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Júlio Ambrozio

LUGAR DE PETRÓPOLIS NA DITADURA E O MESTRE DA TORTURA DAN MITRIONE (O)

Lugar de Petrópolis na Ditadura  e o Mestre da Tortura Dan Mitrione (O) Júlio Ambrozio, ex-Associado Titular, Cadeira n.º 30, Patrono – Monsenhor Francisco de Castro Abreu Bacelar Se dúvidas restavam acerca da existência, em Petrópolis, de uma casa utilizada pelo aparato repressivo da ditadura, com o livro do delegado Cláudio Guerra, “Memórias de uma Guerra Suja”, e as matérias em O Globo, (24, 25, 26/06/2012), à volta do tenente-coronel reformado Paulo Malhães e de sumiços de arquivos, essas incertezas parecem que se extinguiram. A entrevista do militar, que estabelece o seu envolvimento direto com a casa da Rua Artur Barbosa, confirma largamente as denúncias de Inês Etienne Romeu, que sofreu os horrores da ditadura no período de sua inflexão repressiva; ditadura de 1964 vinculada ao golpe militar e civil monitorado pelos EUA. Depois desse livro e das reportagens com esse tenente-coronel, dúvida alguma há em relação à casa petropolitana da violência ditatorial. Rigorosamente, todas essas matérias jogaram mais luz sobre a casa, pois a certeza de sua existência já estava posta há mais de duas décadas. Não sei se o movimento para a criação do museu brasileiro da tortura ao redor dessa casa já alcançou setores determinantes de Brasília. Desconheço também se o Centro de Defesa dos Direitos Humanos (CDDH), embora indicando o local em seu abaixo-assinado, teria em vista mais a ideia do que o lugar. Afinal, outro sítio de mais fácil acesso e com abundância populacional, tal como o do Museu de La Memória de Buenos Aires, talvez fosse mais favorável para os objetivos desse museu. Talvez a própria casa de Petrópolis interesse absolutamente, caso se eleve a reação dos militares e, ainda assim, o empenho pela constituição do museu seja afirmativo, necessitando-se, então, de eventual composição: fundar-se-ia o museu, porém em lugar ermo e em cidade menor e relativamente distante dos grandes núcleos populacionais. O desacerto de tudo é que o Brasil permanece como certa espécie de paquiderme que arrasta demasiadas questões para além do imaginável, exemplo disso é o tempo em que se dá este propriíssimo embate, quando os principais responsáveis estão mortos. Em relação a Petrópolis, curiosidade irônica, é que a proposta de se criar um espaço de memória permanente para as novas gerações acerca desse período repressivo, unir-se-ia a atividade turística que foi se fortalecendo aqui, e em muitas outras cidades, a partir da falência industrial e urbana ocorrida com os anos de 1970 e depois. […] Read More

ESTÁGIO ATUAL DO CAPITAL E O ESTADO DE DÍVIDA CIVILIZACIONAL (O)

