ASPECTOS GERAIS E CONJUNTURAIS DA MUDANÇA DA CAPITAL DE NITERÓI PARA PETRÓPOLIS

  Peca pela base quem pretende por ufanismo provinciano fazer história insulada, como se o seu burgosinho fosse o centro do mundo. Nada se passa isoladamente na face da terra. Napoleão foi um grande benfeitor do Brasil, pois em última análise propiciou a nossa independência da tacanha metrópole portuguesa. Estudar a história de Petrópolis, sem inseri-la no contexto fluminense e mesmo nacional, é erro de palmatória, do mesmo modo que a verdadeira história do Brasil somente será totalmente desvendada depois que as várias histórias regionais e locais forem esmiuçadas. É dessa integração que o Brasil surgirá num autêntico retrato de corpo inteiro. Vejamos, por exemplo, como deveria ser analisada a mudança ainda que por pouco tempo, da capital fluminense de Niterói para Petrópolis. As cidades portuguesas da América, foram em geral criadas ao longo da costa e sem intenções urbanísticas. Ao contrário, o colonizador espanhol interiorizou-se valendo-se de estritas normas de planificação urbana segundo as chamadas Leis de Índias. A idéia de uma capital brasileira no coração do país é anterior à chegada da Família Real a esta banda do Atlântico. Os ingleses já a haviam imaginado. José Bonifácio cantou a pedra no alvorecer da independência, mas durante todo o período monárquico o assunto dormiu o sono dos inocentes. A Constituição Federal de 1891, trouxe de novo o tema à luz do dia e, apesar de algumas investidas no rumo do planalto central e dos trabalhos iniciais do levantamento de uma área para a nova sede do governo brasileiro, levados a efeito por Luiz Cruls, ainda nos anos noventa do século passado, nada de concreto se efetivou. Mas a idéia empolgaria alguns arraiais progressistas, notadamente da ex província fluminense. Ainda no governo Portela, houve uma grande articulação para que a capital do novo Estado se interiorizasse e fosse construída à régua e compasso. Na raiz desse movimento estava a empolgação americanista vinda com a República e com ela o interesse por tudo que dissesse respeito aos nossos vizinhos hispano-americanos e mesmo aos norte americanos. Aqui mesmo em Petrópolis, a imprensa vivia a divulgar fatos da história e da cultura das jovens nações da América, fazendo, a Gazeta de Petrópolis, uma série de artigos sobre a capital do Peru, do Chile, da Argentina, da Colômbia, etc. Ao completar seis meses a frente dos destinos fluminenses, enquanto a República dava seus primeiros e incertos passos, o governador Francisco Portela, de olho nos […] Read More

THE JOURNEY OF THE ROYAL FAMILY TO BRAZIL, 1807-1808

  Next November we will be celebrating the 194th anniversary of one of the most important events in Luso-Brazilian History: the voyage of the Prince Regent d. João, his court, and all those that found room in one of the 36 ships that sailed to Brazil. Perhaps a total of some 12.000 to 15.000 Portuguese. The wise decision of this great statesman, that was d. João, had positive results for Portugal, Brazil and England. Only France was to lament the event. Contrary to what happened to other countries conquered by Bonaparte, this decision would save the very essence of the Portuguese nation- her royal family and court – the royal family survived unscathed, maintained their kingdom and even prospered in their rich colony. The presence of the Portuguese monarchy in Brazil accelerated her development; once the kingdom of Portugal, Algarves and Brazil had been created, in 1815, independence would become inevitable. England, after several months of blockading the Tagus, would attack the French troops on Portuguese territory and, after defeating them, would continue until the final battle that took place at Waterloo. The opening of Brazilian ports by d. João, soon after his arrival at Salvador, would bring substantial benefits to that country. Due to the lack of documentation, details of this important voyage were, until recently, totally unknown. Now all this has changed, following the discovery in the Public Records Office, in London, of the log books of all those ships that blockaded the Tagus during November 1807 and those that escorted the Portuguese fleet on its journey. Also found where the reports of the captains of these ships. These log books, many times written during severe storms at sea, reflect the English language in use at that time and the unique colloquialism used by the British Navy. The task of unravelling their contents took five years and, even though slanted towards events that occurred to the British ships, they are practically the only detailed documentation that has survived. In 1995, on completing this research, I arranged to have it published. Copies can be found in libraries, universities, including the Universidade Nova de Lisboa, and museums in Portugal, Brazil, United States, England and Spain; specially in those centres where Luso-Brasilian History is studied. In 1807, with the exception of England, France had managed to defeated all her enemies. France had been frustrated in her attempt to invade England as, […] Read More

