EXTERNATO MODELO
– Um exemplo de escola primária particular em Petrópolis, na primeira metade do século XX

Vera Lúcia Salamoni Abad, Associada Titular, Cadeira n.º 37 – Patrono Sílvio Júlio de Albuquerque Lima, com a colaboração de Patrícia Ferreira de Souza Lima, Associada Titular, cadeira n.º 36 – Patrono José Vieira Afonso

 

Tópicos:
1. Memória
Testemunho dos ex-alunos e descendentes das professoras do
Externato Modelo.

2. A escola primária do Império ao início do século XX
A República
Primeiras regulamentações: cada estado/província fazia a sua
O Currículo
A Nova Escola

3. Escola de cunho familiar
Escola particular no fundo do quintal
O Externato – o local

4. As professoras
Parentes entre si
Relacionamento com os alunos

5. O Externato – práticas
O dia a dia
O currículo
O uniforme
Recursos
Horários
Festas
Prêmios
A ação educativa

6. O que deve ser registrado e guardado
O legado
Aprendizagem para o presente e futuro

EXTERNATO MODELO

1. Memória

“O segredo da verdade é o seguinte: não existem fatos, só existem histórias”.

O dizer encontra-se em epígrafe na abertura da obra Viva o Povo Brasileiro de João Ubaldo Ribeiro, onde a história do nosso povo é relatada por seus protagonistas.
Este é um modo válido de se registrar a história: a verdade multi facetada, dependente de vários olhares diferentes resultante de inúmeros pontos de vista torna inviável um relato único dos fatos.
Ao procurar os fatos relativos ao Externato Modelo, escola que constituiu um marco na educação petropolitana na primeira metade do século XX, constatamos que os dados que registram sua existência são escassos, quase nada podendo se encontrar em documentos oficiais. Restou-nos assim, o recurso de basear este trabalho nas histórias e guardados, memórias dos descendentes das professoras e dos que ali receberam seus ensinamentos escolares, como se dizia, onde “aprenderam as primeiras letras”.
Chamados a prestar seus depoimentos, todos acolheram com prazer a oportunidade de falar sobre suas experiências infantis no trato com suas professoras, no dia a dia do trabalho escolar, nos convívio com os colegas e principalmente no que ficou para suas vidas como resultado do processo educativo que receberam no Externato Modelo.
A todos agradecemos de coração, o carinho, a atenção, a presteza em atender ao chamado, a valiosa colaboração.
Com o conteúdo de tais testemunhos e dados recolhidos, apresentamos a seguir, a ser registrada nos arquivos do Instituto Histórico de Petrópolis, a memória do Externato Modelo que funcionou de cerca de 1927 a 1962 nos fundos dos prédios nº 1070 a 1078 na Av. XV de Novembro, atual Rua do Imperador.

 

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 Prédio  pertencente à família Corrêa. Av. XV de novembro 1070 a 1078. Foto Ernani Abad. (2014) O Externato Modelo funcionava em salas nos fundos do prédio.

2. A escola primária

O Externato Modelo definia-se como escola primária particular, mista, leiga, atendendo, portanto, a crianças de ambos os sexos de sete a onze anos, sem distinção de raça ou credo, mediante pagamento.
Devia ter algum tipo de registro oficial, o qual, porém, não pode ser encontrado, nem sequer um alvará de localização municipal. Devia obedecer a algum tipo de regulamentação oficial, mas como veremos a seguir, o decreto lei nº 8529 da Presidência da República que estabelece a Lei Orgânica do Ensino Primário para todo o país data de 1946, quase vinte anos depois da fundação da escola.
Até então, a prática do ensino primário carecia de homogeneidade, dependendo de leis estaduais e seguindo procedimentos sedimentados na experiência prática dos estabelecimentos de ensino conceituados.
Não que a preocupação com a educação pelos órgãos públicos no Brasil não venha de longa data.
Após a independência, em 1822, havia que se estabelecer a organização do novo império desligado das práticas portuguesas aplicadas a sua colônia. A primeira lei de educação data, pois, de 15 de outubro de 1827 e entre outras disposições, garantia que em toda freguesia ou vila devia haver uma escola.

