O EXÉRCITO E A REVOLUÇÃO FARROUPILHA – UMA RELEITURA

Cláudio Moreira Bento

Com a Abdicação de D. Pedro I, forças políticas que assumiram os destinos do Brasil provocaram um enfraquecimento do poder militar do Brasil, sob o falso lema de que as Forças Armadas não podiam ficar nas capitais e sim na defesa das fronteiras e do litoral e com base nesta falsa premissa:

“Forças numerosas e permanentes são uma ameaça: À Liberdade. À Democracia. À Prosperidade econômica. À Paz .”

O caso mais gritante foi a dispensa, por estrangeiro, do Tenente Emílio Mallet, atual patrono da Artilharia, então consagrado herói em Passo do Rosário e que havia cursado a Escola Militar do Brasil .

No Rio Grande do Sul esta política atingiu radicalmente a estrutura do Exército, ao ser ordenado que o Batalhão de Artilharia, ao comando do Major de Artilharia José Mariano de Mattos fosse aquartelar em Rio Pardo. José Mariano era carioca formado pela Escola Militar. Na República Rio-Grandense para cuja adoção ele influiu decisivamente, depois da vitória de Seival, em 10 de setembro de 1836, pela Brigada Liberal de Antônio Neto, ele foi Ministro da Guerra e da Marinha, Vice-Presidente da República e Presidente da República interino, além de autor do brasão que figura na bandeira da República Rio-Grandense que foi adotado para o Rio Grande do Sul pelos constituintes de 1891. Assunto que abordamos em nosso livro Símbolos do Rio Grande do Sul… Próximo do final da Revolução ele foi preso em Piratini, por Chico Pedro ou Moringue, e mais tarde Barão de Jacuí e mantido preso em Canguçu, a sua base de operações, em cadeia que mandara construir como “quarto de hóspedes para os farrapos”, como ironicamente divulgava. Finda a Revolução, José Mariano de Mattos foi o Ajudante General de Caxias na guerra contra Oribe e Rosas em 1851-52 e ao retornar ao Rio retomou sua carreira, sendo Ministro da Guerra em 1865.

O Major de Infantaria João Manuel Lima e Silva, tio de Caxias, por irmão de seu pai o Brigadeiro Lima e Silva, possuía o curso da Escola Militar e comandava a unidade de Infantaria do Exército em Porto Alegre. Unidade que foi transferida com ele para São Borja e para lá se deslocando, estacionou em Rio Pardo, por falta de condução para seguir para seu destino. Ele foi um dos que opinaram pela proclamação da República Rio- Grandense e pela qual ele foi eleito o primeiro General farroupilha. Comandou o Exército Farrapo em Pelotas, com vistas à reconquista da cidade de Rio Grande, até sofrer ferimento no maxilar, deformador de seu rosto, sendo obrigado a ir tratar-se no Uruguai. Terminou sendo assassinado em São Borja de onde foi exumado e sepultado com toda a pompa e circunstância em Caçapava, onde mais tarde seu túmulo foi profanado por imperiais e seus ossos espalhados pelos campos. Esta introdução serve para se entender a ação dos dois e de seus comandados do Exército, em Rio Pardo para a eclosão da Revolução Farroupilha.

Revoltados com ações sutis contra o Exército visando ao seu enfraquecimento ou erradicação, passaram a conspirar uma revolução. Vale lembrar que os Coronéis Bento Gonçalves da Silva e Bento Manoel Ribeiro eram oficiais de Estado-Maior do Exército e que em data recente haviam comandado unidades de Cavalaria do Exército, respectivamente em Jaguarão e Alegrete e que elas com a de Bagé haviam sido enfraquecidas radicalmente pelo Governo, por reduzirem seus efetivos de cerca de 800 homens para cerca de 100. E os dois Bentos estavam revoltados com esta situação. A Bento Gonçalves cabia na época o comando da Guarda Nacional do Rio Grande do Sul, integrada por estancieiros, fazendeiros e charqueadores e mais pessoas que conseguissem mobilizar e que estavam revoltadas com o aumento imposto sobre a légua de campo e com impostos escorchantes sobre o charque gaúcho, beneficiando o charque dos uruguaios e argentinos, inimigos de ontem.