REVITALIZAÇÃO DA PRAÇA DA INCONFIDÊNCIA EVOCA A LEMBRANÇA DA PRIMITIVA CAPELA DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO (A)

A REVITALIZAÇÃO DA PRAÇA DA INCONFIDÊNCIA EVOCA A LEMBRANÇA DA PRIMITIVA CAPELA DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO Jeronymo Ferreira Alves Netto, Associado Titular, Cadeira n.º 15 – Patrono Frei Estanislau Schaette Petrópolis vive um momento muito especial com o Plano de Revitalização do Centro Histórico, desenvolvido pela Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Econômico do Município. Um marco na história de Petrópolis. Assim pode ser definido o referido Plano que já nos entregou a praça Dom Pedro e a Praça da Inconfidência inteiramente restauradas, o que demonstra que o Poder Público, na área municipal, felizmente, tem procurado resgatar nosso passado histórico. Isto é deveras elogiável e digno de registro, demonstrando maturidade e grandeza, que não podem passar despercebidas, merecendo o reconhecimento, a admiração e o registro, para conhecimento e gratidão da atual e das futuras gerações. Assim, obteve a melhor repercussão possível, em toda a cidade e fora dela, a entrega, pelo Governo Municipal, da histórica Praça da Inconfidência, que viu nascer em l883, fruto do espírito religioso de nossa gente, a Primitiva Capela de Nossa Senhora do Rosário. Nasceu a referida Capela da aspiração de um brasileiro notável e do esforço dos escravos negros, por ele libertados, como um oferecimento à mãe de Deus, como uma memória de reconhecimento, como uma oferta de sacrifício em pecúnia. O Conselheiro Joaquim Firmino Pereira Jorge, residente em nossa cidade, à rua da Imperatriz, desembargador aposentado, cavalheiro da ordem de Cristo e oficial da Ordem da Rosa, católico fervoroso, foi a seu tempo o grande apóstolo da causa abolicionista. Homem prático, dotado de grande tirocínio, ao libertar seus escravos, muito antes da Lei Àurea, logo se deu conta das dificuldades que estes encontrariam para se incorporar ao trabalho livre. Destarte, incluiu em seu testamento um cláusula que dispunha que seus escravos libertos “receberiam apólices da dívida pública federal, em uso fruto, passando esses títulos, por morte dos beneficiados, em plena propriedade, à Capela do Rosário”¹ O Conselheiro Joaquim Firmino cedeu 22 braças, das 66 de um terreno que possuía na rua Visconde do Bom Retiro, hoje Floriano Peixoto, para construção da Capela de Nossa Senhora do Rosário e ainda determinou em testamento, segundo nos informa Fróes que “caso após o falecimento de sua esposa, Dona Domitilla Francisca de Abreu Pereira Jorge não houvesse disposto das 44 braças restantes do terreno, passariam as mesmas a pertencer à Igreja…”² Foi a Capela inaugurada no dia 3 […] Read More