“Lei de 15 de outubro de 1827

D. Pedro I, por Graça de Deus e unânime aclamação dos povos,
Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil:
Fazemos saber a todos os nossos súditos que a Assembléia Geral
decretou e nós queremos a lei seguinte:

Art. 1o Em todas as cidades, vilas e lugares mais populosos,
haverão as escolas de primeiras letras que forem necessárias

Art. 2o Os Presidentes das províncias, em Conselho e com audiência
das respectivas Câmaras, enquanto não estiverem em exercício
os Conselhos Gerais, marcarão o número e localidades das
escolas, podendo extinguir as que existem em lugares pouco
populosos e remover os Professores delas para as que se
criarem, onde mais aproveitem, dando conta a Assembléia
Geral para final resolução.

Art. 3o Os presidentes, em Conselho, taxarão interinamente os
ordenados dos Professores, regulando-os de 200$000 a
500$000 anuais, com atenção às circunstâncias da população
e carestia dos lugares, e o farão presente a Assembléia Geral
para a aprovação.
Era a criação da escola pública, de responsabilidade governamental. Carecia ainda de regulamentação, o que sucedeu com a publicação do Regulamento da Instrução Primária e Secundária da Corte, em 1854, estabelecendo princípios a serem seguidos pelas escolas públicas e privadas e tratando também da formação dos professores.
“Decreto nº 1.331-A, de 17 de Fevereiro de 1854
Approva o Regulamento para a reforma do ensino primario e secundario
do Municipio da Côrte.
Hei por bem, na conformidade do artigo 1º do Decreto nº 630
de 17 de Setembro de 1851, Approvar o Regulamento para a reforma do
ensino primario e secundario do Municipio da Côrte, que com este baixa,
assignado por Luiz Pedreira do Coutto Ferraz, do Meu Conselho,
Ministro e Secretario d’Estado dos Negocios do Imperio, que assim o tenha entendido e faça executar.
Palacio do Rio de Janeiro, em dezesete de Fevereiro de mil oitocentos
cincoenta e quatro, trigesimo terceiro da Independencia e do Imperio.
Com a Rubrica de Sua Magestade o Imperador.
Luiz Pedreira do Coutto Ferraz.
Regulamento da instrucção primaria e secundaria do Municipio
da Côrte, a que se refere o Decreto desta data “

Apesar das leis e regulamentos, porém, a educação que na 1ª metade do Século XIX, permanecia nas mãos da iniciativa privada, assim continuou na 2ª metade, predominantemente. Eram escolas bem estabelecidas de confissão leiga ou originárias do trabalho educativo de ordens religiosas que atendiam as crianças em caráter caritativo e /ou mediante pagamento.
Em ambos os casos, leigas ou religiosas, tais escolas forneciam à população urbana, educação de qualidade.
Atendendo às disposições publicadas em 1854, as escolas públicas foram instaladas a princípio em prédios alugados e adaptados. Só depois foram empreendidas as construções próprias para as escolas as quais tiveram formato de palacetes, e somente em 1872 seria inaugurada a primeira escola pública em prédio próprio, na corte.

 

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Prédio de escola primária em Manaus

 

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Prédio atual do Colégio Pedro II no Rio de Janeiro

 

