D. PEDRO II – AMERICANISTA

Francisco de Vasconcellos

Silvio Romero, o gigante intelectual de Lagarto, o homem que conhecia a psico-sociologia e a etnologia brasileiras como poucos, disse que a História do Brasil era a história da formação de um tipo novo, pela ação de cinco fatores que produziram a mestiçagem. Todo brasileiro é um mestiço, quanto mais não seja, um mestiço cultural, quando não de sangue, de idéias. Os artífices dessa mestiçagem foram o português, o negro, o índio, o meio físico e a imitação estrangeira.

Não se trata evidentemente de uma exclusividade brasileira. Do México à Patagônia, todos são mestiços, entrando aqui e alí em diversas proporções o espanhol, tão ibérico quanto o português, o índio, o negro, o meio físico e a imitação estrangeira.

Há chilenos e argentinos que têm a pretensão de se julgarem os grandes europeus da América. Nada mais falso. O elemento africano pode não estar presente nesses dois paises, mas todos os demais ingredientes gritam nas duas vertentes andinas, fazendo desses povos que integram o Cone Sul, tão mestiços quanto peruanos, colombianos, panamenses, guatemaltecos, cubanos, dominicanos, etc.

É essa mestiçagem que nos vincula a todos e foi dela que nasceu o espírito ibero-americanista. Somos antes de tudo greco-romanos, aculturados na Península Ibérica e por esta, colonizados em todos os sentidos. Somos também visigodos e mouros. Temos um fundo religioso cristão e nos estribamos nos mesmos fundamentos jurídicos. O índio nos ensinou a lidar com os segredos do nosso meio físico e nos revelou as qualidades alimentícias da mandioca, do milho, da batata, do abacate, da goiaba, da papaia, do caju, do maracujá… E nos disse que a farmácia é a mata. A hamaca ou rede de dormir nos enreda a todos na multiplicidade das fibras empregadas no seu fabrico e nos embala há 500 anos desde o planalto mexicano ao pampa gaúcho.

Luis da Câmara Cascudo dedicou-lhe um livro inteiro e Edmundo da Luz Pinto dizia que no trópico é mais importante uma rede que uma estátua em praça pública. A hamaca bem pode ser o símbolo do ibero-americanismo.

Somos todos da mesma América de Colombo e de Cabral, de Pizarro e de Duarte Coelho, de Las Casas e de Anchieta, de Manco Capac e de Araribóia, de Bolívar e de José Bonifácio, de Pedro II e de Mitre, de Abreu e Lima e de O’ Higgins, de Marti e de Saldanha Marinho, de Ugarte e de Silvio Júlio.

O nosso americanismo tem que passar necessariamente pelo mútuo conhecimento. Só se ama aquilo que se conhece.

Ao longo de cinco séculos de história, muito mais que a língua e os acidentes geográficos, as velhas diferenças e rivalidades entre Portugal e Espanha serviram para cavar o abismo entre o Brasil e as várias partes do Império espanhol na América.

Herdamos esse abismo e o aprofundamos aqui e ali, pela mão dos políticos, depois que nos tornamos independentes.

Principalmente entre os nossos vizinhos, criou-se a cultura do imperialismo brasileiro e a desconfiança em relação às nossas atitudes, às nossas políticas externas, foi suficiente para envenenar o espírito dos membros da comunidade americana de fala espanhola.

Para as jovens repúblicas redundantes do esfacelamento do Império hispânico, o regime monárquico brasileiro era uma nódoa a macular a liberdade e a autodeterminação dos Estados novomundistas.

Algumas vozes lúcidas fizeram-se ouvir, aqui e acolá, contra essa maneira de enxergar o Brasil.

Juan Bautista Alberdi, antes da guerra contra o governo de Solano Lopez, afirmou enfático:

“À Argentina sempre convirá uma política amistosa com o Brasil. Nada mais atrasado e falso que o pretendido antagonismo de sistema político entre o Brasil e as Repúblicas Americanas.