GUAPIMIRIM

  GUAPIMIRIM Antônio Izaías da Costa Abreu, Associado Titular, cadeira nº 3 DISTRITOS: Guapimirim ( distrito único ) EMANCIPAÇÃO: Lei n.º 1772, de 21 de dezembro de 1990 INSTALAÇÃO: 01 de janeiro de 1993. O município de Guapimirim criado pela lei n.º 1772, de 21 de dezembro de 1990, teve seu território desmembrado do município de Magé no qual figurava como 3.º distrito. A área foi habitada até meados do século XVII, como a de todo o recôncavo guanabarino, pelos tamoios, quando estes não mais podendo sustentar luta com os desbravadores foram-se retirando para o sul da capitania. O lastro exploratório da região verificou-se com a concessão de sesmarias após a expulsão dos franceses do Rio de Janeiro. Em cada uma delas a demonstração de cristandade e fé do sesmeiro se fazia através do levantamento de capela ao culto do santo de sua devoção. Assim é o caso da igreja de N. S.ª de Guapimirim. Sobre a sua fundação diz Monsenhor Pizzarro: “Em outra ermida dedicada a N. S.ª da Ajuda pelos fundadores Pedro Gago e seu irmão Estevão Gago, no distrito que do nome do rio próximo se conhece como o de Cernambytyba ou Saranabitiba, foi criada a paróquia denominada Aguapeí-Mirim desmembrando-se da freguesia de Santo Antônio de Sá o território que se adjudicou e nenhuma dúvida a respeito da sua antiguidade antes de 1674, por existirem datada na mesma Era as Constituições ali deixadas pelo prelado Silveira, depois da sua visita geral da Diocese, para bom governo e direção dos capitães curados”. ( In: “MEMÓRIAS HISTÓRICAS DO RIO DE JANEIRO”, v.3, p. 202/202v – Ed. Impremsa Nacional – 1945 ). Decadente esse templo substitui-lhe como matriz o de N. S.ª da Conceição, distante ¾ de légua o qual fora levantado em 1713, pelo Padre Antônio Vaz Tavares, até Antônio Pacheco Barreto doar outeiro chamado de Ingranamixamas, perto do rio Aguapeí-Mirim, conforme escritura pública de 12 de novembro de 1729, fls. 119 do livro 2 de Batismo e Óbito, e que deu início à construção de um novo templo com paredes permanentes de pedra e cal, concluída em dezembro de 1753. Foi numerada entre as igrejas firmes pelo Alvará de 15 de janeiro de 1755, sevindo como primeiro pároco o padre Antônio Ribeiro Rangel. Tinha por filiais as capelas de Sant`Ana, fundada em “Calundu” por Gaspar da Silva Borges, com provisão de 24 de julho de 1730; N. S.ª […] Read More

MAGÉ

  MAGÉ Antônio Izaías da Costa Abreu, Associado Titular, cadeira nº 3 DISTRITOS: Magé ( 1.º – sede ); Santo Aleixo ( 2.º); Suruí ( 3.º ); Guia de Pacobaíba ( 4.º ); Inhomirim ( 5.º ). EMANCIPAÇÃO: 07 de junho de 1789 INSTALAÇÃO: 12 de junho de 1789 ELEVAÇÃO A CIDADE: 02 de outubro de 1857 A origem do desbravamento do município de Magé data dos primórdios da colonização, quando, em 07 setembro de 1565 após a expulsão dos franceses do Rio de Janeiro, pelo reconhecimento dos relevantes serviços prestados na defesa da cidade, Simão da Mota é agraciado por Mem de Sá com uma sesmaria “com 600 braças de terra ao longo da água de 1000 braças pela terra adentro no rio Magé”. Simão da Mota ao tomar posse da gleba, escolheu para local de sua moradia o “Morro da Piedade”, próximo ao litoral. Contudo, talvez por segurança e melhor tamanho da terra, ali pouco permaneceu, mudando-se depois para o sítio denominado “Magé-mirim”, onde procurou erigir uma capela, sob a invocação de N. S.ª da Piedade, sendo esta no século seguinte convertida em matriz, pelo Alvará de 18 de janeiro de 1696. Com o aumento da população, novo templo é construído no mesmo local, desaparecendo assim o primitivo. É a origem da cidade de Magé. Região infestada pelos bravios tamoios ( alguns autores mencionam os timbiras, o que, não é correto, pois esses silvícolas jamais habitaram as terras na Capitania do Rio de Janeiro, e sim o Baixo-Mearim, no Estado do Maranhão ), não mais podendo estes sustentar lutas com os desbravadores, retiraram-se sem alternativa para o sul da Capitania. Já em meados do século XVII, por volta de 1643, outros colonos estabeleceram-se no lugar denominado “Pacobaíba”, atual “Mauá”; e, ali, num pequeno outeiro, um deles de nome Gaspar da Costa, para satisfazer sua devoção e para contemplação de uma Irmã chamada Margarida de Lima , constrói uma igreja, dedicando-a ao culto de Santa Margarida. Arruinado o templo, outro é erigido sob a invocação de N. S.ª da Guia, que é elevada à Paróquia no ano de 1647, somente alcançado a perpetuidade cento e oito anos mais tarde, pelo Alvará de 14 de dezembro de 1755; figurou como primeiro pároco; próprio o padre Antônio Ferreira. Tinha a Paróquia de N. S.ª da Guia de Pacobaíba; a Capela de N. Sª dos Remédios erecta em Mauá com provisão de […] Read More

