário. Depois da surpresa, deve ter vindo a curiosidade. Uma arquiduquesa da Áustria, irmã da imperatriz dos franceses, cunhada de Napoleão Bonaparte, sua esposa! Enquanto virava e revirava o retrato que lhe mandaram de D. Maria Leopoldina, a imaginação trabalhava e a ansiedade crescia.

Finalmente, pelas cinco horas da tarde do dia 5 de novembro de 1816, apontou na entrada da barra a esquadra que trazia a noiva de sua alteza sereníssima.

A galeota que recebeu a família real, acompanhada por grande número de escolares repletos com as pessoas da primeira nobreza, rumou logo para a nau “D. João VI”, a fim de recolher a princesa. D. João VI, D. Carlota, as filhas e o Príncipe D. Pedro se aproximam da embarcação. O rei apresenta Leopoldina ao filho, que lhe entrega o presente de noivado, uma caixa de ouro cheia de ricos brilhantes lapidados: “São frutos desta terra. Vossa Alteza vem para o país das pedras preciosas”… disse o Rei a nora.

Apoiada fortemente ao braço do marquês de Catelo-Melhor, D. Leopoldina desceu, comovida, a galeota. Acompanhando os menores gestos da princesa, enquanto era ela carinhosamente abraçada por suas majestades, D. Pedro, os olhos bem abertos, sentiu a maior decepção da sua vida.

Doze anos depois, quando se procurava uma segunda esposa para ele, o imperador da Áustria diria: “meu genro precisa é de uma noiva linda e espirituosa”. E D. Leopoldina, infelizmente, não era uma coisa nem outra. Versada, embora, em ciências naturais ignorava completamente a arte feminina de agradar aos homens. Desconhecia a utilidade dos cosméticos e a magia dos mil recursos que a mulher inventou para a defesa dos seus encantos. Além de feia, mal ajambrada. Os seios fartos balançavam por baixo das roupas folgadas que escondiam os contornos indisciplinados de um corpo robusto e sem colete. Olhos azuis, estatura média, as bochechas rubras e sadias, o andar pesado e deselegante, parecua antes uma camponesa rubicunda e roliça.

D. Pedro, muito nobremente, disfarçou como pôde a verdadeira impressão acolhendo-a com as maiores demonstrações de simpatia. Ela, pelo contrário, ficou realmente encantada com ele. Achou-o alto, elegante, marcial. Sobre o peito forte faiscavam as condecorações, os crachás mais vistosos. A farda de general com a alta gola bordada a roçar-lhe nas suiças ruivas, ia-lhe admiravelmente bem. Ela, que tanto apreciara o retrato do príncipe, apaixonou-se loucamente pelo original. E esse amor jamais diminuiria de intensidade. Suas últimas palavras e pensamentos seriam para ele, senhor absoluto do seu coração.

“Acabo de receber o retrato de meu mui amado D. Pedro; não é extraordinariamente belo, mas possui olhos magníficos e um nariz bonito, os seus lábios, contudo, são mais grossos que os meus, os brilhantes em redor do retrato são todos do tamanho do solitário no botão de chapéu de Toscana do papai…” (Leopoldina a Maria Luiza, 09 de abril de 1817)

A cidade engalanou-se faustosamente para receber a sereníssima princesa real. Ergueram-se arcos de triunfo, colunas enormes com capitéis dourados sustentando dísticos alusivos à feliz união das duas casas reais. As janelas das casas enfeitaram-se com sedas e estofos de diferentes cores e foram ocupadas por “senhoras ornadas com todo o asseio e riqueza quase todas preparadas para espalharem sobre o real coche que conduzia Suas Majestades e Altezas, mimosas e fragrantes flores”, disse o cronista

Durante três dias a cidade conservou o seu aspecto festivo. Depois, tudo voltou a ser como dantes. A cidade recuperou a sua fisionomia habitual de imensa aldeia, pacata e pouco asseada.

D. Leopoldina estava transbordante de felicidade. A América, aliás, sempre exercera sobre ela uma atração extraordinária. Naturalista apaixonada, colecionadora de lepidópteros e estudiosa de mineralogia, o Novo Mundo representava para ela, afinal da contas, um laboratório riquíssimo e um notável campo de experimentação. A distância imensa que a separava do Brasil e as prováveis tribulações de uma tão longa viagem não a assustaram. E isso contou ela em carta a sua tia, D. Maria Amélia, esposa de Luiz Felipe, antes de embarcar: “A viagem não me intimida. Creio ser predestinação pois sempre tive um pendor singular pela América, e, ainda criança, dizia constantemente que desejava visitá-la”. (Carta datada de Viena, 16 de dezembro de 1816. Original existente na Biblioteca Nacional).