Isto só existe para alimentar uma política superficial e frívola, que se detém quando da verificação dos fatos… No fundo esse país (o Brasil) muito mais que nós todos, tem entranhado em si o espírito da liberdade. – É hoje um poder essencialmente americano. – A escravidão de certa raça não desmente sua liberdade política…

Se for atacado na sua honra, levantar-se-á solidário e vencedor”.
(Bases y Puntos de Partida, 1852)

A propaganda contra o Brasil frívola e superficial, conforme o publicista argentino, servia aos interesses caudilhescos, sempre personalistas e desagregadores. Foram essas figuras nefastas, que repeliram o Brasil, rotulando-o depreciativamente, que provocaram o exagerado esfacelamento do Império espanhol na América e que forjicaram intermináveis lutas intestinas e desnecessárias guerras com vizinhos e irmãos de sangue e de cultura. A América Central, nunca se entendeu e as tentativas de uma confederação malograram. Colômbia e Venezuela, Peru e Equador, Argentina e Chile viveram às turras até quase os nossos dias.

E que dizer-se da catastrófica Guerra do Pacífico (1879/1883) ?

Sensível a esse quadro deletério, o chileno Emílio Rodriguez Mendoza publicou em 1927 a interessantíssima obra “Los Estados Desunidos de América”.

Antes disso, nas duas primeiras décadas dos novecentos, o argentino Manuel Ugarte, apóstolo de primeira linha do mais puro ibero-americanismo, saiu pelo continente fazendo a pregação daquilo que ele denominava “La Pátria Grande”. O Brasil foi inserido nesse contexto, tanto que Ugarte esteve no Rio de Janeiro em 1913, onde pronunciou memoráveis conferências que exaltavam a comunhão dos povos e dos Estados ibero-americanos.

Mas voltemos ao nosso período monárquico.

Se de fora para dentro a visão sobre o Brasil era deturpada, de dentro para fora parecíamos indiferentes aos nossos vizinhos. Em alguns momentos de tensão, máxime na zona de alta atritagem, de grande importância estratégica e de contornos ainda não definitivamente resolvidos, qual seja a do rio da Prata, aprofundaram-se as paixões e não faltaram tribunos incendiários e panfletários exarcebados para botar mais lenha na fogueira, muita vez ao arrepio da verdade e da realidade dos fatos.

As Repúblicas Oriental e do Paraguai, devem sua independência e sua integridade territorial à destreza da política externa do Império do Brasil. A guerra contra Rosas, foi uma questão de vida ou morte, que não escapou à sensibilidade do General Urquiza, senhor todo poderoso da Província de Entre Rios. E a guerra da Tríplice Aliança, contra o caudilho Lopez do Paraguai, se foi de um lado verdadeiro holocausto, foi de outro necessária resposta à agressão lopista que ameaçava a estabilidade e o equilíbrio de forças na delicadíssima região platense.

Não obstante tudo isso, não faltaram os que elaboravam com dois pesos e duas medidas. Rosas e Lopez eram farinha do mesmo saco. Caudilhos exarcebados, concentradores de poder.

O mesmo Alberdi que defendeu a posição do Brasil contra Rosas, agora, vinha se opor ao Império na guerra contra Lopez. Tentava justificar sua nova posição sofismaticamente, dizendo que em 1851, cuidava-se de derrotar Rosas, representante do monopólio provincialista de Buenos Ayres. Já em 1865, reprovável era o comportamento do Brasil, porque este, com o General Mitre, se encarregava de robustecer o mesmo monopólio provincialista.

Tal a visão sectária de um filho de Tucuman, outrora território integrante do Vice-Reino do Peru, em contraposição ao Vice-Reino do Prata, rebento tardio do Império espanhol na América. Alberdi, no fundo, estava culpando o Brasil de D. Pedro II, aliado da Argentina de Mitre, pelos seus ressentimentos provincianos. A questão na verdade era bem maior e extrapolava as questiúnculas de uma república mal consolidada a debater-se eternamente entre a mentalidade unitarista de uns e federalista de outros.

Antes de ser argentino sou cordobês, declarou enfático certo genealogista no memorável simpósio genealógico de La Plata, em novembro de 1995.

E então perguntar-se-á:

Nesse emaranhado de tendências e conflitos dessa nossa América, teria sido D. Pedro II americanista? Em caso afirmativo a que corrente teria ele se filiado?

É este o tema do nosso encontro. Tema novo, penso que ainda não explorado e que certamente será capaz de gerar algumas salutares polêmicas.