BARTHOLOMEO PEREIRA SUDRÉ, O PAI DA IMPRENSA PETROPOLITANA

  O jornalista, escritor, professor de História e Geografia, Paulo Monte, em seu discurso de posse na Associação de Ciências e Letras, a hoje Academia Petropolitana de Letras, na tarde de domingo, 26 de julho de 1925, homenageando a figura notável de Franklin Távora, disse sobre a profissão de jornalista: “…A vida do jornalista é a mais singular, a mais interessante, a mais penosa e acidentada, a mais trabalhosa e enervante, a menos compensadora, a mais caluniada e a mais ingrata. O jornalista é, ao mesmo tempo, o indivíduo mais querido e o mais odiado. Todos o cortejam, porque é a vaidade que amolece a espinha dos cortejadores. O jornalista pode amanhã elevar a mediocridade a galarim da fama e pode, a poder de golpes de pena, sugestionando o público, sempre pronto a acreditar no que dizem os jornais, arrastar na sarjeta das vias o papo pando de um magnata. O jornal pode não arrancar os ídolos de seus pedestais, porém arranha bem fundo a glória dos semideuses. O jornalista é o homem rico de adjetivos. O seu segredo está, porém, em não desperdiçá-los. O jornal é um vício. Quem nele se inicia, jamais o abandona…” Nos primeiros tempos de nossa Petrópolis, naqueles dias de incertezas quanto ao destino da povoação, com a política provincial fervilhante de ações desrespeitantes do desejo maior do nascente povo, que era crescer a povoação para elevá-la à condições políticas condizentes com sua importância histórica de eleita do Imperador, a falta de comunicação entre o centro, os quarteirões e a própria Corte, exigiam a criação de um veículo informativo que noticiasse o que andava acontecendo e que, na mesma oportunidade, iniciasse a luta por melhores condições de vida. Eis que chega ao povoado um ilhéu da Madeira, filho de José Pereira Sudré e Maria Cândida Sudré. Dizia-se que havia nascido na Bahia e a especulação está por definir, ainda, nos meandros da documentação histórica, a verdade. Da Madeira, em Portugal, da Bahia, no Brasil, o que importa? Era um futuro e denodado petropolitano honorário que vinha para conquistar o respeito e a admiração do povoado. Seu nome de batismo: Bartholomeo Pereira Sudré. Nascera a 24 de agosto de 1825, a Petrópolis chegando na faixa de 30 anos de idade, jovem de cabeça coalhada de sonhos e sob o propósito de continuar exercendo o mister de jornalista, como o fizera em jornais da Corte e em […] Read More

TREZENTOS ANOS DE PEDÁGIO ENTRE RIO E MINAS

TREZENTOS ANOS DE PEDÁGIO ENTRE RIO E MINAS Francisco José Ribeiro de Vasconcellos, Associado Emérito, ex-Titular da Cadeira n.º 37 – Patrono Sílvio Júlio de Albuquerque Lima O Brasil nasceu, cresceu e se desenvolveu no salve-se quem puder, na improvisação, no engatilhamento, dando nó em pingo de éter. Vem da colônia o descaso do poder público pelo quotidiano e pelas necessidades do povo brasileiro. Somos o que somos graças à iniciativa privada, ao espírito aventureiro e sempre otimista de quantos se lançaram à incerteza das lavouras, dos garimpos, das tropas, das boiadas, das indústrias, numa terra de escravos, de mão de obra desqualificada, de precária ou mesmo inexistente comunicação interna, de baixo nível de consumo e de sanguessugas oficiais. À Metrópole só interessavam as vantagens que lhe podiam advir do fechado e monopolizador sistema colonial. Dos ônus, nem queria ouvir falar, muito menos de investimentos nos seus vastos domínios nesta banda do Atlântico. A doença ficou e tornou-se crônica, chegando com toda a força aos nosso dias. Até a Independência, vivíamos a remeter à Lisbôa o produto do nosso esforço, para sustentar o ócio e o parasitarismo de uma nobreza já decadente e a glutonice da raposa Albion. Durante o antigo regime, cada vez que se criava um município, a lei que o erigia como tal, obrigava a população da nova comuna a construir à sua custa as casas da Câmara e da Cadeia. E já agora, em pleno regime republicano, as prefeituras, como a de Petrópolis, por exemplo, não põe um tijolo em qualquer loteamento que se pretenda fazer, mas não deixam depois de comparecer para arrecadar o IPTU, sobre um investimento no que concerne à implantação do projeto, de que não participaram. Assim, voltando aos tempos coloniais, nenhum caminho, nenhuma ponte, nenhum canal veio a furo no Brasil, que não fosse através do sacrifício e do desgaste financeiro de particulares. Quando, na virada do século XVII .para o XVIII, Garcia Rodrigues Paes tornou possível a ligação do Rio de Janeiro com as minas dos cataguás, pelos vales do Paraíba e do Paraibuna, não havia naquele cometimento um tostão despendido pela coroa. Tudo que alí fora feito saíra do bolso do filho de Fernão Dias, inclusive no concernente à mão de obra escrava e livre. Num documento oficial saido das mãos do Governador do Rio de Janeiro, Artur de Sá Menezes, datado de 6 de outubro de 1699, lê-se que […] Read More

