Verão de 1905. A República brasileira vivia os seus momentos cintilantes. Na Presidência do país, Francisco de Paula Rodrigues Alves; na direção da terra fluminense, Nilo Peçanha; à frente dos destinos do município de Petrópolis, o Dr. Arthur de Sá Earp.

Máquina azeitada em todos os níveis.

Aqui, esplendia a “saison” com mil atrações para entreter a sociedade adventícia em vilegiatura estival nestas serras.

Dois clubes disputavam a preferências das famílias abastadas, com prestígio social e político: o dos Diários e o Petrópolis, este com sede à então Av. XV de Novembro nº 134.

Pela segunda vez esta agremiação organizava mostra de pintura, reunindo na ocasião cerca de 150 obras, algumas delas de artistas renomados como Antonio Parreiras, Ângelo Agostini, Baptista da Costa, Henrique Bernardelli, Rodolfo Amoedo e outros.

A inauguração deu-se a 12 de março de 1905.

No dia 11, a Tribuna de Petrópolis, abria espaço para esta notícia:

“O Clube Petrópolis que a par dos gozos menores proporciona também aos seus sócios gozos de alta intelectualidade, inaugura amanhã uma brilhante exposição de pintura. Vão pois regorgitar de gente os salões do elegante clube, tão querido de nossa melhor sociedade.”

Apesar dessa propaganda e dos nomes envolvidos no evento, artistas na chamada crista da onda, os críticos de arte desta urbe, quiçá pouco afeitos ao “metier”, acabaram por prender-se a questões menores, dentro daquele universo de 150 obras expostas.

Nesse tempo, colaborava na Tribuna o professor João de Deus Filho, que vivera meteoricamente, pois havia nascido aqui em 1882 e morrido aos 19 de outubro de 1918, vítima do flagelo da gripe espanhola.

Docente do Colégio São Vicente de Paulo, escritor e jornalista, poeta e sobretudo cultor da língua, foi fundador de “O Cruzeiro” e redator d’ “A Cidade de Petrópolis”, do “Correio de Petrópolis” e do “Diário da Manhã”.

Foi também João de Deus Filho bibliotecário da nossa Biblioteca Municipal.

Meteu-se, entretanto, a crítico de arte e foi uma catástrofe.

Abusando da subjetividade, confundindo o verbo criticar, no sentido universal e elevado dele, com rebaixar, denegrir, apequenar, reduzir à expressão mais simples, falto dos condicionamentos técnicos indispensáveis à apreciação das obras que se expunham ao público naquele verão da Petrópolis belepoqueana, o jornalista acabou por produzir matéria bastante infeliz, quando na edição de 14 de março de 1905 da Tribuna de Petrópolis, deitou falação sobre o evento em pauta.

Perdeu espaço precioso com superficialidade e questões de menor interesse ao invés de ferir os temas que a exposição por si só exaltada, na medida em que trouxera para o salão “des beaux arts” petropolitano, pelas que estariam bem em qualquer mostra do mundo civilizado.

Preocupado com as proporções exageradas de um quadro de Antonio Luiz de Freitas – Omnia Vincit Amor – ou com a frutolândia de Augusto Petit, Luiz Ribeiro e Trajano Vaz, não disse uma palavra sobre as obras de Antonio Parreiras, Baptista da Costa, Henrique Bernardelli, Ângelo Agostini e Rodolfo Amoedo.

Com certeza a arte desses gigantes da pintura brasileira estaria fora do alcance da compreensão e da sensibilidade estética desse crítico “malgré lui”.

Recordemos algumas dessas personagens que fizeram a glória das artes plásticas nacionais no fim do século passado e no início deste, antes do abalo sísmico causado pela Semana de Arte Moderna de 1922.

Antonio Parreiras, fluminense de Niterói, onde nasceu a 21 de janeiro de 1861, pintou mais de mil telas e participou de sessenta exposições de pintura.

Funcionário da Companhia Leopoldina em Nova Friburgo abandonou o serviço burocrático e nada gratificante da estrada de ferro, para dedicar-se à sua arte na cidade natal.

Com sacrifício, juntamente com Arthur Alves Barbosa, que mais tarde seria diretor da Tribuna de Petrópolis, fundou em Niterói, mais especificamente no Colégio Briggere, um pequeno jornal, que ele mesmo ilustrava com desenhos bem significativos, que acabaram por fazer o sucesso da modesta folha.

Aluno do professor Grimm conseguiu viajar à Europa, onde cursou as academias de Paris, Roma, Bruxelas, Zurich e Berlim.

O talento de Parreiras encantou os salões de arte da capital francesa. Condecorado, laureado, acabou membro de um juri que funcionou no “salon des beaux arts” em plena efervescência do impressionismo francês.

De volta à pátria seguiu pintando a natureza e temas históricos. Não há Estado brasileiro que não tenha em algum palácio, pinacoteca ou coleção particular, uma tela de Antonio Parreiras.