Ao contrário do que sempre propalaram os radicais, os mal informados, os maledicentes, os que acusam sem provas, Pedro II nunca foi indiferente aos países hispano-americanos e nem tão pouco desdenhou deles por causa da quase permanente instabilidade política em que viviam durante o século XIX.

O Imperador era anticaudilho por excelência e disto deu provas até no momento crucial de sua vida, em que teve de deixar o pais de seu nascimento e por ele amado verdadeiramente. Não esboçou o menor apego ao poder.

Cumpridor das leis, devotado observador da Constituição, amigo da paz, da concórdia, do diálogo, apóstolo das liberdades democráticas, cultor da ética no jogo político e do equilíbrio de forças em todas as esferas do poder, no íntimo o Imperador não deveria simpatizar com o caudilhismo desenfreado que varreu a América do Sul, para falarmos apenas dos vizinhos, enquanto aqui vivíamos uma estabilidade político-administrativa de dar inveja.

Daí talvez o especial apreço de Pedro II pelo Chile, onde durante muitas décadas o país viveu sem traumas e sobressaltos, com sucessões presidenciais ajustadas aos preceitos constitucionais.

Mas apesar de suas preferências ou idiossincrasias, o Imperador jamais deixou transparecer publicamente o que quer que fosse, mantendo-se firme na sua eqüidistância das paixões do momento, e isento quanto aos problemas domésticos dos paises vizinhos.

As falas do trono dão bem uma dimensão desse seu comportamento, mesmo, quando as questões do Prata alcançaram proporções tais que levaram o Brasil à guerra, contra os caudilhos Oribe e Rosas.

Na fala de 1847, disse Pedro II:

“Tenho procurado cultivar as relações de harmonia e bôa inteligência com os governos do novo e velho mundo.

Ainda continua a luta entre as repúblicas do Prata; e quanto mais se prolonga, tanto mais veementes são os meus desejos de vê-la terminada, pois que assim o reclamam a humanidade e os interesses do Brasil, tão especial e profundamente prejudicados por sua proximidade ao teatro da guerra”.

Na de 1848 assim se houve o monarca:

“Tenho procurado cultivar relações de paz e bôa inteligência com todos os estados da Europa e da América e para resolver algumas dificuldades de que tendes conhecimento, continuarei a empregar meios pacíficos e honrosos.

A questão entre as repúblicas do rio da Prata, ainda não está definitivamente terminada e os interesses dos meus súditos continuam a ser gravemente prejudicados por uma luta tão desastrosa como prolongada. Faço pela pacificação das duas repúblicas os meus sinceros votos: eles estão de acordo com o interesse que deve inspirar-nos a independência do Estado Oriental do Uruguai”.

Na fala de 1851, Pedro II, abordando o tema das violências e vexames sofridos por brasileiros residentes e estabelecidos nas fronteiras com a República Oriental, por causa dos desatinos praticados pelos homens do General Oribe, arrematou enfático:

“Por maior que seja o meu desejo de manter a paz, não deixarei de dar aos meus súditos a proteção que lhes devo, nem serei indiferente a acontecimentos que possam prejudicar a segurança e tranqüilidade futura do Império, tendo sempre por um dever respeitar a independência, as instituições e a integridade dos Estados vizinhos, e, nunca me envolver de modo algum em seus negócios internos”.

Quem estava falando não era um cidadão qualquer, mas o Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil, preocupado com a segurança e a integridade do país e de seus súditos, comprometido, entretanto, com a paz, com a estabilidade, com o respeito à soberania dos Estados vizinhos e eventualmente em litígio.

Note-se seu zelo em defender a qualquer custo a independência da República Oriental e o seu escrúpulo em não interferir na domesticidade da política dos demais paises.

Pedro II era, na essência um homem coerente e conseqüente.

Definitivamente não saíra ao pai, estabanado e irrefletido. Pedro I chamava Bolívar de bandoleiro e, sem qualquer justificativa plausível, mandou invadir a província de Chiquitos, hoje integrante do território boliviano.

