ESTABELECIMENTO HIDROTERÁPICO

Thomás Cameron

Nota: “O Imperial Estabelecimento Hidroterápico funcionava à Rua de Nassau nº 8 (Av. Piabanha, 350). Foi instalado no prazo nº 648 do quarteirão Nassau, que pertencera, primitivamente, a João Meyer, conforme a planta de Petrópolis do major Koeler. Passou, posteriormente, a Bernardo José Falletti que o transferiu ao cidadão francês Antoine Court. Informa Alcindo Sodré (Centenário de Petrópolis – Trabalhos da Comissão, vol. VI, pág. 90) ali se praticava, com requinte hidroterápico, a ducha à la reine, ducha mitigada e ducha escocesa”.

O texto foi transcrito da obra rara “Os estabelecimentos úteis de Petrópolis” de Thomás Cameron, editada em Petrópolis, em 1870.

Raul Lopes

A hidroterapia ou método de tratamento que consiste em combater as moléstias pelo uso da água fria, conhecida em tôdas as épocas da história da medicina, foi desde 1828 posta em voga por um aldeão da Silésia, chamado V. Priessnitz, que morreu em 1851, e exercida por espaço de trinta anos em um estabelecimento fundado por êle em Graefenberg.

Mais tarde muitos estabelecimentos análogos ao de Graefenberg foram fundados na Prússia – em Marienberg, e em França – em Paris, Bellevue, Auteuil, Issy, Lyon, Dijon, Divonne, etc.

A respeito dêsse sistema muito escreveram Scouletten, Schedel, Gillebert-Dhercourt, e outros profissionais.

Reconhecida a hidroterapia como sistema que dava bons resultados em muitas enfermidades vulgarizou-se ela, de forma a caber-nos por nossa vez.

Mas para que mais eficaz seja o resultado e mais pronta a cura, é de necessidade que a escolha da água seja o primeiro cuidado do que tomar a si a criação do estabelecimento destinado a êsse fim.

Porque é da qualidade da água que depende a maior ou menor presteza na obtenção da cura – como já o têm dito os que do assunto se têm ocupado.

O sr. A. Court, cidadão francês, residente nesta cidade, encontrou aqui, na rua Nassau, um terreno – escabroso na verdade – mas que lhe oferecia uma excelente água com a altura suficiente, e além do mais com vantagem da localidade – a mais aprazível que se pode imaginar.

Outro que não êle, medindo a extensão do sacrifício e calculando os esforços de que teria de lançar mão para vencer as escabrosidades do terreno até poder edificar o importante estabelecimento que ali hoje se apresenta, de certo recuaria, considerando a emprêsa – não só dificílima – mas ainda – impossível de ser realizada.

Estava porém bem gravada no pensamento dêsse homem a máxima do imortal Franklin – todo aquêle que afirma ser possível conseguir-se qualquer cousa sem trabalho e sem fadiga é um envenenador.

Tendo diante de si um espaço de terra que, podendo ser útil, de nada servia, o sr. Court resolveu aproveitar-se daquela utilidade.

Começou a obra e foi trabalhando; e mais trabalhava quanto maior era o obstáculo a vencer.

Êle tinha visto outros estabelecimentos, do gênero daquêle que ideara, progredirem e darem não só lucro mas renome a seus instituidores, muitas vozes bendiziam os criadores dos mesmos estabelecimentos, grande era o número dos agradecidos ao serem êles visitados, e esta lembrança e aquela água que vinha de pedra em pedra, alvíssima e fria ainda sob o maior calor, como que o encorajavam no esfôrço, constituindo-se promessas de uma boa recompensa.

Principiado aos poucos, aumentado de dia para dia, melhorado, embelezado, chegou afinal o estabelecimento ao ponto em que se acha, não completo ainda – para o querer de seu proprietário – mas satisfazendo já a tôdas as necessidades.

Tanto assim é, que visitado por hábeis e ilustrados médicos, entre os quais podemos mencionar os srs. Drs. Rocha Lima, Furquim Werneck, Eiras, Sabóia, Pertence, Hilário de Gouveia, barão de Teresópolis, Carneiro Leão, Pedro Afonso, Felício dos Santos e barão de Maceió, tem o estabelecimento hidroterápico do sr. Court merecido as mais favoráveis opiniões.

Nós, que estamos afeitos a ver os hospitais quase que semelhantes às detenções e claustros, ficamos encantados de ver o modo por que ali pode ser distribuído o tempo que tem o doente a seu dispor e a distração que pode buscar naquele centro de vida beneficiado pela natureza, onde o ar que se respira é puro, o panorama que se estende à vista é majestoso e o domicílio, o lugar de descanso, confortável.

