BRASILEIROS ILUSTRES EM PETRÓPOLIS

Jeronymo Ferreira Alves Netto

HEITOR DA SILVA COSTA

Nasceu na cidade do Rio de Janeiro, a 25 de julho de 1873, sendo seus pais o Jurisconsulto e Conselheiro do Império, Dr. José da Silva Costa e D. Elisa Guimarães da Silva Costa.

O Conselheiro José da Silva Costa, pai de Heitor da Silva Costa, um devotado amigo de Petrópolis, conforme depoimento do pesquisador Antônio Machado: “Petrópolis deve à memória do Conselheiro Silva Costa um preito de reconhecimento pelo amor que votava e predileção que tinha pela cidade que viu formar-se: regozijava-se em vê-la prosperar, testemunha que fora de seu progresso por nela residir uma boa parte do ano, desde 1868, e onde terminou seus dias, em 1923, cercado de geral estima e veneração” (1).

(1) MACHADO, Antônio. Centenário de Petrópolis. Trabalhos em Comissão. Prefeitura Municipal de Petrópolis, 1938, vol. I, p. 314.

Fez seus estudos iniciais no Colégio Abílio (1881-1886) e, posteriormente, no Colégio São Pedro de Alcântara (1886-1889), no Rio de Janeiro. Após ter completado o Curso de Humanidades, matriculou-se na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, concluindo o curso de Engenharia Civil, em 1897. No ano seguinte completou o curso de Engenharia Industrial.

Foi casado com D. Maria Georgina Leitão da Cunha da Silva Costa, com quem teve três filhos: Maria Elisa, Paulo César e Carlos Cláudio. Era presença obrigatória em Petrópolis, quer hospedando-se na residência de seu irmão Otávio da Silva Costa, Superintendente da Fazenda Imperial, quer residindo no apartamento que possuiu no Edifício Normando.

Em agosto de 1914, ingressou como professor na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, lecionando Trabalhos Gráficos de Construção e Hidráulica, a convite do professor Dr. Nerval de Gouvêa, então diretor da Escola. Foi também professor de religião na Escola Paulo de Frontin.

Trabalhador incansável construiu o renomado engenheiro numerosos edifícios no Rio de Janeiro e no interior do país, dedicando-se particularmente à arte sacra, igrejas e monumentos religiosos oficiais. Foram suas principais obras: monumento fúnebre ao barão do Rio Branco; monumento ao Imperador D. Pedro II, na Quinta da Boa Vista; monumento a Pasteur, na avenida do mesmo nome; os monumentos ao Cristo Redentor nas cidades de São João Del Rei e no alto do Corcovado no Rio de Janeiro; prédio do Colégio Sion em Campanha; projeto de uma fachada para o Jornal do Comércio no Rio de Janeiro e um grande número de prédios nas principais ruas e avenidas desta cidade.

A construção do monumento ao Cristo Redentor, no pico do Corcovado, que domina a cidade do Rio de Janeiro, considerado uma magnífica obra de engenharia e de embelezamento da referida cidade, levou o Conselho Diretor do Clube de Engenharia a conceder a Heitor da Silva Costa o “Prêmio Paulo de Frontin”, instituído pelo notável engenheiro João Teixeira Soares, para ser concedido, de cinco em cinco anos, à obra que mais tiver concorrido para o melhoramento ou embelezamento da cidade do Rio de Janeiro.

Em Petrópolis, foi o responsável pela construção da Vila Itararé, da Catedral São Pedro de Alcântara, da Capela do Colégio Notre Dame de Sion e do Trono de Fátima, obras que comprovam sua proficiência técnica e sua probidade como profissional.

Estudou um projeto, elaborado por John Oberg, para a construção de um palacete na Avenida Koeler, modificando-o para adaptá-lo às condições do terreno.

Iniciou a construção do palacete conhecido como Vila Itararé, em 1902, só concluindo-o em 1904, pois conforme ele mesmo explica, “o largo tempo, cerca de 18 meses, empregado na sua construção foi devido à natureza do terreno, que exigiu fundações especiais e aos cuidados com a sua decoração interior” (2).

(2) SILVA COSTA, Heitor da. Memórias Justificativas de Trabalhos Gráficos Apresentados à Congregação da Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 1918, p. 8.

A Capela Notre Dame de Sion de Petrópolis, projetada em 1913, foi construída a partir de 1914. Sua planta, afirma Silva Costa, “foi inspirada na Capela de Sion de Paris. Possui uma nave central e duas colaterais… O coro é de forma semicircular… A capela, em suas linhas de estrutura e ornamentação, apresenta um estilo renascentista… A parte mais interessante de sua construção é constituída pelas abóbadas e pelos grandes arcos” (3).

(3) SILVA COSTA, Heitor da. Memórias Justificativas de Trabalhos Gráficos Apresentados à Congregação da Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 1918, p.27.