  O ESTÁGIO ATUAL DO CAPITAL E O ESTADO DE DÚVIDA CIVILIZACIONAL Júlio Ambrozio, associado titular, cadeira n.° 30, patrono Mons. Francisco de Castro Abreu Bacelar Resumo Se o lugar ambiental denuncia variáveis que empurram a civilização para um estado de incerteza, o fato é que essa ausência de certeza alcança contornos ainda mais problemáticos quando se põe à mesa o horizonte geográfico e histórico da acumulação capitalista. De um lado, o processo de degradação ambiental, se bem que derivado do atual estágio do capital, guarda seu motivo visceral no próprio caráter acumulador do capitalismo; de outro lado, o eventual deslocamento do núcleo de acumulação para o oriente, além de anunciar a possibilidade bélica, amplifica o grau de destruição ambiental. Palavras-chave Ambiente, Oriente, Hiperacumulação, Guerra. Résumé Si le lieu dénonce les variables environnementales qui animent la civilization à un état d’incertitude, le fait est que cette absence de certitude atteints des contours encore plus compliqués quand on présente l’horizon geografique et historique de l’accumulation capitaliste. D’un côté, le procès de dégradation de l’environnement, si bien qu’issu de l’état actuel de le capital, conserve sa raison visceral dans le caractère même qui accumule le capitalisme; et de l’autre côté, l’éventuel d’un déplacement du noyaux de l’accumulation pour l’orient, outre qu’annoncer la possibilité belliciste, amplifie le degré de la destruction de l’environnement. Mots-clés Environnement, Orient, Hiperaccumulation, Guerre. Um olhar que enxergasse o problema ambiental contemporâneo, desnecessário dizer, não poderia descuidar da maquinaria ampliada de acumulação capitalista. Se o estado das coisas materiais ou físicas necessárias à reprodução da existência deriva do atual estágio de acumulação do capital, posto já estava o problema desde a origem dessa acumulação, sobretudo desde os primórdios do capitalismo produtivo. Bastaria como exemplo o testemunho de Charles Dickens e sua vitoriana cenografia londrina. (1) (1) Bem mais adiante, “A Cidade da Noite Apavorante”, o segundo capítulo de Cidades do Amanhã, de Peter Hall, sem mencionar Dickens, reverberou esse testemunho ao descrever os horrores ambientais e, sobretudo, de moradia da Londres vitoriana de 1880-1900, não esquecendo, ademais, de Nova York, Paris e Berlim (HALL, 2002, pp.17-53) O desenvolvimento do capitalismo – um histórico modo de ordenamento espacial e (re) produção material, além de uma maneira datada de dominação social – ocorre no interior de incessante movimento que dá vida ao capital, valendo a notória fórmula geral de Marx D–M–D’: giro, circuito ou rotação no qual certo somatório de dinheiro […] Read More

FALÊNCIAS DE MERCADOS E A ENCRUZILHADA BRASILEIRA

  FALÊNCIAS DE MERCADOS E A ENCRUZILHADA BRASILEIRA Júlio Ambrozio, associado titular, cadeira n.° 30, patrono Mons. Francisco de Castro Abreu Bacelar Os anos a partir de 1970 trouxeram o fim de três decênios da denominada era de ouro do capitalismo. A década de 1970 – e depois – pode ser lida como o período de uma crise clássica de hiperacumulação de capital oriunda desses trinta anos imediatamente anteriores a esse decênio; trinta anos caracterizados pelo aumento significativo da produtividade do trabalho através de sistemática incorporação de capital constante, cuja expressão concreta foi o permanente aumento da oferta de mercadorias advindo cada vez mais dos meios de produção que, pelo volume e concorrência, diminuíam as taxas de lucro do capital. Empiricamente, no período de 1970 os estoques prodigiosos, desvalorizando-se, rebaixaram definitivamente a realização dos lucros dessa produção em massa ou fordista. Os anos dessa crise, portanto, reduziram a produção industrial e o comércio internacional; a Ásia ocidental, toda a América Latina e continentes inteiros como o africano experimentaram, nos anos de 1980, a diminuição do seu PIB e mesmo cessação de seu crescimento, sem esquecer as profundas dificuldades econômicas, após 1989, da antiga URSS e sua área de direta influência. Por sua parte, a telemática, a computação, comunicação e transportes e mais rápidos, e mesmo em tempo real, foram diminuindo a importância dos almoxarifados no interior do processo produtivo, favorecendo o suficiente abastecimento da demanda no “tempo justo” e com mínimo estoque – prática iniciada com os japoneses. Isso sem mencionar a instalação de mobilidade produtiva capaz de alterar ou diversificar a produção em benefício de qualquer modificação da demanda. O desenvolvimento dessas novas tecnologias, aumentando a velocidade e a eficácia das redes de comunicações, propiciaria à produção capitalista superar os limites que a crise impunha, literalmente dando um salto adiante, ou para cima, em busca da esfera financeira. Um dos acontecimentos da época que acabou contribuindo visceralmente para essa arremetida foi o embargo do petróleo. Neste instante, os EUA mostraram ao mundo todo o seu poder imperial. Expandiram a emissão de dólares para enfrentar as despesas com esse hidrocarboneto. As Importações dos EUA passaram de 4 bilhões de dólares aproximadamente para mais de 70 bilhões de dólares. As emissões originaram os petrodólares, inundando o sistema financeiro com uma moeda sem lastro e que foi literalmente lavada com empréstimos – de juros baixos, porém móveis – feitos aos paises subdesenvolvidos. […] Read More

