KOELER – BICENTENÁRIO DE NASCIMENTO

Arthur Leonardo de Sá Earp

Hoje, vivemos aqui um dia de festa, comemoração de uma data de nascimento, 16/06/1804, bicentenária.

São duzentos anos do nascimento de Júlio Frederico Koeler, aquele que nos legou talvez a obra-prima de sua capacidade criativa, ou seja, o Planejamento de Petrópolis, o que nos leva às reflexões deste momento, para homenageá-lo.

É interessante observar que nos primeiros cem anos tivemos o surgimento de Koeler na Terra, infância e educação, e o início rigoroso e concreto de Petrópolis no solo, de acordo com o plano idealizado, para em seguida termos pouco a pouco o seu desvirtuamento por algumas das administrações da cidade; o desrespeito se acentuou nos cem anos posteriores, a ponto de quase se considerar abandonado o projeto magistral, salvo a manifestação e as lutas de uns poucos estudiosos; só quase ao final deste tempo se renovou o interesse por ele. Apesar do descaso e das ofensas, o cerne do pensamento de Koeler resistiu e Petrópolis se manteve e é original e bela graças a ele.

Assim, porque dois os centenários transcorridos, escolhemos dois quarteirões para conhecer melhor, em festivo tributo a Koeler, como se fossem duas velas de um bolo.

Selecionamos de um lado o Renânia Inferior e de outro o Palatinato Inferior. A idéia tem também ligação com o fato de Koeler haver nascido em Mogúncia, capital da Renânia-Palatinato.

Para acender tais velas é preciso, no entanto, da chama que as tranforme em fontes de luz.

Esta chama são os princípios básicos que nortearam as ações de Koeler e que fazem da planta e das instruções para o erguimento da cidade uma verdadeira obra de planejamento urbanístico, de acordo com as idéias mais avançadas da época e até hoje vigorantes, precursoras mesmo de duas exigências atualmente essenciais, a social e a ecológica, dando a Petrópolis, com toda a justiça, o título de primeira cidade planejada do Brasil.

Resumidamente, porquanto se trata de um painel, apenas enunciamos os critérios fundamentais do Plano, lembrando, para bem interpretá-los, que, como sempre acontece, o resultado passa a ser independente do criador e, por vezes, ultrapassa os limites da concepção inicial.

Queremos citar:
– as partes componentes da cidade foram determinadas pela finalidade de cada qual (por isto, Vilas e Quarteirões);
– as características da finalidade das partes ditaram as diferentes dimensões da divisão do solo (prazos menores e mais numerosos nas Vilas e maiores nos Quarteirões);
– em especial, nos Quarteirões a área de um prazo foi calculada de modo a fornecer condições de sobrevivência independente à família nele estabelecida (visão social de grande avanço);
– respeito à configuração natural, física, na delimitação das partes da cidade, na formação dos prazos e no traçado, construção e manutenção das vias de circulação e praças (ecologia, considerada com grande antecipação);
– preceitos específicos quanto a ocupação, divisão e transmissão dos prazos.

Bastam os pontos acima, não exaurientes das idéias do plano, para se ter a certeza do brilho do autor e de que a obrigação de conhecer e respeitar o Plano Koeler devia constar do juramento de cada Prefeito, de cada Vereador e do preparo e do saber de todos os funcionários municipais.

Com estas rápidas considerações vamos tornar explícito o nosso meditativo passeio pelos dois Quarteirões eleitos para comemorar o bicentenário.

Vejamos os principais limites em vias públicas, para formarmos ou revigorarmos um conceito claro da área deles, base física para posteriores considerações mais aprofundadas e de outras ordens.

Em primeiro lugar, o Renânia Inferior.

De modo geral, ele começa, na parte baixa da bacia do Rio Quitandinha, na Rua Washington Luiz n. 85 e Rua Professor Pinto Ferreira n. 180, onde se deixa a Vila Imperial nos ns. 71 e 160, respectivamente, e vai até a Rua Coronel Veiga, pouco depois das Duas Pontes, n. 29, aproximadamente, ponto de encontro com o Renânia Central.

Deste eixo constituído pelo Quitandinha têm-se as encostas e outros acidentes geográficos das margens esquerda e direita do rio.

A partir da margem esquerda, depois da já citada Rua Professor Pinto Ferreira, existe a elevação (continuação do Morro do Cruzeiro) que vai passar pela encosta que propiciou a construção de outras importantes vias de limite com a Vila Imperial. Trata-se, aqui perto, da Rua Monsenhor Bacelar n. 31 e da Rua do Encanto, situando-se entre elas o prédio da Universidade Católica de Petrópolis. Do lado da Vila Imperial está a Rua Barão de Amazonas. Em seguimento, a linha na parte elevada do terreno vai até um ponto da encosta das Ruas Sete de Abril e Frei Rogério, que pertencem ao Quarteirão Nassau.

A partir da margem direita, ao lado da mencionada Rua Washington Luiz a linha de limite sobe a encosta e vai encontrar a Rua 24 de Maio n. 258, aproximadamente, esquina com a Rua Antonio Soares Pinto. Esta é cortada pelo limite em alguns pontos. Para baixo da 24 de Maio e da Antonio Soares de Pinto estão as Vilas Imperial e Teresa. O Renânia Inferior continua por cima do morro e vai a um ponto de encontro com a Vila Teresa e o Quarteirão Castelânea ao descer para a Rua Conde Afonso Celso, ao lado da Rua Cel. Albino Siqueira.

Vamos agora observar a linha que se estende para a esquerda e para a direita do falado limite na Rua Coronel Veiga.

