BRASILEIROS ILUSTRES EM PETRÓPOLIS

Jeronymo Ferreira Alves Netto

O IMPERADOR D. PEDRO II

A ligação entre o Imperador D. Pedro II e Petrópolis foi tão significativa, que o historiador Alcindo Sodré assim se pronunciou a respeito da mesma: “para dizer-se alguma coisa sobre o último Imperador do Brasil é indispensável falar-se de Petrópolis” (1).

(1) SODRÉ, Alcindo de Azevedo. D. Pedro II em Petrópolis. In: Anuário do Museu Imperial. Petrópolis, 1940.

De fato, Petrópolis nasceu da magnanimidade, do carinho do Imperador, que a viu crescer e assistiu a sua evolução. Além disso foi dignificada, ao abrigar os seus despojos, sob a cúpula do templo que a sua magnificência também idealizou, a Catedral de São Pedro de Alcântara.

Homem de ampla cultura universal, cuja vastidão de conhecimentos chegou a impressionar os intelectuais que lhe foram contemporâneos. Grande estadista, inteiramente consagrado ao serviço do Estado, D. Pedro II buscava em Petrópolis, a tranqüilidade e a plenitude da serra, o refúgio para se recuperar do desgaste de suas elevadas funções e se entregar aos estudos, à leitura, enfim, aos trabalhos intelectuais de sua preferência. Isto fica patente nas inúmeras cartas que escreveu a Gobineau, ao referir-se à nossa cidade: “Aqui passeio a pé todas as manhãs”; “A vida de Petrópolis agrada-me muito…”; “Aqui trabalho melhor que no Rio, apesar dos dois passeios que faço todos os dias”; “Devo ir em dezembro a Petrópolis e lá ser-me-á permitido entregar-me um pouco mais às ocupações do espírito…” (2).

(2) Carta a Gobineau, 7 de fevereiro de 1881. Cf. Lacombe, Lourenço Luiz. In: D. Pedro II em Petrópolis. Edição do Museu das Armas Ferreira da Cunha, Petrópolis, 1954.

Sabemos que com o Palácio Imperial ainda em construção, D. Pedro II já freqüentava com sua família a então povoação de Petrópolis, hospedando-se na Fazenda do Córrego Seco, então arrendada ao Major Júlio Frederico Koeler.

O velho casarão da fazenda teria sido reformado por Koeler, ou então demolido por ele, dando lugar a um novo prédio. Neste sentido, o professor Lourenço Luiz Lacombe, apoiando-se no Decreto nº 187, de 15 de março de 1849, pelo qual D. Pedro II cedeu à viúva de Koeler “o domínio de sua casa situada no prazo nº 82, em Petrópolis, sem reposição alguma do valor da antiga casa de vivenda que ali existiu” (3), concluiu que os termos deste decreto tornam evidente a demolição da primitiva casa da fazenda.

(3) Decreto nº 187, de 15 de março de 1949.

A construção do Palácio Imperial de Petrópolis, iniciada em janeiro de 1845, levou mais de dez anos para ser completamente terminada, só sendo habitado por D. Pedro II a partir de 1849, quando concluída uma de suas alas.

A chegada, todos os anos da Família Imperial a Petrópolis, comenta Sodré, “constituía uma ocorrência festiva que enchia de prazer toda a cidade. Antes da construção da Estrada de Ferro, as carruagens imperiais eram aguardadas no Alto da Serra, início da Vila Teresa. Grande parte da população transladava-se para a entrada da cidade, no terreno da Estrada Normal da Estrela, onde o Presidente da Câmara, cercado dos vereadores e outras autoridades do lugar, fazia a entrega ao Imperador da chave simbólica da cidade.

Formava-se então imponente cortejo de carruagens que seguia em desfile até o centro urbano, onde as colchas de damas nas sacadas e janelas, as folhagens pelo chão, o lance de flores, com os sorrisos das crianças e as aclamações do povo, exprimiam simpatia e apreço aos Imperadores, na alegria que sua vinda ocasionava. À noite havia Te Deum na Matriz, pelas ruas luminárias, girândolas e fogos de artifício, tocando na praça a banda da Casa Imperial” (4).

(4) SODRÉ, Alcindo de Azevedo. D. Pedro II em Petrópolis. In: Anuário do Museu Imperial. Petrópolis, 1940, p. 26.

É necessário enfatizar que nosso segundo imperador sempre acompanhava com grande interesse a evolução de Petrópolis, preocupando-se com os seus problemas e fazendo tudo ao seu alcance para ajudá-la a crescer.

Em conseqüência, visitava com freqüência alguns estabelecimentos públicos, como o hospital público, achando-o mal situado e recomendando a transferência do mesmo para novo edifício. O hospital público localizava-se à Rua Bragança, hoje Roberto Silveira. Também a Câmara Municipal, na ocasião, funcionando em sua segunda sede, localizada à Rua do Imperador, onde se demorou por cerca de uma hora, percorrendo o edifício, examinando a Biblioteca, anotando na ocasião em seu diário: “Fui à Câmara Municipal que, infelizmente, tem pouca renda”. Foi ele o doador da primeira bomba extintora de incêndio da Municipalidade.

Em sua visita à Biblioteca Municipal, o Imperador fez à mesma a doação de 400$000 para compra do “Grand Dictionnaire Universal du XIX éme Siécle – 1866-1890″, em 17 volumes, que ainda se encontra no acervo da mesma.