VILEGIATURA COMO GÊNERO DIVERSO DO TURISMO (A)

  A VILEGIATURA COMO GÊNERO DIVERSO DO TURISMO Júlio Ambrozio, associado titular, cadeira n.° 30, patrono Mons. Francisco de Castro Abreu Bacelar De imediato, seria necessário observar que a viagem – o deslocamento de um ponto a outro relativamente distante – atravessa a história. A viagem foi comercial – e esta se mantém como uma das formas básicas de deslocamento: os fenícios foram os primeiros a romperem com a tradição do comércio terrestre, navegaram por todo o Mediterrâneo, fundando feitorias e estações marítimas de Beirute, Aca, Jaffa, passando pelas ilhas de Malta, Lampeduza, Gozo, Pantelaria até Alcácer do Sal em terras do rio Sado lusitano (1); os espanhóis viajaram para, violentamente, despojarem a América do Sul e Central; a Liga Hanseática fundara em toda a Europa norte e oriental escritórios e, sob influxo do Capitalismo comercial, cidades como Leipzig e Hannover tornaram-se lugares de referência para os caixeiros viajantes do mundo; até os índios ribeirinhos da bacia amazônica do século XVI dão evidências da viagem de longa distância comercial, ou de troca, interrompida pela chegada do europeu (2); os próprios gaúchos carregam no nome a sua origem errante: gaudério, tipo social afeito à montaria, viajante fronteiriço, até o século XIX, à procura do gado alçado e dos ganhos de contrabando nas duas áreas platinas e no antigo Continente de São Pedro do Rio Grande. (1) Cf. CAMINHA, João Carlos. História Marítima, Biblioteca do Exército, RJ, 1980, pp. 13-17. (2) Cf. CARVAJAL, Frei Gaspar de. Relatório do novo descobrimento do famoso rio grande descoberto pelo Capitão Francisco de Orellana, Escritta editorial / Embajada de España, bilíngüe, SP,1992. Cf. também PORRO, Antônio. As Crônicas do Rio Amazonas, notas etno-históricas sobre as antigas populações indígenas da Amazônia, Vozes, Petrópolis, 1993. É de se notar ademais que, toda a vida, os exércitos viajaram: o Grande Exército napoleônico da Campanha de 1812 atravessou o rio Niemen – fronteira dos antigos Grão-Ducado de Varsóvia e da Prússia Oriental com a Rússia – a caminho de Moscou com 420.000 homens, deslocando-se, entre a marcha ofensiva e a fuga por quase dois mil quilômetros (3); a Coluna Prestes viajou cerca de 25.000 quilômetros pelo interior do Brasil, de São Borja até o seu exílio em Santa Cruz, na Bolívia; os Farroupilhas deslocaram-se pelos campos do sul rio-grandense, guerreando o Exército Imperial. (3) Cf. CLAUSEWITZ, Carl Von. A Campanha de 1812 na Rússia, Martins Fontes, RJ, 1994. Cf. também: […] Read More