Tudo isso significa que, mesmo no desempenho de suas obrigações como chefe do Estado brasileiro, D. Pedro II não descurava das boas relações com as jovens repúblicas hispano-americanas, do respeito às regras internacionais da boa convivência, do seu apego à paz e à concórdia, do seu devotamento à liberdade e à democracia, sem interferir, apesar de suas doutrinas, nos negócios internos dos paises soberanos. Tratava-se de um Imperador sem a mácula perversa do imperialismo. Os que o julgaram de maneira diferente, ou foram levianos, ou tiveram segundas intenções, ou o fizeram de má fé.

Os de mentalidade colonizada quando se referem às relações intelectuais do Imperador, só as vinculam aos expoentes europeus – franceses, ingleses, alemães, austríacos, italianos -, esquecendo-se de que Pedro II manteve aqui em Petrópolis e no Rio de Janeiro, relações pessoais com grandes cerebrações ibero-americanas de seu tempo, além de ter lido com interesse e atenção incontáveis obras de autores novomundistas, que escreveram sobre história, sócia-etnologia, ciências e artes de seus rincões de origem, e, que produziram literariamente.

É aí, a meu ver, que o monarca torna-se um americanista bolivariano, pensando na aproximação dos povos ibero-americanos, a partir do mútuo conhecimento.

Não creio que ele tenha lido as obras doutrinárias do Libertador, mesmo porque Bolívar sempre foi em tabu no Brasil. Mas que ao menos por coincidência ambos tiveram afinados os seus discursos, disto parece não haver dúvida, embora deva acreditar que o campo esteja aberto para eventuais discussões. Bom tema: Um eventual antibolivarianista, bolivariano na vertente americanista do mutuo entendimento.

Dizem os franceses que para alguma coisa a desgraça serve.

Foram justamente conjunturas nefastas, que aproximaram o Imperador de Domingo Faustino Sarmiento, de Andrés Lamas, de Diego Barros Arana, de Bartolomeu Mitre e de alguns outros intelectuais da América espanhola, da segunda metade do século XIX.

Fugindo da mazorca rosista, Domingo Faustino Sarmiento estava no Rio de Janeiro em 1852.

O grande sociólogo argentino, autor do “Facundo”, que chegou mais tarde às culminâncias da presidência da República, encantou-se com o Imperador, então jovem de 26 anos. São dele estas palavras:

“A questão do rio da Prata chamou a atenção deste governo sobre a história, os costumes, os homens e as coisas do nosso país… O Imperador, jovem de vinte e seis anos, estudioso e dotado de qualidades de espírito e de coração, que o fariam um homem distinto em qualquer posição da vida, entregou-se com paixão ao estudo de nossos poetas, publicistas, e escritores sobre costumes e caracteres nacionais. Echeverria, Marmol, Alberdi, Gutierrez, Alsina, etc, são nomes familiares a seu ouvido e no que me diz respeito, falou-me de ‘Civilização e Barbárie’, que leu na primeira edição, tendo lido depois ‘Sud America’, ‘Argirópolis’ e ‘Educacion Popular'”.

Sarmiento pode testemunhar a curiosidade do Imperador pelo caráter enérgico e duro dos caudilhos, das figuras sanguinárias de Facundo, do Fraile Aldao; a sagacidade de Calibar e o espírito cavalheiresco daquele soldado negro como Otelo e nobre como um paladino medieval, que se chamou Barcala. Eram todos personagens do mesmo Sarmiento, que ouviu do monarca como seria interessante a edição de um livro que retratasse a fisionomia desses tipos.

Seria atração do oposto?

Sarmiento confirma que Pedro II era um leitor insaciável que tinha um grande espírito de compreensão e que seguia com interesse, quando conversavam, o fio de suas idéias, apoiando cada frase com um movimento de cabeça em sinal de afável assentimento.

O mesmo clima de tirania que se abatera sobre o rio da Prata, responsável pela estada de Sarmiento no Rio de Janeiro, trouxe o uruguaio Andrés Lamas para a capital do Império brasileiro, como enviado especial da chamada “La Defensa”, que mantinha a ferro e fogo a integridade e a inviolabilidade de Montevidéu, cognominada a Nova Tróia, frente ao assédio impiedoso dos grupos orientados pela dupla sanguinária Oribe e Rosas.