“Espero encontrar mais probidade em um mundo menos corrupto neste novo mundo…

Prefiro os selvagens do Brasil, pelo menos têm eles a qualidade excelente de serem crianças da natureza e não estão ainda corrompidos pelo luxo e suas conseqüências terríveis…” (Leopoldina à condessa von Lazansky, 31 de julho de 1817)

A correspondência de D. Leopoldina com sua tia e confidente é um espelho fiel da sua vida. Quando recebeu o retrato de D.Pedro, contou logo: “Sabendo que a senhora compartilha de tudo quanto me dá prazer, ouso anunciar que o retrato do Príncipe chegou há poucos dias. Acho-o agradável, e sua fisionomia exprime muita bondade e espírito, e todos também afirmam que ele é bom, querido do povo e muito dedicado: meu único objetivo é fazer o possível por torná-lo feliz; espero conseguí-lo, buscando a minha própria felicidade no cumprimento dos meus deveres”.

E mais adiante: “Preocupa-me muito agora o estudo da língua portuguesa, e o embaixador assegura-me que faço grandes progressos; mas, apesar disso, não estou satisfeita porque já quero falar; é bastante difícil, tendo a língua portuguesa muitas palavras árabes: também cultivo a música, pois me dizem que toda a família real gosta muito de música; esse motivo me fez vencer todos os obstáculos que talvez me fizessem desanimar”. (Carta datada de Viena, 12 de abril de 1817).

Na véspera do Natal de 1817, escreve à tia contando a vida feliz que ia levando no Rio de Janeiro: “É com muita alegria bem doce para o meu coração que já lhe posso falar da felicidade que sinto por ter chegado, já há dois meses, ao termo de minha viagem, estando reunida a um Esposo que adoro, pelas suas excelentes qualidades; gozo dessa felicidade tranqüila afastada da sociedade, cujos encantos sempre apreciei tão ardentemente”. (Carta datada de São Cristóvão, 24 de dezembro de 1817).

Deu-se admiravelmente bem com D. João VI, que a estimava deveras. Na mesma carta, ela o anuncia: “Toda a família real tem por mim tanta bondade e amizade que o meu dever mais doce será o de me tornar digna delas; respeito na pessoa de Sua Majestade o Rei um segundo Pai, que pode contar com todo o meu amor e veneração filial”.

A carta de 24 de janeiro de 1818, bem mais eloqüente, é um quadro da sua vida em família: “Não tenho palavras bastantes para lhe falar da felicidade que sinto; a senhora bem sabe como é doce gozar, com uma pessoa que se ama com tanta ternura, minha querida tia, da tranqüila felicidade campestre de que estou gozando, pois encontrei em meu Esposo um amigo que adoro pelas suas excelentes qualidades, e a quem dedicarei,doravante, com prazer inexprimível, todos os meus cuidados”.

E mais além: “… passo o dia escrevendo, lendo e fazendo música, como o meu Esposo, que toca muito bem quase todos os instrumentos; acompanho-o ao piano e assim tenho satisfação de estar sempre perto de sua querida pessoa”.

E a linguagem das cartas prossegue no mesmo diapasão. Há sempre uma palavra de carinho e ternura para com D. Pedro e uma referência à bondade da família real.

Quando nasceu a primeira filha, D. Maria da Glória, D. Leopoldina exultou de alegria e contentamento: “… minha filha é muito forte e encantadora, sendo o retrato perfeito do meu bem amado Esposo. E prossegue: “estou todo o dia com minha filhinha bem amada no colo, espiando os menores movimentos e desejos; é tão forte que já se senta e levanta a cabeça sem auxílio; tenho uma excelente ama e dama para cuidar dela, de modo que, ao deixá-la um pouco para fazer a viagem a Santa Cruz, posso ficar tranqüila estando longe dela”.

A princezinha D. Maria de Glória é, agora, um tema novo e obrigatório em todas as cartas. D. Leopoldina já não sabe como demonstrar o seu entusiasmo pela filha. As cartas transpiram uma felicidade incomparável. D. Pedro é ainda o “adorado Espôso”e a vida de casados, um paraíso: “Minha filhinha é a menina mais linda e mais inteligente que conheço; já está começando a balbuciar e a ficar de pé, tendo nas pernas uma força extraordinária. Observo, com prazer inteiramente novo, os seus progressos diários, e posso orgulhar-me de que ela conhece a mim a ao meu adorado Esposo, pois que nós estando em casa, não temos outra ocupação que a de carregá-la reciprocamente (?) nos nossos braços; só os cabelos é que se parecem com os meus, pois em tudo ela é o retrato de meu Esposo, o que a torna duplamente querida a mim”.