EXPRESSO MAZOMBO-ABSTRATO

  EXPRESSO MAZOMBO-ABSTRATO Julio Ambrozio, ex-Associado Titular, Cadeira n.º 30, Patrono – Monsenhor Francisco de Castro Abreu Bacelar Edmundo Jorge, hoje, é o decano da cultura e das artes plásticas da cidade de Petrópolis. Edmundo não apenas continua sendo um grande artista, mas permanece também como um dos grandes quadros intelectuais que a cidade, mesmo sendo como ela é, conseguiu gerar. Precisamente, Edmundo Jorge é o mais idoso representante daquilo que de melhor se produziu e se produz na vida cultural da serrania petropolitana e brasileira. A cidade deveria se orgulhar. Bastava As Memórias da Rua Paulino Afonso, Machado Horta ed., RJ, 1985, e esse decano mereceria uma herma ou quiçá estudo crítico levado a cabo pelo Departamento de Letras da UCP – a Universidade que fixou cinqüenta e cinco anos de presença petropolitana. Acerca da UCP e da Universidade Pública, aliás, encontra-se neste sítio eletrônico um artigo de minha autoria. Edmundo, dizia, mereceria toda a honra da cidade por essa memorialística e, igualmente, pelos seus outros livros e pela sua obra plástica. Como artista plástico, formou-se Edmundo no turbilhão modernizador dos anos cinqüenta no Brasil, fazendo parte das vanguardas urbanas que incorporaram o abstrato, se bem que já nessa década revelasse algum incômodo com o Concretismo. Sobre a A Arte de Edmundo Jorge, o leitor interessado também encontrará artigo assinado por mim neste sítio eletrônico. Como artista plástico, ademais, foi Edmundo Jorge o direto responsável pela I Exposição Nacional de Arte Abstrata, sediada em Petrópolis, em fevereiro de 1953. Claro, na década de cinqüenta, a cidade guardava ainda o caráter de subúrbio elegante da elite brasileira, cariz que, sem dúvida, Jorge bem soube compreender. Mas, repare leitor, foi um provinciano e não um metropolitano o idealizador e organizador direto de marco histórico das artes no Brasil. Se a Semana de Arte Moderna de 1922 liga-se à cidade de São Paulo, essa primeira exposição do Abstracionismo, no Brasil, tem as montanhas petropolitanas como demarcação geográfico-cultural, não obstante a importância da 2ª Bienal paulistana, pois esta não foi exclusivamente Abstrata. Diga-se a propósito, que não se trata aqui da condenação do Abstracionismo, embora não seja difícil observar que Juscelino Kubitschek viveria demasiadamente no inconsciente dos (artistas) abstratos, e talvez o Trabalhismo e Getúlio Vargas fornecessem algum antídoto contra o decorativo que tomou conta de mais de um deles. Quereria demonstrar, contudo, que o abstrato sistematicamente exposto na Plataforma Contemporânea, pertencente ao […] Read More

ESTANTE GEOGRÁFICA PETROPOLITANA (A) – RASCUNHO CRÍTICO

  A ESTANTE GEOGRÁFICA PETROPOLITANA Rascunho Crítico Julio Ambrozio, ex-Associado Titular, Cadeira n.º 30, Patrono – Monsenhor Francisco de Castro Abreu Bacelar Os saberes geográficos acerca de Petrópolis, neste artigo, oscilam entre um pequeno livro descritivo-enciclopédico e duas monografias urbanas, passando por uma pesquisa da função industrial petropolitana e outra, bem mais recente, sobre os impactos e reações do meio físico ante a ocupação urbana. O livro noticiado é de autoria de Paulo Monte (1) , cento e vinte sete páginas arranjadas em bonita edição com sete capítulos: município, história, lendas, geografia física, geografia política, geografia econômica, costumes, além de dois subtítulos que descrevem a fauna e a flora. (1) Monte, P. Chorographia do Município de Petrópolis, Typographia Ypiranga, Petrópolis, 1925. Descritivo e laudatório, cheio de informações saborosas para um ledor distante setenta e oito anos, sem dúvida, estava Paulo Monte em campo oposto ao de Carlos M. Delgado de Carvalho, que já antes da fundação da USP e da vinda de Pierre Deffontaines e Pierre Monbeig, guerreava contra o ensino enciclopédico e de relação. (2) (2) Sobre Delgado de Carvalho ver Abreu, M.A. “O Estudo Geográfico da Cidade no Brasil: evolução e avaliação, contribuição à história do pensamento geográfico brasileiro”, pp. 204-205, in Os Caminhos sobre a Cidade e o Urbano, org. Fani Alessandri Carlos, Edusp, Sp. 1994. É de se notar que no mesmo ano e cidade em que Delgado de Carvalho publicava “Methodologia do Ensino Geográphico” (3) era editada a corographia de Paulo Monte. (3) Delgado de Carvalho, C. M. Methodologia do Ensino Geográphico — Introdução aos Estudos de Geographia Moderna, Typographia Vozes, Petrópolis, 1925. Afastada do livro de Paulo Monte, a primeira monografia urbana acerca de Petrópolis também é um dos primeiros estudos de geografia tradicional de corte francês no Brasil. “Petrópolis – Esboço de Geografia Urbana” (4) , de Philippe Arbos, configura-se como perfeito exemplar da seqüência metodológica encontrada em “O Estudo Geográfico das Cidades”, de Pierre Monbeig (5), embora Maurício Abreu (6) noticie que já em 1937 Arbos teria proposto idêntico modelo, sugerido em aula de geografia urbana na antiga Universidade do Distrito Federal. (4) Arbos, P. “Esboço de Geografia Urbana”, Comissão do Centenário de Petrópolis, P.M.P., vol. VI. pp. 173-225. (5) Monbeig, P. “O Estudo Geográfico das Cidades”. In: Boletim Geográfico, ano I(7), RJ, outubro-1943. pp. 7-29. A primeira publicação de “O Estudo…” é de 1941, pela Revista do Arquivo Municipal de São […] Read More