Conta a história que D. Pedro II tinha especial atenção voltada para a educação infantil, visitando escolas onde quer que fosse. Ficou famosa uma visita surpresa que fez em escola no interior da Província de Minas de Gerais, quando chegou à cidade inaugurando uma linha de trem: tão logo saltou, foi direto à escola próxima à estação, para saber do andamento das aulas.
Na sua querida Petrópolis, não faltaram escolas desde os primórdios de sua construção. O próprio Koeler providenciou escolas para os filhos de colonos logo após sua chegada conforme registram seus periódicos relatórios à mordomia imperial.
Mas o que se ensinava? Como se ensinava?
A preocupação com o currículo e com métodos de ensino na escola dita primária ou fundamental, ficava muito aquém da preocupação com a institucionalidade do processo. Havia regras para o exercício do magistério, para formação e escolha de professores, para fiscalização das escolas, leis e regulamentos vários, mas o currículo era estável e os objetivos apenas gerais.
O movimento de renovação do ensino de origem suíça, conhecido como Escola Nova chegou ao Brasil por iniciativa de Rui Barbosa ainda no final do império em 1882, mas só tomou força depois da proclamação da república quando a jovem democracia brasileira buscava novos caminhos para acompanhar o desenvolvimento mundial.
Rui Barbosa empenhou-se em organizar currículos e diretrizes que, no entanto, não chegaram a ser implantados. O escolanovismo só ganhou impulso a partir do “Manifesto dos Pioneiros da Educação” publicado em 1932, cujo relator foi Fernando Azevedo.
O ponto fundamental da Escola Nova de Ferrière (Adolphe Ferrière, Genebra 1879 – Genebra 1960) era libertar o aluno da tutela do adulto para colocá-lo sob a tutela de sua própria consciência moral. Deveria existir um modelo escolar no qual se confiaria aos alunos a disciplina e o seu funcionamento. Todo formalismo da escola e todas as práticas que estivessem à margem da vida deveriam ser banidas dos meios educacionais.
Porém, a experiência mostra que estes princípios foram adaptados ou adotados com mais frequência em escolas experimentais de caráter privado e na escola pública em apenas alguns estados, sendo sua prática mais evidente nos estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro e Guanabara já na década de 60.
As primeiras leis de reforma do padrão escolar foram de caráter estadual. Apenas a partir da década de 30, sucederam-se as leis federais de reforma de ensino, sendo as de Francisco Campos, então ministro da educação em 1931/1932 separando os ciclos de estudos e estabelecendo o curso fundamental de 4 a 5 anos obrigatório para o ingresso em qualquer curso superior e outro complementar de 2 anos.
A Reforma Capanema de 1942 traz o retorno às humanidades clássicas e modernas instituindo o currículo clássico e científico.
E, finalmente, em 1946 é promulgada a Lei Orgânica do Ensino Primário, e que mais interessa ao nosso estudo, pelo então presidente José Linhares.
DECRETO – LEI N.8.529 – DE 2 DE JANEIRO DE 1946
Lei Orgânica do Ensino Primário
O Presidente da República, usando da atribuição que lhe confere o art. 180 da Constituição, decreta a seguinte:
Lei Orgânica do Ensino Primário
TÍTULO I
Duas bases de organização do ensino primário
CAPÍTULO I
DAS FINALIDADES DO ENSINO PRIMÁRIO
Estabelece as finalidades do ensino primário:
Título I – Cap. 1
“a) proporcionar a iniciação cultural que a todos conduza ao conhecimento da vida nacional e ao exercício das virtudes morais e cívicas que a mantenham e engrandeçam dentro do elevado espírito de Naturalidade humana.
b) oferecer de modo especial às crianças de sete a doze anos as condições de equilibrada formação e desenvolvimento da personalidade.
c) elevar o nível de conhecimentos úteis à vida na família, à defesa da saúde e a iniciação ao trabalho.
(…)
Artigo 7º O curso primário elementar, com 4 anos de estudos compreenderá
I.Leitura e linguagem oral e escrita
II.Iniciação matemática
III.Geografia e história do Brasil
IV.Conhecimentos gerais aplicados à vida social, à educação para a saúde e ao Trabalho
V.Desenho e trabalhos manuais
VI.Canto orfeônico
VII.Educação física
(…)
Artigo 24 – Os estabelecimentos de ensino primário públicos e particulares formarão em cada Estado, em cada Território um só sistema escolar com a devida unidade de organização e direção.
(…)
Artigo 26 – O sistema de ensino primário em cada Estado e no Distrito Federal terá legislação própria que se atendam aos princípios do presente decreto – lei.

Todo este preâmbulo tem por finalidade tentar situar o Externato Modelo dentro das tendências educacionais do período em que se insere e sua conformidade com as leis então vigentes.
O panorama educacional de Petrópolis foi amplamente reconhecido e registrado. Logo após a sua fundação, além das escolas disponibilizadas por Koeler para os colonos, já mencionadas, o Colégio Kopke fundado em 1845, funcionou como internato para meninos até 1881. A Escola Doméstica de Nossa Senhora Do Amparo data de 1868, o Colégio Santa Isabel, de 1874, o Colégio São Vicente e o Colégio Notre Dame de Sion já estavam em pleno funcionamento no início do sec. XX. Eram colégios que ofereciam regimes de internato e externato e eram mantidos com o pagamento das mensalidades dos alunos e suas ordens religiosas, as quais cumpriam assim sua missão caritativa acolhendo alunos bolsistas em suas premissas, em salas separadas ou nas mesmas salas de aulas dos alunos pagantes.