E D.Leopoldina continua, batendo sempre na mesma tecla: “Estou gozando de uma felicidade completa, o que me agrada infinitamente, tendo assim ocasião de cuidar mais ainda da minha filha, de viver somente para o meu Esposo e para meus estudos;. E prossegue: “Posso assegurar-lhe que gozo, todos os dias, de uma felicidade doméstica inexprimível, fazendo descobertas deliciosas no desenvolvimento das qualidades morais e físicas de minha querida Maria, nas excelentes qualidades de meu Esposo, e posso afirmar-lhe, com toda a franqueza alemã e vivacidade portuguesa de sentimentos, que estou muito feliz e contenta”.

Quando a princezinha fez um ano, D. Leopoldina pintou-lhe o retrato e enviou-lhe à tia, assim se referindo: “… se o retrato está exagerado na beleza, perdoe-o a uma mãe que só vive para sua filhinha, que está agora na época da dentição e já tem os quatro primeiros dentes. Tem ao meu Esposo um particular apego, o que me causa o maior consolo, por que ele merece, sendo o melhor dos Pais, sempre lidando com ela; leva-a nos braços durante todo o passeio, e lhe dispensa mil carinhos; mas também, para dizer a verdade, ela é muito alegre e amável e os merece; sinto que a estou fatigando com meus detalhes, mas estou tão feliz em ser Mãe que encontro o maior consolo em lhe exprimir a minha felicidade”. (Carta datada de São Cristóvão, 12 de abril de 1820).

O fato é que, com o nascimento da filha, D.Pedro une-se mais a mulher dedicando às duas entusiasmada atenção. A vida de Leopoldina muda com a gravidez e dois abortos sucessivos. Troca as cavalgadas e corridas em carruagem pela pesca e passeios em canoa, dedica-se mais aos livros e toma banho de mar. Em 06 de março de 1821 nascia o segundo filho, o desejado varão D. João Carlos.

Por essa época, as questões políticas empolgavam todos os espíritos. D. Leopoldina não foi uma exceção. Teve a intuição clara do momento histórico que o Brasil estava vivendo naqueles dias memoráveis que precederam o Sete de Setembro. Dias antes de D. Pedro partir para São Paulo, onde ia dar o Grito do Ipiranga, Dona Leopoldina, inquieta, escrevia ao pai as seguintes cartas:

“Querido Papai: A oportunidade permite-me, Deus seja louvado, escrever-vos sem rodeios (com o fígado desembaraçado) como dizem os meus compatriotas; é o meu único consolo e o momento mais agradável, por ter eu a certeza do vosso amor paterno e bondade que se preocupa e sente comigo.

Aqui tudo é confusão, por toda a parte dominam os princípios novos, da afamada Liberdade e Independência. Estão trabalhando para formar uma Confederação de Povos, no sistema democrático como nos Estados livres da América do Norte. O meu marido que infelizmente, ama tudo que é novidade, está entusiasmado, como me parece, e terá no fim que espiar tudo; de mim desconfiam o que no fundo me regozija porque assim, mercê de Deus não tenho que dar a minha opinião e ao mesmo tempo fico fora das lutas. Podeis estar descansando, caro Papai, que não esquecerei, aconteça o que acontecer, o que devo à Religião e aos meus princípios de Austríaca: e que não vos inquieteis por mim porque confio no Onipotente que nunca abandona aqueles que n’Êle se apoiam. Quando tudo andar mal e tomar a feição de revolução francesa, irei com os meus filhos para minha Pátria, pois, quanto ao meu marido estou convencida, a meu grande pesar que a venda da cegueira não lhe sairá dos olhos. Espero então que me dareis a colocação de Diretor de Mineralogia que uma vez me prometeste por pilhéria ao jantar. E lá então, sossegada e contente, no meio de meus queridos viverei pois na Pátria, junto dos parentes, se pode falar à vontade.

Beijo-vos e à querida Mamãe as mãos muitas vezes e sou com o mais profundo respeito e amor filial, querido Papai, vossa filha obediente.

Leopoldina – S. Cristovão, 23 de junho de 1822.

