HÁ CEM ANOS ALBERTO TORRES CHEGAVA AO GOVERNO FLUMINENSE

Francisco de Vasconcellos

O velho Estado do Rio, não esse arranjo ou caricatura que está aí, era muito mais fiel aos seus próceres e não poupava respeito e reverência aos seus filhos ilustres. Nada de arrivistas empoleirados no comando de sua política, a desonrarem as mais caras tradições desta terra que já deu vultos significativos, de Paulino José Soares de Souza a Roberto Silveira.

A República Velha foi pródiga em cerebrações e talentos políticos no jogo do poder no Estado, Petrópolis deu Porciuncula; Sapucaia deu Maurício de Abreu; Itaboraí deu Alberto Torres, Campos dos Goitacazes, Nilo Peçanha, como Macaé deu Alfredo Backer e Resende, Oliveira Botelho.

Relembrar essas figuras na moldura do tempo em que viveram e segundo o papel que jogaram na política estadual e nacional, é ato não só de justiça, como de incontestável civismo. É resgatar a desbotada e muita vez enxovalhada memória fluminense, obumbrada pela onda da promoção de bademecos que se abateu sobre o Estado fundido e em geral sobre o Brasil do revanchismo barato e da importação do rebutalho de culturas alienígenas.

Há cem anos, chegava à suprema magistratura desta terra, Alberto de Seixas Martins Torres, originário de Itaboraí, berço de figura do calibre de Joaquim Manoel de Macedo, de João Caetano e de Salvador de Mendonça.

Apesar de ser rebento de velho clã itaboriense, que deu entre outros, o conservador Visconde de Itaboraí, o jovem Alberto, desde cedo abraçou a causa republicana e foi nos tempos da campanha uma das vozes mais respeitadas na luta pela nova forma de governo que se queria implantar no Brasil e que se tornara vitoriosa em 15 de novembro de 1889.

Um de seus mais antigos biógrafos, dizia quando Alberto Torres, Presidente eleito do Estado, estava para tomar posse:

“O que o público, porém, em geral ignorava, e – pode-se dizer – só íntimos o sabiam, era o alto preparo intelectual do jovem legionário, o seu espírito eminentemente organizador, o seu prodigioso bom senso, a sua admirável cerebração de pensador.

Dele se pode afirmar que nunca conheceu os desvarios próprios da meninice: desde os mais verdes anos, a par da notabilíssima aplicação aos estudos, distinguia-o já a calma, a ponderação, por que pautava os seus atos. Para o seu débil organismo de intelectual, a luta no terreno material tornava-se um esforço supremo e só o seu ardente culto pela República o levou muitas vezes a enfrentar valorosamente a faca do capanga e a garrucha do assalariado, nas célebres conferências de propaganda política por alguns de nossos municípios. Onde a sua ação se fazia verdadeiramente sentir, era no terreno calmo e refletido da organização partidária, na serenidade e na justeza com que sabia encarar os acontecimentos, prevendo-lhes ou aproveitando-lhes as conseqüências.”

Tinha portanto Alberto Torres as qualidades de um autêntico estadista.
Daí porque, apesar de jovem ainda, os velhos próceres republicanos não dispensassem as suas judiciosas observações, alicerçadas em profundos conhecimentos das ciências políticas e sociais e do direito, que nada mais é que a sociologia aplicada.

No aurorecer do Estado do Rio de Janeiro, sob o novo regime, Alberto Torres veio logo à tona da primeira constituinte fluminense, cedo estropiada pelos desmandos do Governador Francisco Portela.

Na revolução de dezembro de 1891, alinhou-se com Porciuncula, Miguel de Carvalho, Barros Franco e outros, que derrubariam o governador e preparariam o terreno para a verdadeira constitucionalização do Estado, através da carta de 9 de abril de 1892.

Filiado ao Partido Republicano Fluminense, comandado por José Thomaz da Porciuncula, foi Alberto Torres Deputado e Ministro da Justiça do Presidente Prudente José de Moraes Barros.

Desgraçadamente sua gestão foi curta, face aos acontecimentos de janeiro de 1897, quando o Vice-Presidente Manuel Victorino Pereira, então no exercício da Presidência, interveio bruscamente no Estado do Rio de Janeiro, provocando forte reação do P.R.F. e a renúncia incontinenti de Alberto Torres.

E, naquele mesmo ano de 1897, quando foi lançada a sucessão do Presidente Maurício de Abreu, saiu vencedor da convenção e das urnas o sociólogo, jurista, tribuno, jornalista, educador e humanista Alberto de Seixas Martins Torres.

Que mais poderia desejar o Estado do Rio de Janeiro, à época com sua capital nesta cidade de Petrópolis?

A posse deu-se a 31 de dezembro de 1897, perante a Câmara Municipal petropolitana, tendo Alberto Torres, escolhido para seu secretário de obras, nada mais, nada menos, que Hermogenio Pereira da Silva, que já havia demonstrado sua enorme capacidade realizadora nas várias gestões à frente do executivo municipal.

Se foi materialmente pobre, por questões conjunturais, o triênio de Alberto Torres, foi infinitamente rico no que respeita aos empreendimentos de ordem educacional e cultural. Petrópolis esplendeu nesse momento de sua história como Capital do Estado, até porque para aqui convergiram sob a batuta do Presidente, as grandes figuras da intelectualidade fluminense e até nacional, de Raimundo Corrêa a Olavo Bilac.

Foi justamente em homenagem a esse esplendor e na tentativa de provocar os debates, sobre o tema, que propus ao meu amigo Jeronymo Ferreira Alves Netto, Presidente do Instituto Histórico de Petrópolis, que esta Casa declarasse ano Alberto Torres o de 1998, quando se completam os cem anos do início da gestão desse insigne fluminense à frente dos destinos do Estado.

E para tanto, o Instituto poderia promover palestras, colóquios, até simpósios sobre Alberto Torres como intelectual, como político e como Chefe do Executivo estadual, além de provocar no meio estudantil concursos fulcrados no contexto albertino, o que haveria por certo de aproximar o aluno dos valores autênticos da cultura fluminense, assim como de incutir nele a verdadeira consciência cívica.

De minha parte, pretendo martelar o tema o mais que puder durante o ano da graça de 1998, numa justa e imorredoura homenagem a Alberto de Seixas Martins Torres, sociólogo tão importante como Gilberto Freyre ou como seu conterrâneo Oliveira Vianna, o de Saquarema, outra personalidade que merece maior divulgação nessa nossa pobre província fluminense.