Não é um edifício acanhado, onde a custo se possa achar comodidade – é um vasto espaço ocupado metodicamente, com proporções para bem abrigar trinta pessoas e ali encontra-se o salão das duchas, propriamente dito, onde podem ser operadas cinqüenta aplicações por hora, graças às suas divisões, as asseiadas piscinas, o tanque de natação, os jardins pitorescamente distribuídos, finalmente – o remédio que minora e debela o mal e a distração que facilita a cura.

Ao simples exame daquele conjunto de dependências vê-se, a não admitir dúvida, que gênio criador presidiu ao trabalho; e que só uma inteligência muito desenvolvida o poderia imaginar e uma mão muitíssimo prática o traçou.

O sr. Court aproveitou-se indubitavelmente do estudo e do conhecimento visual, e conseguiu uma obra modêlo, convindo observarmos que, para o edifício mostrar-se ao fim de dois anos tal qual é, deve muito haver trabalhado o construtor e com muita perseverança e coragem.

No salão das duchas, ponto mais importante da casa, vemos a água descer por uma tôrre de quinze metros de altura, especialmente reservada para êsse fim e dando uma pressão de atmosfera e meia, vir fornecer alimento aos hidróferos, fabricados com suma perfeição no Rio de Janeiro e destinados a todos os curativos, por contar todos os principais aparelhos.

Nas piscinas vemos uma outra água, trazida também de altura igual e com as mesmas virtudes, sempre renovada por ser água nascente.

E isso revela da parte do sr. Court o maior escrúpulo e desejo de bem servir o público porque bastante difícil lhe foi alcançar êsse resultado fazendo caixas, desviando leitos, canalizando.

Tivemos ocasião de examinar minuciosamente êsse estabelecimento, e podemos afoutamente dizer que a menor de suas dependências não deixou de ser vista por nós.

Um médico que tivesse tomado a si a missão de criar aquêle estabelecimento não o teria melhor delineado, nem mais estritamente observado as regras da higiene e os preceitos determinados pela ciência.

É na verdade um capital bem empregado o que foi gasto na sua edificação e que pode ser calculado em quantia superior a 80:000$.

De certo se não arrependerá o sr. Court dêsse emprêgo de suas economias, porque infalivelmente auferirá em não demorado prazo as vantagens a que faz jus, e verá o seu estabelecimento – que já tem merecido as visitas da Augusta Família Imperial, da exma. Sra. baronesa do Catete e de quantas pessoas gradas e homens da ciência freqüentam esta cidade – poder prestar todos os serviços para que foi instituído, amortizando-se assim aquêle débito.

Desde que bem conhecido seja, único na sua posição, não lutando com outros que lhe façam concorrência, o estabelecimento hidroterápico de Petrópolis é um depósito inesgotável de benefícios para a humanidade e de recompensas para os esforços do seu criador.

A população da côrte e a de muitas léguas em derredor desta cidade deverão vir aqui buscar a saúde que lhes falte, e ao voltar a seus lares bendirão o nome do homem, que descobrindo aquela água salutar e reconhecendo-lhe o valor a soube aproveitar.

E o bendirão ainda – porque aqui terão achado um aplicador que observa as instruções do facultativo sem desviar-se uma linha do determinado nelas, uma casa onde nada falte ao seu bem-estar, uma temperatura sempre agradável, um ar puro a respirar, e finalmente a cidade de Petrópolis, com todos os seus atrativos e belezas naturais e artísticas.

Vindo para esta cidade de recreio, onde a vida desliza-se suavemente entre os elementos que lhe são indispensáveis, o visitante que aqui está não se pode julgar em um exílio, o doente que para aqui vier não se poderá dizer desenganado.

Foi firmando-se no conhecimento destas importantes vantagens, que o sr. Court montou o seu estabelecimento: será devido a elas que êle receberá a recompensa de seu labor.

Seja cada um visitante do estabelecimento hidroterápico de Petrópolis um pregoeiro da verdade, auxilie cada qual com o seu contingente ao infatigável iniciador; e prestarão um serviço relevante à sociedade, que se avantaja pelos esforços dos homens que sabem trabalhar e vivem não para si exclusivamente mas para todos em geral.

Por nossa parte louvamos a tenacidade do sr. Court, graças à qual podem os habitantes da côrte – em três e meia horas hoje – e os de Minas e S. Paulo – em menos de um dia de cômodo e agradável transporte – procurar nêsse sistema de tratamento o que lhe não deram outros de que tenham lançado mão.

Louvamos o sr. Court, a quem Petrópolis deve muito, porque êle, aqui levantou um edifício que lhe dá nomeada e valor – aproveitando-se da sua boa posição e ótimas condições higiênicas.