AÇORIANOS EM PETRÓPOLIS

Antonio Machado

Alguns anos após o estabelecimento dos colonos alemães nas terras imperiais, destinadas a serem base de uma das mais lindas cidades brasileiras, tornava-se muito intenso o número de portugueses das ilhas, principalmente de São Miguel, que demandavam as regiões do interior. Radicaram-se por todo o vasto território do vale do Piabanha desde os Corrêas até além de Pedro do Rio e espalharam-se pelas terras de quase todas as grandes propriedades rurais que existiam nos vales dos rios tributários daquele.

Essas antigas propriedades agrícolas, pertencentes então quase todas a herdeiros abastados que preferiam a vida da Côrte à vida ingrata dos campos, entravam já a desagregar-se, passando a constituir melhor negócio o rendimento cobrado a foreiros e a arrendatários.

A corrente de imigrantes açorianos, excelentes colonos de ânimo resoluto e robustez de atletas, fôra aliás provocada pelo Governo provincial, sempre empenhado em desprezar o braço escravo, e que mandara vir dos Açores 150 trabalhadores, contratando-os para as obras da ponte metálica de Paraíba do Sul.

As levas se sucederam e dedicavam-se à lavoura e à criação de gado bovino e suíno; mantinham extensas plantações de cana, produto que negociavam a meias, por aguardente, nos engenhos das fazendas. Se nem a todos sorriram os fatores da sorte, muitos prosperaram e atingiram não raro a abastança e a fortuna. É tradição corrente que quase todos os lugarejos chegaram a ter população ilhôa muito superior à natural; tudo eram sítios por eles arrendados e onde se erguiam casas ladrilhadas de tijolo e cobertas de telha-vã.

Infensos ao escravagismo, os laboriosos portugueses de meia-viagem não utilizavam o elemento servil nos seus trabalhos. Eles representaram por muito tempo elemento preponderante e imprimiram usos e aspectos de cunho todo original, hoje quase por completo desaparecidos. Se a terra exigia trabalho tenaz, era também pródiga e fecunda, e seus esforçados ocupantes eram lutadores cheios de saúde e ambição; as estrelas, quando esmaeciam no firmamento, já os deixavam com o cabo da enxada na mão, e quando voltavam a luzir vinham ainda encontrá-los na sua faina.

Terminada a tarefa, esqueciam as durezas da vida passando horas a fio nos seus descantes ao som da viola; quando não davam largas ao coração, vibrando em canções sentimentais e nos queixumes saudosos da santa terra distante, empenhavam-se nos cantares ao desafio. E os humildes poetas repentistas revelaram-se donos de um estro admirável.

Ao domingo, guardado de obrigações, reuniam-se ora em casa de um, ora em casa de outro, e os bailes faziam-se ao som da harmônica e decorriam com entusiasmo e emendavam a noite com o dia. Entoavam ladainhas na casa do devoto a quem coubera a honra de guardar naquele ano a bandeira do Divino, mercê escolhida por sorteio no dia da grande festa de Pentecostes. Praticavam a devoção do Espírito Santo com todas as peculiaridades usadas nas suas ilhas, com a coroação de um menino, escolhido à sorte, e que acompanhava a procissão com vestimenta de príncipe, de bastão e coroa, seguido de uma guarda de honra; usança praticada nos Açores, mas que aqui não subsistiu por estar fora da liturgia, que no tocante a coroações só reconhece a de Maria Santíssima.

Realizavam famosos leilões de prendas em que predominavam os vitelos, os leitões, o vinho, os artísticos bolos e as enormes roscas de pão doce.

Praticavam as cerimônias religiosas diante do altar improvisado, onde se ostentava variada coleção de oleografias devotas, encimadas pelo quadro principal, uma caixa envidraçada contendo curiosa efígie do Santo Cristo, rodeada de emblemas e símbolos, trabalho de muito lavor e minúcia de que os fabricantes das ilhas guardavam o segredo.

Puxava a ladainha o mais respeitável do grupo; e um cântico de plangente e morosa ressonância elevava-se nos ares, sem paridade com a entoação criada pela Igreja.

Hoje tudo isso pertence à recordação. A colonização sem o estímulo oficial acabou fracassando, a despeito das possibilidades naturais da região. Não era fácil localizar-se o colono livre onde havia o trabalhador escravo. Foi escasseando a vinda de colonos, encaminhados para outras paragens onde por certo se lhes ofereciam melhores facilidades.

E hoje muito poucos existem que possam considerar-se da velha guarda, conquanto existam inúmeros descendentes que não encobrem os indícios de sua origem e que são afinal dignos continuadores dos exemplos de trabalho e honradez de seus maiores.

No futuroso Cuiabá, distrito de Itaipava, lá para as bandas onde começam as primeiras montanhas da cordilheira dos Órgãos, existe uma irmandade do Espírito Santo conservando acentuadas reminiscências do antigo elemento açoriano. Realiza os festivais atendendo quanto possível aos encantos pitorescos da boa tradição. A seus esforços se deve a construção ali de uma igrejinha do Espírito Santo, levantada à margem de uma estrada que vai ter ao interior de Teresópolis, a qual de certo ponto em diante não dá caminho para veículos, servindo porém ao trânsito de tropas cargueiras do município vizinho. O patrono do santuário é representado, no altar-mór, pelo próprio símbolo do primeiro sacramento da Igreja, a pomba alçando o vôo.

Nos limites do Alto Carangola com o Rio da Cidade outra irmandade existe com a mesma invocação, e igualmente mantida por elementos em maioria de origem açoriana. Ali acaba de ser erigida elegante capela consagradora do velho culto português.

No arraial do Bonfim, que fica no interior de Corrêas, subsistia até há bem pouco tempo uma outra agremiação de devotos dedicados também ao Espírito Santo, todos eles descendentes de ilhéus. Era tradicional esta irmandade; sua fundação datava de há muitíssimos anos. Realizavam-se as festividades em casa de um dos festeiros e a elas concorriam romeiros de longas distâncias.