 

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Prédio do Colégio Santa Catarina na Rua Montecaseros tendo
ao lado a casa de Oswaldo Cruz

 

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Prédio do Instituto C. A. Werneck na Rua do Imperador

 

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G.E. D. Pedro II na rua do Imperador

Nos jornais da época, Tribuna de Petrópolis (1930/31) encontramos propaganda do Colégio Anglo-Petropolitano, o Instituto Inglez de Ensino, com corpo docente de renome, conforme diz o anúncio. O “Collegio Municipal S. Vicente de Paulo, officializado sob inspeção federal”, tem curso preparatório ao exame de admissão. Anunciam também o Gymnasio Imperial na rua Silva Jardim, O Lyceu Fluminense (fundado em 1925), na av. Cruzeiro, o Gymnasio Pinto Ferreira, na Pç Visconde do Rio Branco. Todos, portanto, já existentes no início do século, sendo que já existia uma escola normal, a do Collegio Silvio Leite, equiparada pelo governo do estado , e cujo diretor era o professor Plínio Leite. Também já existia o colégio Santa Catarina na Montecaseros, com internato, semi internato externato e jardim de infância.
Se o Externato Modelo já existia na década de 30, ou se foi criado então, nem um anúncio se fez.
Entre as escolas leigas, o Liceu Fluminense foi depois anexado pelo Colégio São José e o Colégio Plínio Leite deu origem ao Instituto Carlos A. Werneck .
A rede pública teve seu prédio de características palacianas de conformidade com as tendências do século anterior inaugurado em 1922 em terreno doado pela Princesa Isabel lá de seu exílio em D’Eu. Foi o Grupo Escolar Pedro II que na época se tornou padrão de ensino na cidade.
Assim, oriundas da tradição do “arranjo” das escolas improvisadas para a população rural sem acesso aos Grupos Escolares que vinham se implantando nas cidades, implantaram-se também em Petrópolis as escolas primárias de caráter familiar. Eram conhecidas, várias delas, pelo nome de suas professoras – fundadoras, diretoras, proprietárias e, às vezes únicas profissionais, como a de Mme. Jacob e Mme. Taulois. O próprio externato Modelo era também conhecido como o D. Cecília.

Vamos então colocar o Externato Modelo dentro deste último padrão:
Era uma escola pequena, sem grandes comodidades de instalação, atendendo um número pequeno de alunos, a grosso modo, umas 70 a 100 crianças.
De organização familiar – as professoras eram parentes entre si.
De instalações modestas – funcionava em duas salas em corpos separados situados nos fundos da habitação familiar.
De gerenciamento privado.
De diretrizes pedagógicas convencionais.
Sem inovações pedagógicas experimentais de qualquer natureza.
Qual o fator então que fez do Externato Modelo a escola primária tão bem conceituada a ponto de suas vagas serem disputadas e reservadas com até 6 anos de antecedência?
Por que é, na memória de seus ex-alunos, experiência marcante de suas infâncias e formadora de seus princípios e caráter?
São tais memórias agradáveis e ternas ou carregadas de mágoas e penas?
Era uma escola seleta e seletiva, sem dúvida, e muito procurada porque era garantia de base sólida para passar nos exames de admissão ao ginásio.
Seus ex-alunos reconhecem hoje que havia muito mais.
Vamos conhecer o Externato Modelo e suas professoras na voz de seus depoimentos.

3. O Externato Modelo
1. O prédio – a família
Vindo de Portugal em 1869, Antonio Simeão Corrêa da Silva pouco se demorou na corte, passando a se estabelecer na jovem Petrópolis logo no ano seguinte – 1870. Era alfaiate de profissão. Casou-se com Catharina Eisenfeld, descendente de colonos germânicos e fundou a “Alfaiataria Progresso”. Posteriormente o negócio passou a seu filho Mário e seu neto Oldemar que adotaram a denominação “Corrêa e Filho”, já numa loja na então Avenida XV de Novembro.
Antonio Simeão Corrêa da Silva era figura conhecida e bem conceituada nos meios do comércio e serviços da cidade e membro atuante na comunidade portuguesa local, sendo um dos fundadores da Sociedade Beneficência Portuguesa, importante instituição de previdência médica privada. Faleceu em 1925, deixando nove filhos: Mario, Olga, Antônio, Judith, Ana, Cecília, Mercedes, Valde e Gilda. Seu filho Mario Corrêa da Silva casou-se também com uma descendente de colonos germânicos, Mathilde Meyer.