“As Sertanejas”, pode ser considerada uma de suas obras primas.

Membro da Academia Fluminense de Letras, escreveu um livro autobiográfico – “História de um Pintor Contada por Ele Mesmo”.

Morreu em Niterói aos 76 anos de idade, a 17 de outubro de 1937.

Antonio Parreiras, era tio do Comandante Ary Parreiras, que governou o Estado do Rio nos tumultuados anos 30 e do Dr. Décio Parreiras professor da Faculdade Fluminense de Medicina.

Está sepultado no cemitério de Maruí.

Tal o artista que tinha quadros de sua lavra na 2ª Exposição de Pintura do Clube Petrópolis, que passaram desapercebidos aos olhos carentes de acuidade do “crítico” João de Deus Filho.

João Baptista da Costa, conhecido como “o pintor de Petrópolis”, era natural de Itaguaí, onde nasceu a 24 de novembro de 1865. De família modestíssima, fez seus primeiros estudos no Asilo dos Menores Desamparados, depois denominado Instituto João Alfredo.

Dono de reconhecido talento para a pintura, iniciou curso na Escola de Belas Artes em 1885, tendo sido aluno de J. Medeiros e Souza Lobo.

Desde 1906, havia se tornado professor de pintura. E, passou a diretor da Escola Nacional de Belas Artes em 1915, conservando-se no cargo até à morte ocasionada por uma síncope cardíaca, em 20 de abril de 1926. Tinha pouco mais de sessenta anos.

Foi laureado com o prêmio de viagem à Europa, em 1894 e com o prêmio de honra, em 1925 e 1926.

Tendo um xodó especial por Petrópolis e sendo especialista em paisagens, motivos tinha de sobra aqui para dar vasão ao seu gênio incomparável. Era visto freqüentemente pelos então bucólicos bairros desta urbe, buscando as melhores imagens para compor as suas obras.

Tantas credenciais não parecem ter motivado o “crítico” João de Deus Filho, que também passou ao largo das telas expostas por Baptista da Costa.

O aprendiz de expert preferiu grosseiramente investir contra artistas de importância discutível com palavras deste jaez:

“Os senhores Augusto Petit, Luiz Ribeiro e Trajano Vaz, conceberam a exposição do Clube Petrópolis apenas pelo lado mercenário; julgaram aquilo uma feira de quadros simplesmente e a ela concorreu com mangas e abacaxis, uvas e maçãs, melões e frutas de conde, cajus, laranjas, prato de frutas, prato de doces, mais abacaxi, mais melão, mais fruta de conde; só faltaram bananas e pepinos, tomates e nabiças para a montagem de toda uma quitanda. Soberbo! Nunca morri d’amores pelo gênero de pintura a que os profissionais denominam “natureza morta”; ele é já de si d’uma inferioridade a toda prova e os snrs. Petit, Vaz e Ribeiro, com a mediocridade da produção dos seus espécimes expostos, concorreriam e não pouco, para a tornarem detestável. De fato a gente olha as mangas do snr. Petit, sem sentir irresistível desejo de as adentrar; e os seus abacaxis, os seus melões, os seus cajus, não têm a expressão da realidade que é indispensável em tal gênero de pintura.”

Não foi muito diferente a reportagem levada a efeito por alguém que se escondia sob o pseudômino de Horacius, publicada na edição de 15 de março de 1905 da Gazeta Fluminense, vejamos algumas gracinhas do crítico de ocasião:

“Apreciamos também os pequenos trabalhos do snr. Salvador Parlagreco.

Bem feitinhos, não há dúvida, mas é pena que estejam tão mal emoldurados.

O snr. Parlagreco no afã de redourar as velhíssimas molduras, que cingem suas telas, chegou a sujar com ouro japonês os seus trabalhos.”

Parece comentário de comadres fofoqueiras, falando da maquilagem de alguma amiga e acabando por valorizar mais o continente que o conteúdo.

E logo a seguir:

“Lá vimos o quadro de maiores proporções que possui a exposição e que tem o título “Omnia Vincit Amor”, do snr. A. Luiz de Freitas que, segundo nos disseram, era um dos melhores.

Não foi, entretanto, muito lisonjeira a nossa impressão.

As figuras que traduzem regularmente um idílio no campo, não estão más, porem a paisagem é ruim; as montanhas são péssimas; dão-nos idéia de morros de pano que costumam fazer no fundo dos presepes pelas igrejas”.

Mas, apesar da pobreza desses comentários, o misterioso Horacius conseguiu enxergar entre uma centena e meia de quadros, as telas de Baptista da Costa e de Papf, “A Morte do Pastor” e “Ovelha Ferida” de Antonio Parreiras, “Caça de Paca” de Ângelo Agostini e alguns outros trabalhos, que de resto foram disputados pelos colecionadores, segundo relação do próprio Horacius publicada na edição de 17 de março de 1905 da Gazeta Fluminense.