Andrés Lamas, (1817/1891), que foi das maiores cerebrações de sua geração em nossa América, polígrafo de dotes extraordinários, jornalista combativo, historiador, poeta, arqueólogo, político, diplomata, pensador, acima de tudo humanista, com uma bibliografia espantosa, chegou ao Rio de Janeiro em fins de 1847.

Aproximando-se do jovem Imperador, contou-lhe com pormenores a situação no Prata, falando-lhe sobre os homens que moviam os cordéis da política naquela região explosiva, sobretudo sobre Rosas.

Pedro II, embora receoso de, em estreitando relações com Lamas, botar mais lenha na fogueira platense, foi aos poucos se rendendo ao talento diplomático do uruguaio e aos dotes de sua intelectualidade.

Desse contato nasceu sólida amizade, sedimentada tanto no Rio como em Petrópolis por instigante e proveitoso intercâmbio intelectual.

Eram duas almas voltadas para as grandezas do espírito, para a cultura humanista, para a curiosidade de aprender diuturnamente, nos livros, na experiência de vida, na observação do quotidiano.

Lamas, acossado pela febre amarela, mudou-se para Petrópolis e aqui tornou-se proprietário nos quarteirões Suíço e Palatinato. Na sua residência da então rua dos Mineiros, fez tremular o pavilhão de seu país. Ali esteve várias vezes o Imperador, durante os anos cinqüenta dos oitocentos. Depois, numa segunda fase, em que Lamas, já despojado de seu patrimônio petropolitano, foi residir como locatário na desaparecida Chácara das Camélias, Pedro II foi presença obrigatória na imponente vivenda que outrora guarnecia a entrada do Quarteirão Ingelheim.

No sucesso de Caseros, houve uma boa parcela do trabalho diplomático de Lamas e o Imperador, junto com o uruguaio, teria traçado as bases dos vários tratados que haveriam de aprimorar as relações do Império com a República Oriental.

Na fala do trono de 3 de maio de 1852, ficou bem claro:

“Com o governo oriental, então investido de todas as faculdades, pela ausência de outros poderes, e pela necessidade suprema de salvar a república, foram celebrados os cinco tratados de 12 de outubro próximo passado, que vos serão presentes.

O governo oriental novamente eleito, tem posto à validade desses tratados, dúvidas provenientes de não haverem obtido a aprovação da assembléia legislativa. A questão está pendente e há razões para crer que virá a ser resolvida satisfatoriamente. Em todo o caso farei valer com firmeza os nossos direitos”.

Esses tratados, celebrados com o governo de “La Defensa”, com a intermediação de Lamas, custaram a este muitos dissabores em seu país. Os partidários de Oribe, do lado de cá e de Rosas do lado de lá crucificaram-no. Ele chegou a ser tido como inimigo da pátria e vendido aos interesses do Império. Até hoje Lamas é uma figura discutida em seu país.

Mas quem conheceu de perto o seu caráter sabe perfeitamente que ele jamais misturou a sua afinidade intelectual com o Imperador e o seu afeto por ele, com os interesses de seu país e com os negócios do Estado Oriental, que no seu entender, naquela conjuntura terrível, era representado por “La Defensa”. Sendo um homem de doutrinas e comprometido com as liberdades democráticas, não poderia ser outro o seu entendimento.

O problema do Uruguai aos olhos do mundo, é que ele será sempre uma província argentina encravada em território brasileiro.

Diego Barros Arana (1830/1907), chileno de Santiago, foi outra figura de relevo no mundo político, diplomático e intelectual hispano-americano.

Polemista, parlamentar, educador, membro da Academia de Ciências de Paris, Reitor da Universidade do Chile, estudioso da história de sua pátria, com uma quantidade enorme de obras publicadas, Barros Arana, por seu descortínio político, por seu humanismo, por seus conhecimentos da formação dos povos hispano-americanos, foi escolhido por seu governo para chefiar missão diplomática que iria desempenhar importante papel em Buenos Ayres, Montevidéu e Rio de Janeiro, na intenção de resolver em definitivo as questões de limites entre Chile e Argentina.

Missão espinhosa que começou em 1876 e terminou em 1878, sem alcançar o sucesso desejado.