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A família Corrêa tendo ao centro, de pé, Cecília Corrêa da Silva
(acervo Doris Corrêa Guimarães, s/data)

Sua filha, Cecília Corrêa da Silva (1900 – 1962) lecionava e era a diretora do Externato Modelo, Mercedes Corrêa Ribas (1897- 1958), também sua filha; suas netas Maria Antonieta Corrêa da Rocha _ filha de Gilda Corrêa da Rocha, e Odette Corrêa da Silva – filha de Mario, completavam o quadro de magistério.
Com exceção de Mercedes que foi casada e enviuvou, as outras três professoras permaneceram solteiras.
Não se sabe o motivo principal da fundação escola. Nenhuma delas tinha formação profissional, tendo sido alunas de Mme. Jacob segundo informação de Norma Corrêa , filha de Oldemar Corrêa da Silva. É provável que tivessem querido reproduzir os bons resultados do estabelecimento onde haviam estudado e é seguramente possível que querendo abraçar uma profissão ou um trabalho, as opções para o sexo feminino, na época, fossem ainda restritas ao magistério, secretariado ou confecção.
O prédio na então Avenida XV de Novembro era um sobrado duplo com três lojas no térreo, um acesso por escadaria de cada lado das lojas levando ao primeiro e 2º andar que era dividido em duas habitações interligadas por uma varanda na parte posterior. Tomava as numerações 1070,1074, 1078.

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Em 1930 havia registro na Prefeitura de que lá funcionavam uma fábrica de chapéus, uma agência de leilões, e uma pensão. Escola não.
Das plantas apresentadas e aprovadas para construção dos prédios encontradas no arquivo da Prefeitura Municipal de Petrópolis não constam os galpões onde funcionou a escola.
Nos fundos do sobrado havia um pequeno pátio que servia às lojas e duas passagens laterais que levavam a uma construção de cada lado com um também pequeno pátio no meio e o acesso ao morro, vedado por portão de ferro. No morro havia uma mina d’água, fruteiras e horta.
A ideia foi utilizar para a escola a construção no lado direito no fundo do prédio que originalmente, em parelha com o que foi mantido no lado esquerdo, servia de alojamento para empregados. Além deste, foi construída, em madeira, ao longo do muro nos fundos das lojas uma segunda sala onde duas fileiras de carteiras para os alunos alojavam até 32 crianças.
Abaixo uma representação das salas de aulas com a disposição das carteiras para os alunos e mesa das professoras com as informações obtidas dos ex-alunos entrevistados.