A Guarnição do Exército do Rio Grande do Sul era a mais poderosa do Império. E estes desgostos com impostos somados aos de militares do Exército e da Guarda Nacional, serviram de combustível para o 20 de setembro de 1835, decidido numa reunião maçônica em Porto Alegre, no dia anterior, em que estavam presentes Bento Gonçalves e José Mariano de Mattos, bem como depois para o 11 de setembro de 1836, no Campo do Meneses, aproveitando o êxito da vitória farrapa de Seival. O Coronel do Exército Joaquim Pedro, herói farroupilha esquecido pela História, era veterano no Exército das lutas para expulsar Napoleão da Península Ibérica e foi quem organizou o Corpo de Lanceiros Negros Farroupilha, e o estudamos em O Exército Farrapo e Os Seus Chefes, v1, p.168/170. História é verdade e justiça !

Em Rio Pardo os Majores do Exército José Mariano e João Manuel fundaram, em 7 de abril de 1835, no 4º aniversário da Abdicação de D. Pedro I, a Sociedade Defensora, agitando as questões aqui abordadas, terminando 17 dias mais tarde, em 24 de abril de 1835, ocorrendo o assassinato do Juiz Casemiro de Vasconcelos Cirne, às 9 da manhã. Juiz que processava acusados de promoverem agitação política em Rio Pardo. O Major José Mariano foi acusado de envolvimento, não provado, na morte do Juiz e foi enviado preso para Porto Alegre onde era deputado provincial.

Esta participação do Exército na Revolução Farroupilha até bem pouco não abordada pela historiografia a conclui em nosso citado livro O Exército Farrapo e Seus Chefes, elaborado depois de detida pesquisa em fontes primárias na coleção Anais do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul.

A Revolução Farroupilha de 20 de setembro de 1935 evoluiu em 11 de setembro de 1836 para a proclamação da Republica Rio-Grandense que duraria cerca de 9 anos. Revolução que influenciaria 44 anos mais tarde a Proclamação da República Federativa do Brasil, proclamada sob forte influência de oficiais que atuaram na Questão Militar no Rio Grande do Sul, ao tempo em que o Marechal Deodoro da Fonseca, em 1886, fora o Presidente e Comandante das Armas do Rio Grande do Sul e lá recebera a influência republicana de Júlio Prates de Castilhos e de Assis Brasil.

E vindo para o Rio, o Marechal Deodoro e seu grupo fundaram o Clube Militar no ano seguinte, em 1887. Em 1888 influíram decisivamente na abolição da Escravatura, ao protestarem pelo uso do Exército como capitão de mato para perseguir escravos fugidos. E finalmente, em 1889, três anos depois da Questão Militar no Rio Grande do Sul, proclamaram a República Brasileira, já com 116 anos e que caminha para duplicar os anos de duração do Império.

Tanto influiu a República Rio-Grandense na adoção da República do Brasil que os constituintes gaúchos de 1891, adotaram como símbolos do Rio Grande do Sul a bandeira, brasão e hino da República Rio Grandense.

A República Rio Grandense não foi só feita e conduzida por gaúchos. Dela participaram com destaque dois fluminenses, oficiais José Mariano de Mattos e João Manoel Lima e Silva, três mineiros que foram Ministros da República, Domingos José de Almeida de Diamantina, Ulhoa Cintra, de São João del Rei, Coronel de Cavalaria do Exército José da Silva Brandão de Ouro Preto, sobrinho neto de Marília de Dirceu e com parentes em Resende. E no campo militar, ao lado dos gaúchos Generais Bento Gonçalves, Antônio Neto, Davi Canabarro e Antônio da Silveira, atuou o paulista de Sorocaba General Bento Manoel Ribeiro.