FARROUPILHA LEONEL BRIZOLA (O)

  O FARROUPILHA LEONEL BRIZOLA Julio Ambrozio, ex-Associado Titular, Cadeira n.º 30, Patrono – Monsenhor Francisco de Castro Abreu Bacelar “A Carteira de trabalho de Lula, quem criou foi Getúlio Vargas!” – Leonel Brizola. A grande mídia no Brasil, que golpeou em 1964, pois há muito vivia cúmplice do Imperialismo, melhor, das perdas internacionais, permanentemente demonizou Leonel de Moura Brizola, o que, aliás, muito explica a idiota e desqualificada idiossincrasia de boa parte da classe média contra aquele que, após o exílio de 15 anos, buscava alcançar o Poder de Estado brasileiro com o objetivo de reconduzir o país à união nacional originada em 1930: povo, exército e indústria – a aliança da classe média com o povo. Diga-se a propósito, que esse objetivo não está ultrapassado ou enrugado, como querem fazer crer os ideólogos – travestidos em diversas atividades profissionais – quando escrevem ou falam acerca da ( já capenga ) globalização e do neoliberalismo. Hoje, ainda mais que ontem, tornou-se mais grave a contradição entre a Nação – incluído aí o mercado interno – e o Imperialismo; de modo que a luta pela formação da Civilização Brasileira, através daquela união nacional, mantêm-se urgente e atual. Tanto isso é verdade que a grande mídia só agora quis saber de Leonel de Moura Brizola, quando desce às catacumbas; com ele, descem também a compreensão e o sentimento fronteiriços de nacionalidade, originados nos conflitos entre espanhóis e o mundo luso-brasileiro, em constituição no antigo continente de São Pedro do Rio Grande no período colonial. Quem se debruçar sobre a literatura guasca, sem dúvida, irá encontrar em Brizola, com a Cadeia da Legalidade e com a tentativa de resistência ao golpe imperialista de 1964, a descendência de Mestres-de-Campo, tais como Francisco Pinto Bandeira e Rafael Pinto Bandeira, ou mesmo a herança de José Borges do Canto e Manoel dos Santos – responsáveis estes dois pelo embate que pacificou as fronteiras de tensão do Rio Grande do Sul em 1802: a definitiva conquista da região das Missões. O leitor que procurar a Farroupilha e o Positivismo irá encontrar as origens republicanas de Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros, Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola: o fortalecimento do Estado como veículo do Federalismo meridional; o guarnecimento do Estado, já agora com Getúlio Vargas, como garantia da nacionalidade. O Positivismo gaúcho possibilitou transferir o respeito, a disciplina e a solidariedade dos clãs de fronteira […] Read More

TECNOLOGIA DOS TRÓPICOS E A CEPAL (A)

