Não esqueço o encontro daquela tarde. Meu pai e eu fomos à casa de Gabriel Kopke Fróes, conforme especialmente combinado. A amizade que nos unia vinha de longe, de gerações. Na saleta, sentados junto à janela, com D. Hilda sempre o máximo em gentileza circulando por perto, realizamos algo que aos meus olhos se desenrolou em dimensões vitais.

Fróes foi um colecionador persistente e meticuloso. No correr de longos anos, juntou todas as informações que levantou em sua cuidadosa pesquisa diária, principalmente sobre Petrópolis. O trabalho de sua vida, a melhor parte do trabalho, a voluntariamente escolhida, estava ali naquela sala, diante de nós, materializado em caixas com fichas, pastas, cadernos, amarrados, exemplares de publicações.

A doença não mais lhe permitia manter em ordem os papéis, controlar a disposição física e o conteúdo do que criara. Seus arquivos escaparam do esquema adotado, fugiram-lhe das trêmulas mãos e da atenção já cansada.

Com olhar provocativo e sorriso disfarçado, repetindo uma de suas características expressões fisionômicas de simpatia e brincadeira, indagou:

– Nelson, você acha que ele vai tratar bem de tudo isto?

O médico e amigo respondeu com outro gracejo.

Recebi, então, o acervo. Fróes me disse:

– Sirva-se deste material. Espero que ele seja útil aos seus estudos.

Senti, em uma atmosfera densa de silenciosa emoção, como se o admirado amigo me estivesse entregando a alma. Percebi nos seus olhos, no breve gesto, um indefinido ar entre aliviado e aflito.

Nos poucos meses que se seguiram até a morte de Fróes em Teresópolis, não tive tempo de conhecer suficientemente a sua obra para colher as explicações necessárias à restauração da organização que ele julgara ideal para os dados que pacientemente reuniu.

Entendi sempre, desde aquela tarde, que não me cabia usufruir sozinho da preciosidade que me chegara às mãos. Decidi logo no primeiro instante que o meu empenho seria o de, reconstituídos os arquivos, colocá-los à disposição de todos. Que assim servissem ao maior número possível de pessoas, na exata grandeza de espírito de quem os produzira.

Levei muito tempo para descobrir a chave que me permitisse caminhar no sentido da recuperação do perdido esquema elaborado e observado por Fróes. Hoje já foi alcançado o estágio que a todos possibilita a consulta do que me foi transmitido. O trabalho está longe de ser concluído, nos termos em que o projetei. Mas desde agora qualquer interessado pode ter diante de si, pelos meios da informática, a transcrição dos originais que me foram confiados, em reprodução totalmente fiel, até nos enganos e falhas, salvo as ainda não apuradas imperfeições de cópia.

O intercâmbio que se estabelecer com os pesquisadores a partir de tal apresentação por certo levará a se atingir meta melhor que a sonhada.

À minha querida esposa Gilda devo a inspiração das medidas práticas que determinaram o início efetivo da execução do plano.

Às minhas auxiliares Luciana da Silva Morais, em um primeiro período, e Adriana Torres, a seguir, atualmente e espero que até o fim, agradeço a cotidiana dedicação à concretização do que imaginei e a participação inteligente e constante no aperfeiçoamento das linhas mestras da empreitada que me impus.

Permita-se repetir que Gabriel Kopke Fróes pesquisou dados e os colecionou, especialmente sobre Petrópolis, a vida inteira. Elaborou trabalhos com eles e forneceu elementos para a produção alheia.

É um historiador, um pesquisador, um colecionador? Não importa a classificação. A verdade é que a História de Petrópolis não pode existir sem ele, não pode prescindir dele, não se faz sem a sua contribuição, não pode ser conhecida sem a leitura dos informes que reuniu e dos trabalhos que escreveu.

A parte do acervo já objeto da primeira etapa de tratamento abarca mais de dez mil e quinhentas peças. A impressão delas daria mais de três mil e seiscentas páginas.

Um conjunto de informações como este está longe de ser desprezível. Qualquer pessoa pode hoje consultá-lo, via Internet, no endereço www.earp.arthur.nom.br .

Agradeço também a todos que ajudaram a construir esta realidade. A página está começando e há muito a complementar e aperfeiçoar. É um excelente meio de pesquisa e, parece-me, pioneiro em Petrópolis.