Outra grande preocupação do Imperador, em suas estadas na serra, dizia respeito ao desenvolvimento da indústria da seda, tendo anotado em seu Diário: “Recomendei ao superintendente Marques Lisboa que estudasse a questão da introdução da cultura da amoreira e a criação do bicho da seda em Petrópolis”, voltando ao assunto em outras oportunidades. Vislumbrava assim, com grande descortinio o futuro desenvolvimento da indústria têxtil em nossa cidade. Também o Matadouro Municipal foi alvo de sua atenção, escrevendo sobre o mesmo: “Tem a sua verba, mas acha-se em mal estado”.

A Matriz de Petrópolis, comenta Alcindo Sodré, “ergueu-se em terrenos por ele doado, e do próprio edifício lançou com suas mãos a pedra fundamental, e ainda ajudou de seu bolso as primeiras obras” (5).

(5) SODRÉ, Alcindo de Azevedo. D. Pedro II em Petrópolis. In: Anuário do Museu Imperial. Petrópolis, 1940, p. 30.

De fato, no Decreto nº 155, de 16 de março de 1843, autorizou seu Mordomo Paulo Barbosa a demarcar um terreno para nele se edificar uma Igreja com a invocação de São Pedro de Alcântara, terreno que foi por ele doado para este fim. A primeira pedra fundamental da futura Matriz foi lançada a 12 de março de 1876, com a presença de D.Pedro II, do Conde D’Eu e da Princesa Isabel, dos ministros da Fazenda, da Justiça e do Império, respectivamente Barão de Cotegipe, José Bento da Cunha Figueiredo e Diogo Velho Cavalcante de Albuquerque; do presidente da Província, Conselheiro Pinto Lima; do presidente da Câmara Municipal, Paulino Afonso Pereira Nunes; todos os vereadores petropolitanos e a Irmandade do S.S. de São Pedro de Alcântara. O Imperador também doou a quantia de 10:979$000, de seus rendimentos particulares para o início das obras.

Quanto ao Hospital Santa Teresa, foi ele mandado erigir por D. Pedro II, pelo Decreto Imperial nº 390, de 12 de abril de 1855. Na ocasião, foi nomeada uma Comissão composta do barão de Lorena, Carlos Joaquim Willep, Francisco Joaquim Bernardes e Adopho Simonsen, sob a presidência do Conselheiro Paulo Barbosa da Silva, “para que procedesse à revisão dos prazos que tivessem caído em comisso, devendo o valor das jóias de entrada dos mesmos prazos ser empregado em fundos públicos até que fosse aplicado para auxílio da construção de um hospital sob a invocação de Santa Teresa.

A importância dessas jóias e diversos donativos obtidos pela comissão elevou-se a 50:507$856, que Sua Majestade mandou, em 1871, entregar à presidência da província para terem a devida aplicação, contribuindo desta forma a munificência imperial em grande parte para a construção desse majestoso edifício” (6).

(6) O Mercantil. Petrópolis, 1º de março de 1879.

Fato sem dúvida digno de nota, era a “simplicidade da vida do imperador e da família imperial, em Petrópolis, apesar de ser a cidade a residência do corpo diplomático, afugentado do Rio pela febre amarela” (7). De fato, em nossa cidade, o Imperador levava uma vida mais simples ainda que a do Rio de Janeiro. Se comparecia a uma festa, como aos bailes realizados no célebre Hotel Bragança, era sem a menor solenidade, o mesmo acontecendo quando comparecia à missa das 10.30 horas na Matriz. Realizava longos passeios a pé, pela manhã e à tarde, sempre acompanhado por um fidalgo da Casa Real, freqüentava com regularidade as Duchas, nome popular do Estabelecimento Hidroterápico que funcionava no Quarteirão Nassau, assistia as lições de inglês e alemão, ministradas às princesas, pelo Visconde de Sapucai, Cândido José de Araújo Viana, quando não, ocupava-se, ele próprio, da explicação de física e latim às filhas.

(7) O Mercantil. Petrópolis, 1º de março de 1879.

Revelando um extraordinário interesse pelas coisas do espírito, de um modo particular pela ciência e pela educação, visitava com freqüência as escolas, com a finalidade de conhecer o adiantamento dos alunos e prestigiar os professores. A respeito das presenças inesperadas do Imperador em nossas escolas, encontramos duas notícias na Tribuna de Petrópolis, que são realmente dignas de referência. Uma delas refere-se à visita inesperada que o Imperador fez a uma escola feminina no bairro do Retiro e “o aborrecimento do mesmo por não ter encontrado a professora, apesar de ser dia útil”. A outra se refere ao encontro do monarca, por ocasião de sua presença em outra escola pública com o jovem estudante petropolitano Augusto Guilherme Meschick; descobrindo nele, informa o citado órgão de imprensa “especiais dotes de inteligência, encaminhou-o mais tarde aos estudos superiores. A este ato de magnanimidade do grande monarca brasileiro deveu Meschick, que então era tipógrafo do “Mercantil”, o seu brilhante futuro, que o levou ao corpo docente do Colégio Pedro II, figurando nesse e em outros estabelecimentos de ensino como uma das maiores notabilidades do magistério nacional” (8).

(8) Tribuna de Petrópolis, 16 de outubro de 1927.

Mesmo no exílio, Petrópolis era uma lembrança constante na memória do Imperador que, em sua correspondência, sempre pedia notícias da cidade que fundara e onde vivera momentos de enlevo e felicidade. Por outro lado, os petropolitanos não o esquecem; não lhe renegam gratidão. Estão dispostos a exaltá-lo sempre.