  A TECNOLOGIA DOS TRÓPICOS E A CEPAL Julio Ambrozio, ex-Associado Titular, Cadeira n.º 30, Patrono – Monsenhor Francisco de Castro Abreu Bacelar Darcy Ribeiro, em seu “Prefácio à Quarta Edição Venezuelana”, publicado na décima edição do Processo Civilizatório, Vozes, Petrópolis, 1991, narra, no primeiro parágrafo, o impacto que para ele teve o parecer editorial sobre esse livro. Lá pelas tantas, escrevia Darcy, que a raiva causada pela opinião de intelectual ledor de importante editora o salvara, pois desse modo surgiu o seu ímpeto de lutar contra todos aqueles que “… pensam que intelectual do mundo subdesenvolvido tem de ser subdesenvolvido também.” Não está aqui mencionado Darcy Ribeiro por acaso. Muito da tecnologia solar brasileira – anunciada como real e paupável possibilidade pela Escola da biomassa – alcançaria verdadeira compreensão através de um processo civilizatório que enxergaria as revoluções tecnológicas como eficientes e fundamentais causas de formações sócio-culturais, cujas historicidades e concretudes estariam na idéia de civilização, no caso da biomassa, na idéia de civilização brasileira. O caso, porém, é que a antropologia dialética de Darcy aqui surgiu através da específica lembrança desse prefácio venezuelano. Isso porque, folheando ao léu e pela primeira vez Dialética dos Trópicos, minha atenção se fixara em um parágrafo da página 154; pude ler ali uma espécie de informação ou conhecimento objetivo que a lógica da natureza determinaria a qualquer cultura: o aldeído acético (CH3 CHO) e o eteno (C2H H4) são os produtos básicos na produção de 70% da petroquímica; existem dois átomos de carbono em cada uma dessas substâncias produzidas a partir do petróleo, misturas de longas cadeias de hidrocarbonetos; o cracking ou ruptura é a forma para alcançar essa cadeia de dois átomos de carbono; o aldeído acético e o eteno, todavia, com facilidade seriam obtidos a partir do etanol (C2H5OH) – o álcool retirado da cana-de-açucar ou da mandioca, cuja estrutura é, igualmente, formada por dois átomos de carbono. Informa, ademais, Bautista Vidal, que a aplicação estimada de capital para realizar fábrica de eteno a partir do álcool etílico significa apenas 10% das inversões necessárias para retirar eteno do petróleo. Como informação tão simples a qualquer aluno de segundo grau, transformar-se-ia em grave alerta ao país? Dessa maneira, a indignada e límpida frase de Darcy Ribeiro, reproduzida no primeiro parágrafo, muito responderia a esse paradoxo. Só mesmo o bovarismo colonial explicaria a dificuldade que a inteligência brasileira tem demonstrado em relação […] Read More

INTELIGÊNCIA E A POLÍTICA PETROPOLITANA (A)

  A INTELIGÊNCIA E A POLÍTICA PETROPOLITANA Julio Ambrozio, ex-Associado Titular, Cadeira n.º 30, Patrono – Monsenhor Francisco de Castro Abreu Bacelar Eu gostaria de iniciar estas linhas recordando um pequeno passo de Darcy Ribeiro – Sabedoria Kaapor -, Diários Índios, Cia. das Letras, SP, 1995, no qual ele anotava que o intelectual seria aquele que mais compreenderia e melhor expressaria o saber de seu povo; saberes abundantes como os dos índios em seu território, ou nem tanto como os dos sertanejos, mas saberes da natureza e do homem. Acoplada a essa passagem, embora Darcy não faça comentário, estaria a forma imanente a essa definição: o ensaio, circulador de diversos ou copiosos saberes, descerrando portas que a monografia não conseguiria abrir; cruzamento entre a escrita científica e a ficcional, pois admitindo o plano de composição como realizador de sabedoria. Demarcado provisoriamente o intelectual, é evidente, não se trata aqui do homem que sabia javanês, pois muitas vezes recolhido às gavetas de armários governamentais, ou mesmo ocupando cargos de relevo, sem terno, vive tão somente para o alpinismo social. Já conceituado pelo ilustre escritor carioca, Afonso Henriques de Lima Barreto, esse pouco respeitável personagem, falador de língua estranha, notabilizar-se-ia devido à baixa auto-estima da província. Menos caricato do que o “javanês”, e, por isso, talvez mais perigoso, não se trata também daquele conversador de diversas línguas, mas que não fala a sua. Dedicado à metrópole, vivendo, tal como o “homem de Java”, para o montanhismo social, sua cobiça – como mazombo – seria a morada permanente ou, paciência, diria, uma representação no exterior. O primeiro parágrafo não diz respeito ao “javanês” porque, de fato, ele é o velhaco ou o mandrião – valendo o forâneo gastador de elogio com o Poder – que percebe como a metrópole é capaz de confundir o juízo provinciano em benefício de apreciação, assimilada como superior, do indivíduo metropolitano. Seja ele originário de São Paulo, Rio de Janeiro ou Nova York. Não deseja, por outro lado, o parágrafo inicial saber do mazombo boquirroto porque vive esse de costas para o seu povo, menoscabando qualquer arte e tecnologia – como a biomassa – genuinamente criada no território de seu nascimento. O intelectual delimitado através de Ribeiro, ademais, necessariamente não viveria acoplado à Instituição universitária ou Centro de Pesquisa, pois, sendo o ensaio substrato material desse homem de espírito, o professor ou pesquisador aprisionado à monografia não seria […] Read More

