GUERRA E AUTO-ESTIMA

Joaquim Eloy Duarte dos Santos, Associado Titular, Cadeira n.º 14 – Patrono João Duarte da Silveira

Está faltando em nossa gente petropolitana uma sacudidela de auto-estima; um estado de espírito permanente, muito e sempre além de um instante especial qualquer que nos manieta aprisionados pelo santo sentimento de cidadania.

Na manhã de domingo, 21 de março, tive um momento sublime de auto-estima, reforçado àquele que alimenta meu coração de forma vigilante, vendo, sentindo, emocionando minha cidadania, ouvindo um concerto em comemoração aos 90 anos de nascimento de Guerra-Peixe..

Não foi em Petrópolis, terra do maestro e compositor e sim em Niterói, no Centro de Artes da Universidade Federal Fluminense. As páginas de Guerra-Peixe foram executadas pela Orquestra Sinfônica Nacional, sob a regência do maestro petropolitano Carlos Eduardo Fecher, estudioso da obra do maestro, tema de sua tese de mestrado, estando Fecher empenhado na criação e sedimentação do Memorial Guerra-Peixe.

Tanto exemplo de dedicação e amor ao mestre Guerra-Peixe tem origem, primeiro, no valor e na imortalidade de sua obra e, segundo, na percepção de Fecher quanto a não deixar que tal patrimônio fique no desconhecimento de nossa gente e que possa ele ampliar a projeção internacional que já habita nos principais centros do primeiro mundo.

César Guerra-Peixe nasceu em Petrópolis há 90 anos atrás, 18 de março de 1914 e faleceu no Rio de Janeiro no ano de 1993. Deixou uma obra extraordinária que consagrou sua vida e permanece viva, admirada e executada nos tempos presentes.

O concerto de Niterói reuniu peças extraordinárias que encontraram no maestro Fecher e no uníssono vibrante da Orquestra Sinfônica Nacional, uma parceria que levou à manhã niteroiense a beleza e a magia inspirada do querido compositor, enlevando ao “bravo” e ao aplauso de pé, o clímax do programa.

A violinista Antonella Pareschi, solista e spalla de orquestra, desenvolveu com sentimento da alma e maestria técnica o “Concertino para Violino e Orquestra”, sob consagração da platéia que lotou as dependências do teatro da UFF. Também foram destaques, na execução da peça “Roda de Amigos” os instrumentistas Otacilio Ferreira Lima Filho (fagote), André Luís Góis (clarinete), Moisés Ávila Maciel (oboé) e Andrea Ernst Dias (flauta). Constou do concerto “Petrópolis de Minha Infância”, com páginas que relembram a “Baronesa” subindo a serra, as crianças na Praça da Liberdade, os barquinhos do Cremerie e o bloco dos “Indios do Morin”. O conhecido “Ponteado” e “Museu da Inconfidência” completaram o excelente programa.

Com muita emoção eu e meu filho Silvio Rafael comparecemos ao concerto e ver a nossa Petrópolis elevada à admiração e ao respeito, através de duas expressões de nossa Música – Guerra-Peixe e Fecher – sob a coadjuvação de excelente orquestra e solistas magníficos, fez muito bem à nossa alma e dali saímos com a pergunta: – Petrópolis assistirá a esse concerto e, desta forma, também comemorará os 90 anos do maestro ou ficaremos restritos, apenas, à morna contemplação do ver navios?

Necessitamos – e muito e urgente – elevar a nossa auto-estima e nada melhor que Guerra-Peixe, raiz de nossa terra que amava e onde reside toda a sua família, para mostrar o que somos e o que podemos, quando a alma não é pequena.

Licença, senhor Fernando Pessoa!.