O HERÓICO SARGENTO BOENING

Gabriel Kopke Fróes

Baía da Guanabara, 23 de novembro de 1944. O dia desponta e a débil claridade mal deixa ver o “General Meigs”, grande transporte de guerra norte-americano que, comboiado por cruzadores e aviões, demanda a barra do Rio de Janeiro, de partida para além-mar.

É o 4º Escalão da Força Expedicionária Brasileira, integrado por 4691 oficiais e praças, a embarcar para o teatro de operações de guerra na Itália.

A bombordo, entre outros, estão debruçados à amurada dois nossos conhecidos: o tenente Virgínio de Morais e o 3º sargento Francisco Luís Roberto Boening. Olhos fixos no horizonte, absortos, contemplam algo que, pelo jeito, deve ser muito importante: além, muito além, onde a terra acaba e o céu começa, já se vislumbra através da névoa, sob a luz hesitante do sol nascente, a serra de Petrópolis. Sensibiliza-os o quadro fugitivo, pois lá haviam deixado seus parentes: o tenente, a esposa e os filhos; e o sargento, os pais e irmãos e mais quem sabe? – outra pessoa também muito querida … E ali, alheios a tudo em volta, permaneciam ambos, enleados que se achavam na trama da saudade e da imprevisibilidade da sorte de quem parte para a guerra! …

Clareou, enfim, o dia e, nesse instante, ouve-se, pelo alto-falante de bordo, uma mensagem aos expedicionários:

“Soldados! Contemplemos o cenário imponente da Capital Brasileira. Esta visão de encantamento retrata todo o Brasil em sua vitalidade, progresso e civilização. É honra e glória defendermos, de armas na mão, esse imenso patrimônio. Contemplemos a Cidade Maravilhosa, para guardá-la bem na lembrança, pois a muitos não mais será dado revê-la, porque não voltarão …”

– Eu … não voltarei! exclama o sargento Boening, retendo a custo as lágrimas e com a voz embargada pela emoção.

Do alto do Corcovado, em meio à bruma, emergia o Redentor que, meigo e sereno, parecia abençoar os que partiam em defesa da civilização cristã periclitante nos campos europeus!

O colosso que era o “General Meigs” já transpusera a barra e começava a navegar em alto-mar. Da doce serra de Petrópolis, com aquelas montanhas tão familiares, só resta ao tristonho Boening a lembrança dos tempos de excursionista entusiasta. Agora o horizonte é céu e nada mais.

O navio viaja sob eficiente sistema de escolta, em razão da possível ação dos submarinos inimigos. Belonaves americanas e brasileiras acompanham-no, atentamente, à distância.

A bordo, é obrigatório o uso permanente dos salva-vidas e começam logo os exercícios de alarme para abandono da embarcação em caso de necessidade.

Os freqüentes exercícios da artilharia contra alvos aéreos constituem o passatempo preferido da tropa embarcada.

Mas chega a noite e, com ela, o escurecimento completo do navio. Os soldados são empilhados até ao alto em alojamentos fechados hermeticamente para impossibilitar a mais leve filtração de luz. O ambiente é desagradável, quase insuportável, o que não impede, no entanto, o sono de todos aqueles moços fortes, mas cansados com as emoções do dia.

Todos não: o nosso Boening, no seu beliche, insone, pensa na vida. E recorda, insensivelmente, o passado vivido, quase todo ele, na sua querida Petrópolis. Vê-se, então, menino ainda, numa manhã bonita como a daquele dia, de bolsa a tiracolo, saindo, alegre e descuidadamente, da casa da avenida 1º de Março, rumo à Escola Evangélica. Mamãe Frieda, no portão, dirige ao garotão as recomendações habituais: – Bube presta atenção ao estudo e … cuidado, muito cuidado, com os automóveis!

Depois, vinham-lhe as recordações da vida de escoteiro. Com que prazer, aos domingos e feriados, vestia o uniforme caqui, punha às costas o pesado equipamento e ia acampar nos arredores da cidade!

Vieram, a seguir, os estudos mais adiantados no Colégio São Leopoldo da cidade paulista de Rio Claro, interrompendo a “dolce vita” da terra natal.

Mas os anos passariam rapidamente e, aí por volta de 1938, no viço das 18 primaveras, via-se Bube trabalhando com os pais na confeitaria destes. E transformado, dentro em pouco, num confeiteiro de primeiríssima, muito dedicado aos interesses do estabelecimento – o que lhe valeria participar da firma como sócio.