Depois de viver dias amargos entre os portenhos, sendo mesmo hostilizado pelo povo bonaerense, Arana, viajou para o Rio de Janeiro, onde encontrou ambiente favorável ao desempenho de suas funções diplomáticas. Estando ausente momentaneamente o Imperador, foi recebido pela Princesa Isabel em julho de 1877.

Fixou residência em Petrópolis, dela somente se desfazendo em fins de 1878, quando viajou para a Europa.

Enquanto esteve no Brasil, manteve contatos intelectuais com o Imperador. Difícil a um homem de espírito não se render ao refinamento cultural do monarca.

Rendendo sua homenagem à “cultíssima Côrte do Brasil”, Barros Arana, disse do seu respeito pelo último Imperador em terras americanas, a quem considerou sempre “como um soberano ilustre sob todos os aspectos”.

Não foi, portanto, por acaso que, antes de dar por terminada sua missão, fez todo o empenho em despedir-se do Imperador, de quem haveria de guardar a mais grata lembrança. Seus encontros intelectuais com D. Pedro II foram inexcedíveis e surpreendentes, pois Arana não imaginava quão vasto era o conhecimento do monarca sobre a América.

Um outro chileno que estivera no Brasil em 1910, Joaquim Edwards Bello, consignaria em seu livro “Três Meses en Rio de Janeiro”, Santiago, 1911:

“La revolucion francesa fué la madre de un déspota cruel i sanguinario, Napoleon I, i aqui, en el Brasil, echaron a un emperador democrático para fundar una Republica imperialista que hace alarde de imponentes ceremoniales cortesanos”.

Foi um cala boca, dirigido a certos jornalistas levianos, que ousaram garatujar inverdades como esta:

“O Brasil, sob o atual regime republicano, não tem razão para conservar desarrasoadas prevenções oriundas do antigo império, que procurou sempre viver arredado do convívio das repúblicas hispano-americanas”.
(Gazeta de Petrópolis, 20 de janeiro de 1903)

O Brasil capitaneado pelo seu Imperador nunca viveu arredado das repúblicas que o circundavam: estas, sim, é que por prevenção e injustificável preconceito, nunca pouparam o Império de ataques gratuitos e aleivosos.

O propalado ibero-americanismo da República Velha foi lírico, utópico e improdutivo. Não conseguiu sair do discurso de alguns espíritos quixotescos. A vida meteórica da revista Concórdia, espelha bem essa realidade.

Bartolomeu Mitre (1821/1906) foi outra figura de estadista e intelectual com quem D. Pedro II manteve contato, desde os tempos memoráveis da retomada de Uruguaiana em plena guerra da Tríplice Aliança.

Antes de mais nada, eram dois homens de espírito, com forte interesse nas relações de equilíbrio em nossa América e, na história cultural de nossos povos.

Quem visita em Buenos Aires o Instituto Mitre, na rua San Martin, entidade que abriga museu, biblioteca e arquivo, pode aferir o grau de refinamento intelectual do prócer argentino. E, quem consulta suas inumeráveis obras, vai encontrar nelas o autêntico humanista, o observador atento do mundo que o rodeava.

Tantas credenciais teriam forçosamente que aproximar D. Bartolo, do Imperador, sempre reconhecido como homem superiormente culto e de espírito invulgar.

Lástima que esses liames tão vigorosamente positivos para o progresso da nossa América, tivessem que ser eventualmente postos à prova, quando os intelectuais tinham que sucumbir ante os homens de Estado na defesa intransigente dos direitos e interesses de seus respectivos paises.

Bartolomeu Mitre esteve no Rio de Janeiro em caráter particular em fins de 1871. Desembarcou a 28 de outubro. Tinha como propósito visitar o túmulo de seu filho Jorge Mariano, que se suicidara na capital do Império um ano antes. Viagem sentimental repassada de tristezas e recordações. Amigos e admiradores fizeram-lhe muitas homenagens, entre as quais a eleição para sócio honorário do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Visitou Mitre alguns pontos turísticos do Rio. Esteve em Porto Novo do Cunha com o Conde D’Eu e em Juiz de Fora.

Ao que consta não se avistou com o Imperador e voltou a Buenos Aires em 16 de janeiro de 1872.