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E assim era: duas salas de aula. A maior mediria talvez 6m X 3,5 m 21 m², ou menos. Cabiam duas fileiras de carteiras para três alunos e uma para dois alunos.
As crianças eram inicialmente alfabetizadas no sobrado, numa sala de jantar, por D. Odette. Só desciam para a primeira série com D. Mercedes depois que soubessem ler e escrever e dominassem os números e as continhas.
Na sala de alvenaria funcionavam a 1ª e 2ª séries com D. Mercedes e a 3ª série com D. Antonieta.
Na sala de madeira ficava a 4ª série, com D. Cecília.
O recreio era no pátio cimentado. Meninas de um lado, meninos do outro. Quando chovia, não se podia brincar.
O dia a dia e as impressões na voz dos ex-alunos que tão solicitamente prestaram seus depoimentos, era assim:
“Estudava-se em dois turnos. Entrávamos às 8.30 e já no quadro negro encontrávamos a tarefa para o dia seguinte pronta a ser copiada antes da “dona” chegar”. Alguns almoçavam no colégio: na voz de Edson Herzog de Oliveira, uma refeição dura de encarar. Contestado, porém, por Roberto Murta que além de gostar, achava a refeição bem nutritiva e balanceada.
Os outros iam almoçar em casa e voltavam às 13 h. Mais aula até às 15 h. Aula mesmo, estudo e dever de casa se fazia em casa.
As matérias eram divididas e dosadas atendendo às determinações dos currículos públicos, mas havia muito mais. Aprendia-se o francês como parte do currículo e o inglês era ministrado após as aulas por D. Odette para aqueles que quisessem e pudessem pagar mais.
Ao chegar à escola, pela manhã e à tarde a turma da 4ª série se reunia às outras na sala grande, ocupando, de pé, os intervalos entre as carteiras. Faziam uma oração; aprendia-se o Pai Nosso, a Ave Maria, recitava-se o Credo. A escola era leiga ao aceitar alunos de outros credos, mas as professoras eram católicas e as práticas e as festas religiosas faziam parte do programa. (Veremos depois como era a 1ª Comunhão).
Depois cantava-se. Cantavam hinos pátrios e religiosos, canções em português e francês, sendo muito apreciados o “Frère Jacques” em duas ou três vozes e o “Meunier tu dors” com movimento dos braços imitando as pás do moinho. Mesmo antes dos primeiros ensinamentos, o som da língua francesa se tornava familiar.
O material didático consistia em cartazes ilustrativos, o quadro negro que era negro mesmo e giz. O processo de aprendizagem seguia a ideia do “aprender fazendo”, alguma explicação oral, visualização de cartazes ou da matéria escrita no quadro negro e mãos à obra. Havia uma série de cartazes dispostos como um grande álbum cujas figuras serviam para incentivar a criatividade na hora da redação. Era muito antigo, com personagens que saltavam do século XIX direto para a imaginação de crianças que nunca haviam brincado com um aro de rodar ou se vestido à marinheira, com chapéus e luvas.
Mas redação era coisa séria. Escrevia-se muito e tudo era corrigido imediatamente, e com lápis vermelho. Nada de traumas. O que era bem feito merecia elogios escritos no próprio caderno e o que não estava bom, corrigia-se.
Cadernos. Todos os cadernos eram encapados com papel Kraft e etiquetados. O asseio era cobrado e eventuais “orelhinhas” que surgissem devido ao muito manuseio eram aparadas com tesoura pelas próprias professoras. Cadernos de pauta dupla para os principiantes aprenderem boa caligrafia e de folhas quadriculadas para os exercícios de matemática – cada número num quadradinho! Aprendia-se ordem e asseio desde o início. Lápis preto e borracha, lápis de cor para os desenhos e só. Caneta tinteiro só começava a ser usada na quarta série. Quase todos se recordam da primeira caneta que usaram, alguns ainda as têm. Todos se lembram das pilhas de cadernos que elas levavam no fim do dia para corrigir e que no dia seguinte estavam de volta com todas as anotações feitas. Quem ousaria dizer que não tinha tido tempo de fazer o dever de casa!
Uniforme. Usava-se um avental preto que cobria a roupa até os joelhos, com um monograma bordado em vermelho à altura do peito para identificar o dono. O avental ficava na escola, sendo levado para casa só no fim de semana.
Na hora do recreio, meninas para um lado, meninos para o outro. As meninas pulavam corda e brincavam de roda. Os meninos jogavam um “futebol” adaptado à exiguidade de espaço: agachados ou de joelhos impulsionavam com as palmas das mãos uma bola feita de meia. Marcavam as traves do gol com dois bancos. Protegiam os dedos com esparadrapo.
Só havia um banheiro para todos. Para mantê-lo asseado, lembra Edson Herzog, “uma providência simples e eficaz: todo usuário era obrigado a assinar o nome numa folha de caderno, afixado na porta do sanitário. Bastava um reclamar para que fosse verificado o nome do antecessor, sendo este convidado a limpar o local sob reprimenda da professora.” As memórias do banheiro único são todas coincidentes e bem vívidas.
O medo de tomar um pito, de ser chamado a atenção, fazia com que se prestasse bastante atenção e se deixasse o local o mais limpo possível.
Havia reprimendas sim, mas o incentivo à aprendizagem e à construção de bons hábitos e atitudes positivas se fazia sutil e paulatinamente.
O ensino religioso estava presente nas festas sempre de modo construtivo: em maio, mês de Maria, as crianças eram incentivadas a relatar suas boas ações. Para cada uma delas podia fazer uma espécie de cachinho de papel de seda que seria colocado aos pés da santa. Ou isto se fazia para forrar o berço do Menino Jesus no fim do ano? Que fosse. O empenho é que era a intenção, a preocupação de bom comportamento também fora da escola, a prestatividade e atenção ao próximo, o respeito aos pais e carinho com os irmãos. Tudo valia uma boa ação, um bem a ser anunciado, e dedicado espiritualmente. Quanto aprendizado de vida!
Em junho, encerravam-se as aulas com festas para os santos juninos: Santo Antônio, São João e São Pedro. Os alunos ganhavam doces e estalinhos e podiam subir o morro que ficava além do pátio. Muitos não se lembram de terem passado o portão de acesso nem uma vez.
Curiosamente, o que todos se lembram e têm fotos e recordações foi da Primeira Comunhão feita na capela da Escola Doméstica Nossa Senhora do Amparo na rua que hoje é denominada Av. Roberto Silveira. A preparação era feita no Externato mas havia um dia de retiro no Amparo antes da data da Primeira Comunhão. A missa era cantada pelas alunas do Amparo, enchendo o local com a emoção de suas vozes delicadas. Após a missa havia um lanche servido aos comungantes no refeitório da Escola onde todos se cumprimentavam e havia as trocas de santinhos.
As fotos e os santinhos trocados entre alunos e professoras foram, aqui neste trabalho, elementos preciosos para identificação das pessoas. No entanto, sempre discretas, as professoras não figuram nas fotos, mas derramam seu carinho nos santinhos oferecidos com dedicatórias pessoais para cada comungante. No final deste trabalho estão aqui as dedicatórias de alguns santinhos e fotos gentilmente cedidos por ex-alunos e seus familiares. Uma foto que se constitui verdadeira raridade é a das professoras na casa da família Mora com o aluno Reynaldo Mora na festa de sua 1ª comunhão.
Aliás, o modo de demonstrar atenção e carinho para os alunos era bem diferente naquela época. Nada de “Tias” e beijinhos. A formalidade estabelecia a hierarquia e o respeito.
Tratava-se a professora de “Dona” e as crianças tinham por hábito só usar o tratamento, omitindo o nome da pessoa. “A dona disse que é para copiar até aqui”. “Hi, lá vem a dona!”.
Assim, um elogio da dona tinha valor duplicado. A premiação bem contrabalançava a disciplina reforçada.
Para cada dever bem feito, ganhava-se um bônus que se materializava num retângulo de papel que trazia escrito: BOA NOTA. Dez boas notas eram trocadas por uma maior: NOTA DE SATISFAÇÃO que por sua vez completando dez podiam ser trocadas por uma NOTA DE HONRA. Ao final do ano, as notas de honra eram somadas dando direito a medalhas de metal dourado.