BIOMASSA, TECNOLOGIA DO QUINTO IMPÉRIO

  BIOMASSA, TECNOLOGIA DO QUINTO IMPÉRIO Julio Ambrozio, ex-Associado Titular, Cadeira n.º 30, Patrono – Monsenhor Francisco de Castro Abreu Bacelar O pós-liberalismo iniciou seu processo. Fortes indícios dão conta: a Enron, Xerox, WorldCom – controladora da Embratel -, mascaram prejuízos; investidores norte-americanos transferem muitas posições para a Europa. Se os EUA deixarem de importar, Alemanha e Japão serão arrastados juntos para a crise… O poder militar resolve algumas coisas, mas não tudo. – Qual o elo substantivo de ligação entre a guerra do golfo, em 1990, a invasão norte-americana do Afeganistão, a condenação do Iraque e a tentativa de golpe, ostensivamente monitorado pelos EUA, na Venezuela do ibero-americano, Chaves? – O petróleo. Iraque, Kuwait, Venezuela, estão entre os paises com as maiores reservas petrolíferas. O Afeganistão, além de carregar grandes reservas de gás natural, é a mais conveniente e potencial zona de passagem do petróleo das novas repúblicas saídas do fim da URSS. É sabido que o carvão e o petróleo são as bases energéticas dos paises industriais; este último, ademais, gerou subprodutos advindos de aplicações científicas, tecnologias que resultaram, p. exemplo, em garrafas de refrigerantes e plásticos. Tudo estaria indo muito bem para as regiões dominadoras e, financeiramente, ricas do mundo, se um acidente de percurso não fosse descoberto e anunciado para um futuro bem próximo: o carvão mineral polui absolutamente e o petróleo, além disso, tem data certa para findar. Vasconcellos, com este livro, chama a atenção para essa crise. Sobretudo porque a biomassa – energia do sol dos trópicos realizada através das plantas verdes -, além de apontar a solução do problema, é a base não somente de uma revolução tecnológica engenhada pelo homem dos trópicos, mas a estrutura, a peça fundamental do mestiço brasileiro na fundação de sua civilização. Errou o padre António Vieira, remoendo textos bíblicos, quando enxergou em Portugal da Restauração e no rei D. João IV o Quinto Império, que jamais se realizaria no território lusitano, pois a grande terra e o imenso sol não formariam o ethos ibérico. Vieira, infelizmente, não compreendeu que a profecia tinha já singrado o Atlântico e aportado em terras brasílicas. Sem citar Vieira na bibliografia, a Biomassa, de Gilberto Vasconcellos, realizar-se-ia como uma espécie de paráfrase dos trópicos do barroco A História do Futuro. O Brasil hoje vive suas dores tal como Portugal à época da Restauração. No segundo quartel do século XVII os portugueses existiam […] Read More