O monumento a Nossa Senhora de Fátima em Petrópolis, idealizado por Frei João José Pedreira de Castro, diretor espiritual da Congregação Mariana da Anunciação, notável escritor, poeta e tradutor, nascido em Petrópolis, em 1896 e falecido em São Paulo, em 1962, foi um dos projetos mais notáveis de Silva Costa, que assim o explica: “Nossa Senhora, única, ao centro do círculo da base do monumento, para ela tudo converge; três degraus em seu redor, formando cada um deles um terço e os três em conjunto o Rosário; cinco colunetas douradas como suporte da imagem, recordando as cinco chagas de Cristo, os cinco mistérios de Nossa Senhora; sete colunas envolvendo-a, sustentando a cúpula, a formar-lhe como majestosa coroa” (4).

(4) SILVA COSTA, Heitor da. Monumento a Nossa Senhora de Fátima em Petrópolis. In: Revista Vozes de Petrópolis, vol. 4, setembro/outubro de 1946, p. 678.

O monumento tem 14 metros de altura, sendo que na parte inferior do Trono existe uma Capela com um altar e as imagens de São José, do Sagrado Coração de Jesus e de Nossa Senhora de Fátima.

A imagem de Nossa Senhora de Fátima, venerada no Trono, mede 3,50 metros de altura, pesa 4.000 quilos e foi esculpida pelo renomado escultor italiano Enrico Arrighini.

A Catedral de São Pedro de Alcântara foi construída em quatro etapas: a 1ª, de 1883 a 1901, a 2ª, de 1918 a 1925, a 3ª, de 1929 a 1960 e a 4ª, de 1960 a 1969.

Heitor da Silva Costa ocupou-se dos trabalhos desenvolvidos na segunda etapa, quando “o que existia, eram paredes com pouco mais de dois metros de altura, lance de arcos pouco mais altos no presbitério, tudo exposto às intempéries e envolvido por um matagal” (5).

(5) JUDICE, RUTH. Igrejas Neogóticas. Petrópolis, Editora Crayon, 2.000, p.69.

Foram introduzidas algumas modificações no projeto inicial de autoria do engenheiro Francisco Caminhoá, tijolos e argamassa substituíram o granito e, em 29 de novembro de l925, a Catedral foi aberta ao culto, ainda inacabada.

Fato sem dúvida digno de nota é que em 1907, quando era presidente da municipalidade o Dr. Arthur de Sá Earp, o engenheiro Silva Costa foi por ele convidado, para elaborar um projeto de embelezamento da cidade.

Tal projeto apresenta algumas recomendações dignas de nota, das quais transcrevemos as seguintes: “Manter os rios sempre limpos, com os taludes das margens bem conservados e alinhados, com as banquetas transformadas em pequenos canteiros onde seriam plantadas flores campestres de cores variadas; ruas bem calçadas e arborizadas, com pronto escoamento das águas pluviais, com calçadas largas, niveladas e bem cimentadas, aproveitando-se toda a sobra de terreno para se fazerem jardins abertos; manter o aspecto campestre tão agradável que a cidade apresenta; tomar as medidas necessárias afim de que os prédios tenham todas as condições de salubridade e que essas medidas se façam efetivas por meio de visitas regulares da autoridade municipal; nas ruas servidas por bueiros deve-se providenciar de forma que haja sempre neles quantidade de água corrente suficiente; limpeza regular dos rios, com a proibição de neles se lançarem detritos nas suas margens e com a remoção das areias que se formam em algumas curvas; evitar o corte das matas e providenciar o replantio das mesmas, para evitar inundações; tomar como exemplo a Avenida Koeler para outras Avenidas, como a 7 de Setembro, a Silva Jardim, a 1º de Março, a Leopoldina, a Piabanha, onde deve ser proibida qualquer construção no alinhamento da rua, de modo a haver sempre um jardim em frente aos prédios, de cinco metros pelo menos; afastar destas avenidas os estabelecimentos comerciais que iriam procurar outras ruas…” (6).

(6) SILVA COSTA, Heitor da. Projeto de Embelezamento da Cidade. In: O Cruzeiro, Petrópolis, 6 de junho de 1913, p. 1

Percebe-se nestas recomendações a preocupação do engenheiro em embelezar a cidade sem agredir o caráter da mesma.

Pertenceu o engenheiro Heitor da Silva Costa a inúmeras instituições como o Clube de Engenharia, o Centro Dom Vital, o Círculo Católico, a Confederação dos Trabalhadores Católicos, a Associação Brasileira de Imprensa e ao Conselho de Ação Católica e deixou vários trabalhos e artigos publicados em revistas especializadas e órgãos de imprensa, entre os quais o Jornal do Comércio, do qual foi um ativo colaborador.

Engenheiro dos mais abalizados, o Dr. Heitor da Silva Costa deixou marcas de sua competência em nossa cidade, merecendo figurar na galeria dos brasileiros ilustres em Petrópolis.

Faleceu no Rio de Janeiro, em 21 de abril de 1947.