REVELAÇÃO DE UM PATRIMÔNIO CULTURAL (A)

A REVELAÇÃO DE UM PATRIMÔNIO CULTURAL Francisco José Ribeiro de Vasconcellos, Associado Emérito, ex-Titular da Cadeira n.º 37 – Patrono Sílvio Júlio de Albuquerque Lima Há certas incoerências e alguns paradoxos brasileiros, que longe de merecerem a crítica, a sátira ou a reprovação dos que os detectam, precisam ser valorizados como provas incontestáveis de nossa índole ecumênica, de nossa alma aberta aos povos, às crenças, às doutrinas e aos movimentos mais variados. As radicalizações, as xenofobias, os sectarismos e jacobinismos, foram sempre entre nós elementos circunstanciais e efêmeros, provocados por exaltações momentâneas conforme a maré e os ventos da política e dos costumes, quer no plano interno, quer no que concerne à conjuntura internacional. Não aprendemos a cavar fossos, abismos, precipícios, por questões de ordem étnica, racial, religiosa, social, ideológica. Edgar Hans Brunner, com a sua extraordinária visão do mundo, afirma que o Brasil é talvez o país mais tolerante que ele conhece. D. Pedro II, num momento de exaltação e de nervos à flor da pele, foi banido do país em 1889, mas vinte e um anos depois, aqui em Petrópolis, era homenageado em praça pública, quando da inauguração do monumento a ele dedicado. E o mesmo pano que protegeu a estátua do Marechal Floriano, antes de ser ela exposta aos olhos do povo, serviu para cobrir o velho Imperador, à véspera de sua entronização em bronze na cidade que carrega o seu nome. Mas Petrópolis registra outras curiosidades, que confirmam essa nossa tendência a misturar alhos com bugalhos: A rua Marechal Deodoro, desemboca na rua do Imperador; a rua Nilo Peçanha (republicano roxo) começa na Praça D. Pedro e termina na rua Barão de Tefé; e o Palácio Amarelo, símbolo do poder na República, está diante do antigo Palácio Imperial, hoje Museu. E para arrematar, Petrópolis é a única cidade do Brasil e das Américas a receber da República o título de Imperial. O Recife, tradicional baluarte republicano brasileiro, com suas memoráveis revoluções de 1817, 1824 e com a famosa Praieira, nunca admitiu que banissem de seus logradouros os nomes que lembram a monarquia, mantendo até hoje o Palácio das Princesas e o Testro Santa Isabel, como símbolos do antigo regime. E a republicaníssima cidade paulista de Itú, montou o Museu Republicano Convenção de Itú, em plena rua Barão de Itaim. Cheguei finalmente ao motivo desta matéria. Poucas comunas brasileiras retratam ao longo de sua história a nossa […] Read More