Para a esquerda a fronteira passa pela uma vez dita Praça Dr. Seabra (acesso ao prédio Stefan Zweig) e pela Rua Gonçalves Dias n. 50, deste número para cima sendo área do Quarteirão Renânia Central e depois do Presidência. Após assim atravessar a Gonçalves Dias, a linha corta por diversas vezes a Rua Paulo Lobo de Morais, confrontando ora com o Renânia Central, ora com o Presidência. Está-se, então, na parte alta do Renânia Inferior. A Rua Visconde de Itaboraí n. 484, em frente à esquina com a Rua Paulo Lobo de Morais, e a Rua 29 de Junho n. 57 separam-no do Quarteirão Presidência.

Mais adiante é em alguns pontos da Rua Nossa Senhora Aparecida e da Rua Coriolano da Silva Bastos e no n. 355 da Rua Thomaz Cameron que existem os limites com os Quarteirões Nassau e Ingelheim. Daí, uma linha a meia-encosta das Ruas Frei Rogério e Sete de Abril separa Nassau e Renânia Inferior, modo pelo qual se fecha a traçado até aqui percorrido.

Para a direita do Rio Quitandinha, saindo da Rua Coronel Veiga, a linha de divisão do Renânia Inferior corta as Ruas Demerval de Miranda e Napoleão Esteves, em alguns trechos e atravessa a Saldanha Marinho nos ns. 240 e 265 (275), deixando da outra parte o Quarteirão Castelânea. Daí a marca divisória sobe e vai cruzar a Rua 24 de Maio no seu topo, próximo aos ns. 719, 728, onde a via passa a se denominar 1º de Maio, já em solo do Castelânea. Seguindo pela parte alta, a linha vai formar uma inclinação até encontrar o dito ponto de reunião da Vila Teresa e do Castelânea, na Rua Conde Afonso Celso.

É importante ressaltar que os prazos do Renânia Inferior estão individualizados na numeração da série 1400 e que nesta Renânia se acham a Universidade Católica de Petrópolis, a Casa de Santos Dumont, o Asilo da Terra Santa (em terras que foram de Koeler e onde deu ele o último suspiro), a Casa da Providência, o Trono de Fátima, o Palácio Itaboraí, a antiga Fábrica São Pedro de Alcântara, a Loja da Maçonaria, a casa onde morreram Stefan Zweig e esposa.

As instituições em atividade bem poderiam incluir nos seus endereços a menção ao Quarteirão Renânia Inferior, assim não só dando difusão à originalidade de Petrópolis, como contribuindo enormemente para o revigoramento do uso da nomenclatura urbana correta.

Eis acesa uma das velas do bolo da festa bicentenária. Vamos à outra.

O Palatinato Inferior.

O Quarteirão acompanha o Rio Palatino. Na parte mais baixa desta bacia, ele está na margem esquerda, na Rua do Imperador, em frente à Travessa Prudente Aguiar, que lhe pertence. Dali segue pelo lado impar da Rua do Imperador em direção às Praça da Inconfidência e Igreja de Nossa Senhora do Rosário, que estão em seu território já na margem direita do Palatino. Em linha quebrada de limite com a Vila Imperial, afasta-se da Rua do Imperador pela dita Travessa Prudente Aguiar, corta a Rua Paulo Barbosa, sendo seu o prédio de n. 276 e da Vila Imperial o de n. 272, e segue pelas encostas ao longo das Ruas Souza Franco e Visconde de Bom Retiro. Passa por esta na altura dos ns. 315, 334, para cima ficando a Vila Teresa, e ganha a Rua Teresa no n. 51, lado impar que vai ser seu até o n. 651, pertencendo o lado par à Vila Teresa. Do dito n. 651 da Rua Teresa desce para as Ruas Arnaldo de Azevedo e Dr. Sá Earp, onde confronta com a Vila Teresa.

O lado impar da Rua Dr. Sá Earp é todo do quarteirão, ao passo que é dele o lado par até a divisa entre os ns. 592 e 600, local de fronteira com a Vila Teresa. Da esquina da Rua Dr. Sá Earp com a Rua Gal. Marciano Magalhães até o n. 251-251A desta têm-se terras do Palatinato Inferior e daí para cima do Palatinato Superior. Pelo alto das encostas, a linha divisória com este último engloba as Ruas Adão Braun, Anita Garibaldi, Bartolomeu Sudré e desce para a Rua Santos Dumont, cortando-a nos ns. 616-617 e 234-239, perdendo o trecho de intervalo entre estes números para o Quarteirão Suíço. Prosseguindo em sua descida e sempre confrontando com o Suíço, atravessa a Rua Buenos Aires nos ns.88 e 91 e o início da Casemiro de Abreu, junto à Benjamin Constant. Desta atinge o n. 187 da Rua Silva Jardim, que a partir dali é da Vila Imperial. Da Silva Jardim a linha divisória retorna à Floriano Peixoto, assim se completando o fechamento do quarteirão.

A numeração dos prazos do Palatinato Inferior está na série 2200. No território dele estão a Estação Rodoviária, a Praça da Inconfidência, a Igreja do Rosário, o Posto de Saúde, a Universidade Católica de Petrópolis, o histórico imóvel do antigo colégio Paixão (espaço previsto por Koeler para ser a Praça de Meinz), a usina das Águas do Imperador para tratamento de esgoto, várias lojas da Rua Teresa, o Clube Dona Isabel, a Sub-Estação da CERJ a antiga Fábrica de Pregos, hoje Brazaço Mapri.

Repete-se a mesma idéia de utilização do nome do quarteirão nos endereços.

Estão, portanto, avivados os quarteirões em nossas mentes e acesas as duas velas comemorativas do bicentenário do nascimento deste engenhoso homem, criador no Brasil de uma cidade especialíssima, que nos cabe proteger e desenvolver acertadamente, segundo os avançados princípios que o animaram.

É a homenagem que humildemente lhe prestamos neste painel.