Era então Presidente da Argentina, Domingo Faustino Sarmiento. O país estava agitado com a onda de versões desencontradas sobre a verdadeira posição do Império no concernente às liquidações das pendências resultantes da guerra da Tríplice Aliança.

Havia ameaças de guerra no ar.

Arrimado nas boas relações mantidas por D. Bartolo com os homens chave do Brasil, inclusive com o próprio Imperador, o governo argentino nomeou-o Enviado Especial e Ministro Plenipotenciário junto à Côrte de São Cristóvão. Tentava-se assim desanuviar o clima tenso que exacerbava os dois paises e firmar os protocolos necessários a dirimir as questões pendentes, selando a paz, pelo menos até que nova crise acontecesse, o que aliás não faltou até o passado mais recente.

Chegou Mitre ao Rio a 6 de julho de 1872.

Teve recepção um tanto hostil por parte do povo e do próprio Ministro dos Negócios Estrangeiros.

O Imperador recebeu-o no sábado 13 de julho para a entrega de credenciais.

O momento, evidentemente, era muito mais político e menos favorável a tertúlias literárias. Os discursos, por isso mesmo, foram repassados de cautelosas ponderações. Para Miguel Angel de Marco, biógrafo de Mitre, a recepção teve um lado simpático, até descontraído. Já para Armando Alonso Piñeiro, autor da monografia “La Mision Diplomática de Mitre en Rio de Janeiro – 1872″, Buenos Aires, 1972, o encontro foi pouco amistoso, com sutis trocas de alfinetadas.

Depois, já em novembro de 1872, estando os protocolos alinhavados e prestes a receberem a chancela das autoridades brasileiras e argentinas, novo encontro teriam Mitre e o Imperador.

No dia 17 de novembro, D. Pedro II anotou no seu diário:

“11h. ¾ Acabo de falar com Mitre. O caso com Buenos Aires está concluído e Mitre se mostrou bastante conciliador. Tratei-o com a maior cordialidade, apesar de que desconfio de seu caráter”.

Falava aqui muito mais o chefe de Estado que o intelectual. Ainda assim, o Imperador não negou ao visitante a sua cordialidade.

Conta Armando Alonso Piñeiro na obra citada, que os dois nessa entrevista, conversaram animadamente como velhos amigos.

Falaram da necessidade de se reverem os conceitos de argentinos e brasileiros sobre as suas mútuas relações.

D. Pedro sabia da hostilidade dos argentinos em relação ao Brasil.

A propósito, assinalou Piñeiro:

“Na verdade não estava muito errado, por mais que Mitre tentasse dissuadi-lo dessa realidade.

Sem dúvida o monarca parecia bem informado, já que sentado no trono desde 1831 (sic) fazia portanto mais de quarenta anos que vinha bebendo nas fontes da política internacional”.

Lógico que D. Pedro II não estava no trono desde 1831, mas já contava tempo suficiente em 1872, conhecendo pela curiosidade inerente ao seu espírito o quadro político e cultural hispano-americano, de modo a saber com nitidez o que se passava ao seu redor.

E como conseqüência de todo esse caldo de cultura, perguntou o Imperador a Mitre:

“Cessarão depois dos nossos acordos as prevenções argentinas quanto à índole expansionista brasileira?”.

Mitre entendia que elas poderiam desaparecer com o exercício franco e leal do tratado de aliança. Referia-se naturalmente ao da Tríplice Aliança.

No mais falaram de temas que tinham a ver com o progresso e com a modernidade.

D. Pedro interessou-se vivamente pela construção da ferrovia transandina e tanto ele, como Mitre, encerraram o encontro dizendo da importância das obras públicas e da função do progresso como promotor da paz entre as nações. Seria sem dúvida o melhor substituto da paz armada, que leva os povos ao sacrifício e à angústia.

Mitre despediu-se do Imperador na tarde noite de 23 de dezembro de 1872. Quatro dias depois partia para Buenos Aires.

Muitas outras figuras de relevo no mundo político e intelectual hispano-americano, que tiveram contato direto com o Imperador, poderiam também ser trazidas a esta resenha. Paro por aqui.

Encerro, evocando a frase do Presidente da Venezuela, após o 15 de novembro de 1889:

“Caiu a única república democrática existente na América do Sul”.