Chegaria, no entanto, o tempo do serviço militar e ei-lo no Tiro de Guerra nº 12, onde se fez reservista do Exército Nacional no ano de 1938.

E viriam também os bons tempos do excursionismo, não havendo montanha da cidade que ele não escalasse alegremente.

Aquela primeira noite de bordo, no compartimento abafado e superlotado, parecia infindável. Mas, por fim, vencido pelo cansaço, Bube adormeceu profundamente, como os companheiros.

Petrópolis, como maltratas de saudade os que te deixam …

Estamos no ano de 1942. Francisco Luís Roberto Boening é um guapo rapaz de 22 anos, cumpridor de seus deveres, piedoso, próspero, enchendo de orgulho os pais e lançando chamas no coração de muita moça bonita.

É bem verdade que o mundo se acha às voltas com a segunda grande guerra, mas o Brasil, embora de relações cortadas com a Alemanha, o Japão e a Itália, permanecia calmo, e Petrópolis, então, era um mar de rosas. A vida, positivamente, estava para o Bube …

De repente – era agosto, o mês fatídico – estoura a notícia sensacional: navios brasileiros, cinco em dois dias, são torpedeados bem à vista de nossas praias e em requintes de perversidade. Vítimas desses atos de pirataria, sucumbiram mais de seiscentos patrícios, inclusive crianças. A alma brasileira vibra de indignação ante a covardia dos corsários alemães e italianos e todo o país é tomado por uma onda de revolta popular de extraordinárias proporções.

Era a guerra que o Brasil declarava à Alemanha e à Itália em 22 de agosto de 1942. Nasceu, então, a idéia de uma participação brasileira mais ativa no conflito, desagravando o povo do vil atentado. Daí, a Força Expedicionária Brasileira.

Boening foi dos primeiros reservistas convocados, sendo incorporado ao nosso 1º Batalhão de Caçadores. Ali, na 3ª Companhia, durante dois anos, faz com brilhantismo os cursos de cabo e sargento. Em setembro de 1944, classificado na Força Expedicionária Brasileira, é mandado servir no Centro de Recompletamento, órgão que reunia alguns milhares de expedicionários em pleno adextramento no morro do Capistrano, no Rio de Janeiro.

Agora, era a viagem para a guerra. Enquanto o Bube, enternecido, recordava o passado, o “General Meigs”, velozmente, se havia afastado da costa barsileira.

Adeus Pátria! Adeus Petrópolis! Adeus entes queridos!
Para nunca mais! …

A 7 de dezembro de 1944, exatamente na data do 3º aniversário da traição de Pearl Harbour, desembarcava em Nápoles, na Itália, o 4º Escalão da F. E. B. do qual Boening fazia parte. E por volta do Natal de 1944, instalava-se o 4º Escalão no vilarejo de Staffoli, sua reunião de destino e campo de atividade. Ali, continuou seu preparo técnico-psicológico, até ser transferido para o 11º Regimento de Infantaria que já se encontrava na zona de combate.

O dia 14 de abril de 1945 amanheceu lindo, com o céu azul sem manchas e a terra dourada pelo sol generoso.

A região levantina da bacia do Panaro, tímido córrego d’água que atravessa os vales entre as colinas dos Apeninos, oferecendo declives geralmente uniformes e vastos dorsos arredondados, apresentava-se calma e serena na manhã gloriosa da primavera européia.

A F. E. B. – a nossa valente Força Expedicionária Brasileira – ali se acha postada, pronta para agir. Cabe-lhe tomar o maciço de Montese, o formidável baluarte inimigo, dando início à grande ofensiva aliada da primavera.

São 10.15 horas. Soa, na retaguarda, a artilharia do general Cordeiro de Faria, quebrando aquela doce quietude matutina, e avançam, velozmente, as primeiras patrulhas brasileiras.

O ataque compreende duas fases distintas: a primeira, consistindo no lançamento de fortes patrulhas reforçadas por turmas de mineiros, destinada a capturar a linha Casone – Il Cerro – Possessione; e a segunda, constando de uma ação de ruptura com o intuito de dominar Montese.

A violenta preparação da nossa artilharia deu a impressão de que fora desencadeado o verdadeiro ataque.

A reação dos alemães brotou, por isso, rápida e enérgica. Os bombardeios pesados dos canhões e morteiros são lançados, uns sobre a nossa base de partida, e outros pretendendo alcançar os elementos em progressão.

Às 13 horas, encerrava-se esta primeira fase, com a conquista de todos os alvos determinados aos diferentes pelotões de reconhecimento.