P.S. Lembranças de coração a todos os meus Irmãos, não escrevo a ninguém porque esquecem todos de mim e há seis meses não me dão notícias.

Dois meses depois, D.Leopoldina escrevia novamente ao seu pai, demonstrando ainda grandes preocupações com a sua sorte e com o destino no Brasil.

Observem o teor da carta:

“Querido Papai: Embora me haverdes aconselhado não expandir o meu coração e espírito afetuoso e verdadeiro, não posso, entretanto, furtar-me esta vez de tentar a sorte.

Depois de todas as notícias seguras da traidora Mãe Pátria européia, nada se resolveu, senão ficar Sua Majestade o Rei em prisão dissimulada por ordem das Cortes. A nossa viagem para a Europa torna-se impossível porque excitaria o nobre espírito do povo brasileiro; e seria a maior ingratidão e o mais grosseiro erro político se todos os nossos esforços não tendessem a garantirmos uma justa liberdade, consciente da força e grandeza deste belo e florescente Império. Ele que nunca se submeterá ao julgo da Europa, poderá entretanto, com o tempo, ditar leis. Estou certa, meu digno Pai, de que vós me desejais o que é bom e nobre, não deixareis de dar-nos auxílio do vosso poder e força nesta emergência.

Beijo-vos muitas vezes as mãos assim como a querida Mamãe e sou com o mais terno amor filial e profundo respeito, querido Papai, vossa filha obediente.”

Leopoldina – S. Cristóvão, 8 de agosto de 1822.

Estes documentos extraídos de “A Corte de Portugal no Brasil”, de Luís Norton, demonstram com clarividência sua atitude definida. Pela separação, contra as odiosas Cortes de Lisboa. E foi então a grande inspiradora do Príncipe-regente. A instigadora dos gestos decisivos que criaram um grande império na terra selvagem da América. Na carta de 27 de novembro de 1821, já denuncia o seu interesse pelo rumo das questões políticas brasileiras: “…. as circunstâncias atuais tiveram tal influência sobre o meu espírito e sobre o meu coração que me senti incapaz de lhe apresentar os meus sentimentos ternos e respeitosos; agora, que os horizontes políticos do Sul estão clareando, é com extremo prazer que recomeço a minha correspondência”.

Nas vésperas da jornada do Ipiranga, assume ela a regência:: “… o meu adorado Esposo partiu para restabelecer a paz em São Paulo, e, durante esse tempo, estou a cargo de todos os negócios, sendo este o maior sacrifício que eu posso fazer por ele e pelo Brasil”.

Nessa época, D. Pedro resolveu visitar a província, atendendo ao pedido da junta. Partiu no dia 14 de agosto, deixando D.Leopoldina encarregada da regência. Foi nomeada substituta oficial e no dia 2 de setembro reúne-se o Conselho de Estado, sob a presidência da Princesa, para deliberar sobre as notícias chegadas de Lisboa. Nesta sessão histórica, propõe-se a separação definitiva do Brasil de Portugal. Leopoldina, com entusiasmo sanciona o Ato. Paulo Bregaro aguarda na varanda pronto a partir em diligência para levar os despachos ao Príncipe, que ele encontraria, no dia 7 de setembro de 1822, às margens do riacho Ipiranga.

A causa da independência empolgou-a extraordinariamente. O “Fico” da Princesa aconteceu dois meses antes que o de D. Pedro. Em suas cartas, sua decisão e a mudança de espírito, tomando o partido dos brasileiros, revelam sua percepção de que a garantia da manutenção da Casa Real Portuguesa dependia da separação do Brasil do Reino. Já tinha, então, escrito cartas políticas anunciando os seus esforços vitoriosos para decidir o marido a conservar-se no Brasil e convencido, espetacularmente, o velho Andrada a aceitar o ministério durante aqueles dias procelosos.

Diante da recusa categórica do Patriarca, D. Leopoldina foi ao seu encontro e pondo-lhe nos braços a princesinha D.Maria da Glória, disse:

“Ela é vossa compatriota; necessita de vossos serviços e de vossos exemplos; eu preciso de minha parte dos vossos conselhos; o Brasil e meu marido reclamam as vossas luzes e o vosso patriotismo”.

Em São Cristóvão, D. Leopoldina tornou-se a grande conspiradora.

Após o dia do “FICO”, as relações pessoais de Leopoldina com o Brasil mudaram drasticamente. A partir da decisão política e consciente de ficar no país de seus filhos, passou a considerar-se brasileira de coração.