TERTÚLIAS DE HUMBERTO DE CAMPOS E MANOEL BONFIM EM CORRÊAS

  Corrêas, janeiro de 1928. No Hotel D. Pedro, instalado no velho casarão do Padre Corrêa, dois grandes intelectuais brasileiros, estão alí hospedados em busca de tranqüilidade e refrigério. São eles, o maranhense Humberto de Campos, membro da Academia Brasileira de Letras, dono de enorme bagagem literária e o sergipano Manoel José Bonfim, historiador, pedagogo e sociólogo, com incursões pelo americanismo e pelas raízes nacionais. Corrêas dos anos vinte, não era o arrabalde pretencioso e acanalhado de hoje, onde pedestres e veículos de toda a espécie disputam a exiguidade dos logradouros e a única ponte que liga a povoação à estrada União Indústria. Em 1928, aquilo era um lugar de repouso e de cura, com suas chácaras aprazíveis, seu comércio modesto, sua população rarefeita, seu silêncio profundo, apenas cortado pelo ruido do trem do Norte, que ligava Petrópolis a Três Rios e a São José do Rio Preto. Antonio Machado, que fora comerciante de fumo no Rio de Janeiro, estabelecera na estrada setecentista do Padre Antonio Thomaz de Aquino Corrêa, o hotel D. Pedro, que depois transformar-se-ia em sanatório, dada a grande procura do clima de Corrêas pelos tuberculosos, sempre esperançosos de cura, numa época em que esta somente se operava por milagre. Pois foi justamente nesse hotel D. Pedro, que Humberto de Campos e Manoel Bonfim, trocaram figurinhas nos dias 16 e 17 de janeiro de 1928. Humberto Campos, nascido no Maranhão em 1886, era já autor consagrado, com vasta bibliografia dos contos humorísticos à crítica literária. Ademais, ele era dado a registrar suas memórias, genêro aliás que o haveria de consagrar post mortem, com a divulgação do seu “Diário Secreto”. Foi na primeira série de sua “Crítica”, livro de 1933, que encontrei o registro de sua tertúlia com Manuel Bonfim, na aprazibilidade coreense, num ensaio sob o título “Nossa Formação Étnica”. E Humberto Campos começa assim o seu discurso: “Consultando o meu diário inédito, relativo ao ano de 1928, encontro essas anotações: Segunda feira, 16 de janeiro – Entre os hóspedes do hotel ( Hotel D. Pedro em Corrêas), um há tão bisonho quanto eu, mas que toma a iniciativa de aproximar-se de mim. É Manuel Bonfim, sociólogo e historiador, autor d’América Latina, obra cuja documentação histórica me espantou, quando há vinte e dois anos, adolescente ainda, alí no interior do Ceará. Humberto de Campos passa então a descrever o pedagogo e historiador sergipano, nascido em Aracajú em […] Read More

MORTE DO SÍTIO (A)

A MORTE DO SÍTIO Francisco de Vasconcellos, Associado Emérito, ex-Titular da Cadeira n.º 37 – Patrono Sílvio Júlio de Albuquerque Lima   De Petrópolis a Barbacena, somos todos tributários do Caminho Novo, elos dessa mesma corrente que há mais de duzentos anos nos une de maneira total e irreversível. Lamentavelmente, entretanto, essa linha mestra que nos aglutina a todos, não tem merecido, da parte dos pesquisadores e estudiosos, a atenção que merece. É pequena ainda a bibliografia referente a tão instigante tema. Não querem, os que pensam insuladamente, extrapolar os limites de seu quintal e consideram mesmo, desperdício de tempo e de espaço em jornais e livros, qualquer tipo de elaboração de caráter mais abrangente, abarcante, ecumênico. A cultura não é municipal, mas universal com cheiros, sabores, contornos, regionais. Faz parte – propus num dos números da revista do I.H.P. – o estudo integrado, sistemático e metódico das histórias de Petrópolis e de Juiz de Fora, tendo reiterado a proposta quando do Colóquio comemorativo do sesquicentenário da colonização germânica nestas serras, em junho/julho de 1995. Agora, um tema novo se nos apresenta, tema nacional, que tem origem em Santa Catarina, passa pelo Rio de Janeiro, para eclipsar-se nos arredores de Barbacena, o que poderia ter ocorrido em Corrêas, também reduto de tuberculosos, quando clima, cama e comida eram a base do tratamento. Mas Corrêas não tinha ainda um sanatório na verdadeira expressão do termo, quando se deram os fatos a serem aqui esmiuçados. O isolamento perfeito estava, então, numa das dobras da Mantiqueira, a cerca de 10kms de Barbacena, na direção da história Borda do Campo. E foi para lá que viajou em desespero de causa o poeta e escritor catarinense João da Cruz e Souza, das maiores expressões do simbolismo brasileiro, morto no Sítio, à época município de Barbacena, aos 19 de março de 1898. Tinha apenas 36 anos, já que completaria 37 anos aos 24 de novembro daquele ano. Seus biógrafos, ao tratarem do local de seu passamento, apenas mencionavam Sítio, sem entrar em maiores detalhes. Fustigado pelo vírus investigatório, vali-me do Dicionário Histórico – Geográfico de Minas Gerais de Mestre Waldemar de Almeida Barbosa e alí encontrei no verbete correspondente ao local em epígrafe: SÍTIO – Ver Antonio Carlos E foi o que fiz. ANTONIO CARLOS – “O povoado e estação do Sítio fazia parte do distrito de Bias Fortes, município de Barbacena. A capela do Sítio […] Read More