Eis a escola, no currículo, um pouco mais, nada demais, nas práticas, muita objetividade e simplicidade espartana. Onde o segredo? Por que o sucesso? Por que tanta recordação boa?
A dedicação e envolvimento integral das professoras capacitou-as a produzir educação de qualidade: junto com o desenvolvimento intelectual dos alunos, a aquisição de conhecimento se fazia na mesma proporção que a aquisição de valores e hábitos de procedimentos que iam progressivamente se sedimentando.
Se não se pode dizer que havia muito espaço para o desenvolvimento da criatividade ou para dar vazão à espontaneidade infantil. Uma base sólida de habilidades lhes era fornecida para que mais tarde pudessem exercer atividades criativas com segurança, como as práticas de desenho e pintura, trabalhos manuais e bordados, redações, competições de cálculo mental, recitação de versinhos em português e francês. E a história de muitos de seus ex-alunos, prova que isto seguramente aconteceu.
O processo educativo era dosado de modo a não ser sentido: honestidade, responsabilidade, caridade, atenção, respeito iam pouco a pouco sendo exercitados nos deveres, no procedimento, a partir das leituras, do trabalho do dia a dia, nos relacionamentos.
Quando se conta uma história que nos diz da experiência do passado, há que se aprender com ela ou tanto esforço de pesquisa se torna inútil e simplesmente decorativo.
Está cientificamente provada a importância da educação nos primeiros anos de vida. É a partir da experiência adquirida nos primeiros anos escolares que se desenhará o rendimento escolar subsequente e a formação de adultos bem resolvidos.
Educação de qualidade é isto que acabamos de ver: não está no espaço físico, não está no material didático e nem mesmo nas tendências pedagógicas, senão na dedicação de alma, na ciência de que o desenvolvimento das potencialidades de uma criança não se faz mecanicamente, mas conscientemente e integralmente a partir da prática e do exemplo.

 

NOTA DE HONRA PARA
CECÍLIA CORRÊA
MARIA ANTONIETA CORRÊA DA ROCHA
MERCEDES CORRÊA RIBAS
ODETTE CORRÊA,
E seu EXTERNATO MODELO
Petrópolis agradece.