Compreendendo a fatalidade da participação da monarquia portuguesa, quis conservar para seus filhos a coroa do Império que nascia. E os seus sonhos seriam, mais tarde, uma realidade . Um filho seu, usando a coroa do Brasil, encheria de glórias as páginas da história do império que ela também ajudara a criar. A princesa acompanha D. Pedro na política, aceita a ingerência nos negócios e reconhece, antes do Príncipe, a independência inevitável. Nunca ambos se encontraram tão ligados, em torno de uma causa comum.

No próprio ano da independência, a marquesa surge de repente e se instala na vida de D.Pedro. Graças aos seus feitiços de mulher e outros recursos, o acerto é que conquistou o príncipe para si. D. Leopoldina teve logo conhecimento de tudo. Amava loucamente o marido mas não soube disputá-lo. É verdade que a marquesa tinha sobre ela a vantagem considerável de ser bela, mas a imperatriz poderia ter diminuído essa superioridade cuidando um pouco mais de sua pessoa. Não fez nada disso. Continuou ignorando a utilidade dos cosméticos, a arte feminina de agradar, a magia dos mil recursos que a mulher inventou para a defesa dos seus encantos. Continuou com o corpo à solta, dentro de roupas largas e desalinhadas, rebelde sempre às cintas e coletes. E D. Pedro, ainda no verdor de seus vinte e quatro anos, estava na idade em que esses pequeninos nada, esses retoques insignificantes de toucador tornam irresistível a sedução de uma mulher bonita.

D. Leopoldina fingiu ignorar tudo e, durante quatro anos, tentou ocultar a chaga que se abria em seu coração de santa. Mantendo com D.Domitila relações normais, silenciando sempre o seu pensamento, explodiu, porém, algumas vezes, os seus recalques, em cartas ao seu devotado Schaefler:; “Aqui anda tudo transtornado infelizmente, pois sinceramente falando, mulheres infames como se fossem Pompadour e Maintenon ( !!!! ) e ainda pior, com a agravante de não terem educação alguma, e ministros da Europa toda e da Santa Ignorância governam tudo torpemente. E os outros devem ficar calados e procurar apenas o maior isolamento, ficando cada vez mais almejando a independência e a tranquilidade. ”Três dias antes de morrer, na madrugada de 8 de dezembro de 1826, tem um supremo desabafo que é um misto de lamento e de protesto. Ditou, para ser enviada à irmã, uma carta com a história da sua desventura:

“Há quase quatro anos minha adorada mana, como vos tenho escrito, que por amor de um monstro sedutor me vejo reduzida ao estado da maior escravidão e totalmente esquecida do meu adorado Pedro”.

D. Leopoldina com o próprio imperador, chegou mesmo a ter manifestações de protestos. Durante os longos dias de agonia que precederam a morte do pai de D. Domitila, D. Pedro ausentou-se completamente do paço para assistir os últimos momentos do velho coronel. O zelo e o carinho demonstrados pelo imperador à cabeceira do moribundo desvairaram D. Leopoldina, que escreveu ao marido propondo uma escolha definitiva entre ela e a concubina, chegando mesmo ao ponto de ameaçá-lo de partir para a Europa, onde se recolheria à residência paterna.

Houve, em conseqüência disso, uma séria desavença entre os dois com a competente troca de grosserias. D. Leopoldina, profundamente ressentida, “recebeu D. Pedro quase a unhas e dentes, revidando-lhe o procedimento de extravagante e dissoluto”, chegou a escrever Alberto Rangel.

A tempestade, porém, passou logo. A reconciliação não se fez tardar e o imperador pôde ativar febrilmente os preparativos para a sua viagem ao sul. “Podem-se imaginar e avaliar a ternura e amizade com que tanto o imperador como D. Leopoldina embalsamaram nas despedidas as velhas feridas e os arranhões da véspera, pela dádiva da esposa ao marido, em penhor das doçuras perdoantes, quando ele partiu a 24 de novembro; era um anel simbólico, diz-nos o velho Melo Morais, tinha dois brilhantes e dentro do arco dois corações e dois nomes”.

