DONA ARCÂNGELA, A NOBRE DAMA DOS CORRÊAS

Gabriel Kopke Fróes

Dona Arcângela Joaquina da Silva Goulão, filha de Manuel Correia da Silva e Brittes Maria da Assunção Goulão, irmã, portanto, do padre Antônio Tomás de Aquino Corrêa Goulão, e do dr. Agostinho Corrêa da Silva Goulão, casou-se em 1777 com o capitão reformado José da Cunha Barbosa que tinha importante casa de negócio na Corte. Passou a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro, de onde eram os seus seis filhos. Enviuvou moça ainda, mas foi já idosa que veio morar na fazenda dos Corrêas.

Morto o Padre Corrêa em 1826, não pode dona Arcângela conservar a situação agrícola da fazenda no estado de prosperidade anterior, mantendo, no entanto, as tradições de fidalguia deixados por seu irmão. Era, a esse tempo, senhora de mais de sessenta anos e, dispondo ainda de muita energia de vontade, tornara-se notável a benignidade com que tratava os escravos.

Pelos cuidados extremados que dispensou à princesinha Paula Mariana, terceira filha de Pedro I, hospedada para tratamento, como se sabe, nos Corrêas, impôs-se dona Arcângela à gratidão da família reinante. O Imperador consagrava-lhe sincera estima e as duas imperatrizes tratavam-na com muita intimidade. O pequeno Pedro, futuro imperador, brincou em Corrêas com os netos de dona Arcângela.

Pedro I, o soberano estróina, tomara-se de familiaridade com os Corrêas e muitas vezes subiu, por desfastio, às nossas paragens em companhia de amigos. A recordação do hóspede imperial está perpetuada no nome do famoso Poço do Imperador que merecia sua predileção.

Dele, conta-se que, certa feita, passando pelo rancho grande destinado à pousada dos tropeiros onde se realiza animadíssimo batuque, mandou às urtigas sua condição de governante e entrou na patuscada, cantando ao desafio, sapateando e batendo palmas com os dançadores consumados.

Cena bizarra essa, com o Imperador, num alpendre de tropeiros, à luz fumarenta dos candeeiros de azeite, dançando com o belo sexo, cujo matiz variava entre o jambo e a jaboticaba …

Foi durante a viuvez de três anos do Imperador que se tornaram mais frequentes suas visitas aos Corrêas. O ardoroso Bragança, na Corte, amofinava-se deveras com tal estado de coisas, tanto mais que já iam arrefecendo os entusiasmos pela Marquesa de Santos.

Enquanto isso, o Marquês de Barbacena, encarregado de arranjar a noiva, fraquejava na tarefa tão eriçada de embaraços, face aos deploráveis precedentes matrimoniais do pretendente. Nas cortes européias, circulavam até boatos do próximo casamento do imperador com a famosa Marquesa …

Por isso mesmo, Pedro I compreendera, enfim, a conveniência de afastar de sua corte a imperial amante. E já não lhe repugnaria, até, um definitivo afastamento.

Foi daí que veio ao Imperador, como primeiro passo em tal sentido, a idéia de, sob o pretexto de tomar ares, levar a Marquesa para a casa dos Corrêas, onde ele, Imperador, sempre fora bem acolhido. O local estava a calhar …

Andava, pois, o Bragança, em uma de suas vilegiaturas nos Corrêas, a ensaiar conversa sobre o assunto com dona Arcângela, quando certo dia, tomado de coragem, acercou-se da veneranda fazendeira e fez-lhe sentir o desejo de hospedar ali, por alguns meses, pessoa que muito lhe merecia, ilustre dama da nobreza que viria acompanhada de seus filhos pequenos …

Dona Arcângela teve a intuição de quem seria a tal senhora e respondeu:

– Bem sabeis que esta casa vos pertence e estará sempre aberta à pessoas da amizade de Vossa Majestade. Apenas permitir-me-ei indagar a quem terei a honra de hospedar

– Trata-se da senhora Marquesa de Santos, informou o Imperador.

Dona Arcângela, a boa e doce velhinha, merecera a amizade franca da infortunada Imperatriz e conhecera-a intimamente, não ignorando as amarguras e os vexames de sua vida conjugal. Não se cansava ela de pedir à excelsa Virgem do Amor Divino, para a nobre soberana do Brasil, a paz que não tivera na terra. Relembrou, naquele momento, o muito que a Marquesa fizera sofrer à esposa de Pedro I e não teve sequer um vislumbre de transigência para com seu imperial interlocutor: não poderia, de ânimo tranquilo, suportar a presença da desabusada paulista e dos filhos de sua macebia com o Imperador. E depois de um silêncio demorado, muito penoso para a altivez do soberano, respondeu com firmeza:

– A casa que abrigou dona Maria Leopoldina, suavizando momentos de aflição, não deveria servir de hospedagem à senhora Marquesa de Santos; mas Vossa Majestade é quem manda e a senhora marquesa será servida com as honras devidas à sua jerarquia.

E ajuntou, serena e digna, a cabeça levantada, encarando bem de frente o herói da Independência:

– Mas Vossa Majestade far-me-à a graça de conceder que eu me retire antes que a senhora marquesa aqui ponha os pés.

– Oh! Senhora, nesse caso, ela não virá, replicou prontamente o Imperador.

E a Domitília não veio mesmo para Corrêas …

Diante de tanta altivez e superioridade de caráter, o Senhor Pedro I reconheceu a leviandade em que incorrera e desistiu do seu intento. Mas continuou a tributar à intemerata velhinha o maior respeito e amizade.

Tanto que, mais tarde, nomearia dona Arcângela dama de honra da segunda Imperatriz e pretendeu conceder-lhe um título nobiliárquico que a respeitável senhora pediu licença para não aceitar.

Um outro episódio pouco conhecido ocorrido com dona Arcângela e o nosso primeiro D. Pedro.

Em dezembro de 1829, Pedro I, encantado pelo belos ares da fazenda dos Corrêas, propôs sua compra a dona Arcângela. Respondeu-lhe a proprietária que, embora nutrindo bons desjos de anuir à proposta, havia, contudo, um compromisso de família de não passar a fazenda a mãos estranhas.

Pediu o Imperador, então, que ela lhe indicasse outra propriedade nas imediações, informando dona Arcângela que talvez o dono da vizinha fazenda do Córrego Seco se desfizesse de suas terras.

E quando a Família Imperial regressou dos Corrêas para a Corte – reza a história – o Imperador, de passagem pelo Córrego Sêco, indagou do major José Vieira Afonso se queria vender sua fazenda e qual o preço, ao que o major teria respondido que a cederia por cinqüenta mil cruzados. Concordando com preço, o Imperador, dali mesmo, determinou as providências para que se efetivasse a compra, lavrando-se a competente escritura, no Rio de Janeiro, a 6 de fevereiro de 1830.

Aquela escritura seria o alicerce de uma grande povoação, porquanto a aprazível Fazenda do Córrego Seco que, de fazenda só tinha o nome, converter-se-ia, três lustros após, nesta querida e muito imperial cidade de Petrópolis de que tanto nos orgulhamos.

Houvesse, porém, a veneranda irmã do Padre Corrêa, acedido à instâncias de Pedro I, é provável que, invertendo-se os papéis, Corrêas gozasse hoje as vantagens de sede do município, ostentando o garbo de cidade, enquanto que o pobre Córrego Sêco seria apenas um aprazível bairro de Corrêas …