 

 

 

 

 

FOTOS DO ACERVO DE EX-ALUNOS CEDIDAS PARA O PRESENTE TRABALHO:

1 – do acervo de Genô Maria Salamoni Batalha e Vera Lúcia Salamoni Abad.
FOTO TURMA DE 1948

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4ª SÉRIE PRIMÁRIA D. CECÍLIA (na parede do fundo, os cartazes pedagógicos usados para as aulas) A fotos foi tirada na sala de D. Antonieta e D. Mercedes.
Nomes das pessoas cf. anotado no verso da foto por Genô Maria, à época.
1 – CARLOS HUMBERTO
2 – AMAURY
3 – JOSÉ CARLOS
4 – MARCOS
5 – HÉLIO BANAL
6 – MÁRIO LUIZ PINHEIRO
7 – HERNANI
8 – JOSÉ LUIZ
9 – PAULO JOSÉ
10 – ANTONIO JOSÉ SUTTER
11 – FERNANDO MORA *
12 – RENATO SUTTER
13 – JOEL
14 – ALDA
15 – NORMA
16 – NILZA
17 – D. CECÍLIA CORRÊA
18 – MARIA LUIZA TENBRINK
19 – GENÔ MARIA SALAMONI*
20 – LAURA LÚCIA DE ROSE*
21 – JACQUES
22 – RINALDO MASCHERPA*
23 – JOSÉ LUIZ HUSS*
24 – BERNARDO
25 – OSCAR WIEDERKERH*
26 – JOÃO LAURO MURTA
27 – BRENO RATTES
Nota – os assinalados * fizeram a quinta série.

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Primeira comunhão na capela da Escola doméstica N.S. do Amparo 1952

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Café da manhã servido após a comunhão no Amparo. Vera Salamoni Abad e seus pais.
D. Odette ao fundo. 1952.

2 – Fotos do acervo de Reynaldo Mora:

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À frente da casa de Reynaldo Mora na Rua Washington Luiz, no dia
de sua 1ª Comunhão. Da esquerda para direita:
D. Antonieta , D. Odette, D. Cecília e D. Mercedes, e Reynaldo.1952

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Comungantes no pátio do Amparo . Reynaldo Mora à direita. 1952

3 – Foto do acervo de Gilberto e Suzana Nobre:

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Primeira Comunhão 1953 . Apenas algumas identificações: O príncipe D. Pedro na fila do alto, no centro, traje à marinheira, Gilberto Nobre ao lado. Na ponta direita Ronaldo Bastos Tavares. As meninas: Suzana Nobre (1ª à esquerda), Lúcia Feo Nunes (3ª), Maria Isabel Filgueiras(5ª), Dalila Widerkerh (7ª) e Isabel Pereira. (8ª)

 

4 – Santinhos trocados por ocasião da Primeira Comunhão:

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Do acervo de Gilberto Nobre, assinatura das 4 professoras nos santinhos a ele oferecidos
por ocasião de sua 1ª Comunhão. 1953.
5 – Fotos do acervo de Doris Corrêa Guimarães, descendente da família Corrêa.

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Primeira comunhão na família Corrêa. D. Cecília à direita.

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Irineu Corrêa, 1900- 1935, o piloto de carros de corrida, na varanda dos fundos do prédio dos Corrêa.
Era irmão de Odette Corrêa.

Agradecimentos a todos que colaboraram na feitura do presente documento. Em especial, o testemunho de todos os ex alunos que nos forneceram textos, fotos, santinhos e, com muita boa vontade e satisfação compartilharam conosco suas memórias: Edson Herzog de Oliveira, Gilberto de Almeida Nobre, Pedro Augusto Romão, Reynaldo Mora, Roberto de Oliveira Murta, José Carlos Lopes, Neyse de Aguiar Lioy e Ronaldo Bastos Tavares (in memoriam).
Agradecimentos a Norma Corrêa da Silva, Maria Regina Gouvêa e Doris Corrêa Guimarães, membros da família Corrêa que nos atenderam com seus testemunhos sobre a história dos familiares e sobre a escola em particular, fornecendo nomes e fotos.
Agradecimentos a Patrícia Souza Lima e Adriane Queiroz que nos auxiliaram na condução das entrevistas e a Ernani Abad pelas fotos do prédio na atualidade.

Referências:
– Concepções de educação integral na década de 30: as teses do II congresso internacional feminista – 1931 Naílda Marinho da Costa Bonato, Lígia Martha Coimbra da Costa Coelho – 2007
– Educação escolar na Primeira República: memória, história e perspectivas de pesquisa. Alessandra Frota Martinez de Schueler, Ana Maria Bandeira de Mello Magaldi _ 2008
– Práticas de gestão e feminização do magistério. Flávia Obino Corrêa Werle – Cadernos de Pesquisa.
2005.
– Educação doméstica e escolaridade formal no Rio de Janeiro oitocentista . Maria Celi Chaves
Vasconcelos. Universidade do Estado do Rio de Janeiro – Uerj Universidade Católica de Petrópolis.
2009.