E enquanto D. Pedro desenvolvia uma atividade prodigiosa no Sul, procurando elevar o moral das tropas, D. Leopoldina falecia em São Cristóvão com o seu nome nos lábios: “o meu Pedro, o meu querido Pedro…”

Bem profundas foram as lições que D. Pedro colheu do seu último atrito com a imperatriz. As palavras candentes com que ela verberou a sua má conduta calaram fundo no seu ânimo. E o perdão generoso, ensinaram-lhe a conhecer a grandeza da alma da esposa. E a verdadeira Leopoldina surgiu, grandiosa e sublime, diante de seus olhos. Sentiu D. Pedro o quanto martirizara aquele anjo de candura e de pureza. O seu arrependimento foi sincero e os seus propósitos, definitivos. As despedidas não poderiam ter sido mais cordiais e afetuosas. A bordo e no Rio Grande, D. Pedro achava sempre um minutinho de folga para mandar à imperatriz algumas linhas amáveis e saudosas. Era tarde, porém… No dia 11 de dezembro, o boletim médico anunciava, grave e lacônico: “Foi Deus servido chamá-la a si pelas 10 horas e um quarto”.

A notícia rebentou-lhe como uma bomba. Alucinado, o imperador abandona tudo e despenca para o Rio de Janeiro numa pressa desesperada. “Em São José do Norte chicoteou um peão. Porque a nau “D. PedroI”, à falta de vento, parasse a 20 milhas do Rio, quis meter-se numa canoa e completar, a remo ou a vela, a viagem morosa. O comandante impediu-lhe o desatino bradando: “Sou responsável pela vida de V. M., e como a bordo quem manda sou eu, não permitirei que se arrie nenhum bote”.

D. Pedro desembarcou a 15 de janeiro, chorando, a um tempo aflito e colérico, furioso com os ministros, a quem a marquesa de Santos acusava de desatenções cruéis, queixoso de todos, como se a vida de D. Leopoldina tivesse dependido de médicos e amas”. (Pedro Calmon, “O Rei Cavaleiro”, pág. 172).

As intrigas políticas, os cochichos, as murmurações de fidalgos pelos cantos do paço, os olhares esquivos, as conspirações, o ambiente carregado do Rio de Janeiro mostraram ao imperador a realidade da situação. Sentiu-se só. Nunca lhe fez tanta falta a imperatriz. A falsidade dos que se diziam seus amigos realçou a figura singela de D. Leopoldina, a sinceridade personificada. Chorou-a.

“Deus eterno, por que me arrebataste a minha muito amada Imperatriz?! Tua divina bondade assim o quis. Sabe que o meu coração dilaceraste?!

Mareschal percebeu perfeitamente as disposições do príncipe, escrevendo a Metternich, Ministro dos Negócios Estrangeiros e da Casa Imperial: “O imperador estava profundamente penalizado e acredito ser a sua dor tanto mais verdadeira quanto ele sente cada vez mais o vazio e o isolamento em que se encontra”. – (Despacho de 22 de fevereiro de 1827).

Foi precisamente esse isolamento que o aproximou de novo da marquesa. Ela, ao menos, inspirava-lhe confiança. Amava-a, ainda, e sabia-se amado.

A 24 de maio de 1827, aniversário da duquesinha de Goiás, os grandes festejos terminaram por um faustoso banquete na Quinta da Boa Vista. Estavam os convivas no auge da alegria, conta Rangel, quando D. Pedro lembrou-se que por coincidência a mesa fora colocada justamente onde havia estado exposto o ataúde de D. Leopoldina. Abandonou rapidamente a mesa do festim e, como não voltasse, D. Domitila correu, sobressaltada, ao seu encontro. D. Pedro chorava, sucumbido, num quarto, abraçado ao retrato da esposa defunta.

Pouco tempo depois, abandonou, de súbito, os braços alvos de D. Domitila, exclamando: “Larga-me! Sei que levo a vida indigna de um soberano. O pensamento da imperatriz não me deixa”.

Desta vez, pelo menos, D. Leopoldina afastou-o da marquesa. Obteve, assim, depois de morta, o que não lhe fora dado conseguir em vida…

Quando faleceu D. Leopoldina, D. Pedro chorou-a sinceramente no conhecido soneto:

“Deus eterno, porque me arrebataste
A minha muito amada Imperatriz?!
Tua divina bondade assim o quis.
Sabe que o meu coração dilaceraste?!

Tu, de certo, contra mim te iraste,
Eu não sei o motivo, nem que fiz,
E por isso direi como o que diz:
Tu m’a deste, Senhor, tu m’a tiraste.

Ela me amava com o maior amor,
Eu nela admirava a sua honestidade,
Sinto meu coração por fim quebrar de dor.

O mundo nunca mais verá em outra idade
Um modelo tão perfeito e tão melhor
De honra, candura, bonhomia e caridade.”