O ataque propriamente dito, só se iniciaria, porém, às 13 horas, precedido, também, de compacta preparação da artilharia.

O 11º Regimento de Infantaria atacou com o III e I Batalhões, o primeiro dos quais, sob o comando do major Cândido Alves da Silva, ficou incumbido de realizar o esforço principal da operação.

A infantaria brasileira avançava com destemor, sempre apoiada e protegida pela nossa artilharia, reagindo o inimigo, porém violentamente. Redobram, em conseqüência, os esforços dos patrícios.

O nosso sargento Boening – bravo e destemeroso, como sempre – lá está na vanguarda da tropa do major Cândido. O jovem petropolitano conduzia sob seu comando, desassombradamente, um pugilo de bravos sob intenso fogo da infantaria adversária, através de campos minados e terríveis explosões de granadas dos morteiros de resistência. Tendo alcançado seu objetivo, manobrava Boening seu Grupo de Combate em verdadeiro inferno de ferro e fogo, quando é atingido em cheio por um projétil. Tomba à frente de seus homens mortalmente ferido e, ao ser socorrido, em meio a golfadas de sangue, seus lábios ainda conseguem balbuciar:

– Eu não posso mais avançar com meus companheiros. Sigam! Sejam felizes! …

Um lance dramático que, na voragem da luta, é a própria apoteose de Boening, o herói redivivo para a posteridade!

E os companheiros prosseguiram, resolutos e irresistíveis. À noite, tinham a posição em seu poder. A F. E. B. ocupava Montese, Serreto e Possessione, capturando 107 soldados inimigos e alcançando a glória de ser a tropa aliada que, no primeiro dia da grande ofensiva, conquistou as melhores posições.

Desgraçadamente, porém, positivara-se o pressentimento de Boening. Ele não voltaria a contemplar o cenário imponente da Guanabara, nem aquela montanhazinha, bem lá ao fundo, onde acaba a terra e começa o céu …

Vencemos a batalha de Montese e depois ganharíamos a guerra.

O soldado brasileiro foi, nos campos da Itália, aquele mesmo – destemoroso e eficiente – que se enchera de glórias em Lomas Valentina, Monte Caseros e Tuiti.

Irresistível no cumprimento do dever, bateu-se corajosamente, arrostou todos os perigos até o fim da jornada, quando, então, a vitória das nossas armas, elevando às alturas nossa Bandeira, passou a iluminar para a eternidade a face dos que tombaram pelo Brasil, defendendo-lhe a honra e a liberdade.

Jamais poderemos esquecer, pois, aqueles que, como o valente sargento Boening, deram suas vidas à Mãe-Pátria.

E guardemos, principalmente, as últimas palavras do nosso conterrâneo:

– Eu não posso mais avançar com os meus companheiros. Sigam! Sejam felizes! …

Paz! Paz! … acabou a guerra! …

Em fortes haustos – como diria o poeta – a humanidade respira, enfim, aliviada.

É maio de 1945, a vida renasce e tudo é alegria no mundo inteiro.

Petrópolis, emocionada, também comemora festivamente o acontecimento.

Dona Frieda Sixel Boening, no balcão da confeitaria, voltara a sorrir para os fregueses.

E, de tão contente, reunira em casa os amigos para, juntos, comemorarem – graças a Deus! – o fim da guerra.

As mães petropolitanas, em seus lares, passam, dali em diante, a aguardar, enternecidas, como as de todo o país, o regresso vitorioso dos filhos.

Todas? não, nem todas …

Num sobrado da rua 7 de Abril, bem ao contrário, só há desolação. Dona Frieda chora ali, inconsolável, a morte do filho.

Ela que até festa dera em casa, quando o pobre Bube já estava morto e sepultado na Itália! …

A notícia viera-lhe fria, brutal, inesperada.

Atendia, satisfeita da vida, não chegando para os cumprimentos, seus fregueses da confeitaria, quando surge o correio com carta registrada a ela endereçada. Abre-a sofregamente e lê:

“Bastante pezaroso, comunico-vos, de ordem do exmo. sr. ministro, o falecimento em operações de guerra na Itália , no dia 14 de abril do corrente ano, do 3º sargento Francisco Luiz Roberto Boening, da Fôrça Expedicionária Brasileira.
Lamento sinceramente ter de vos transmitir essa infausta notícia, mas é oportuno e confortador, principalmente para os parentes mais próximos, saber que o 3º sargento Francisco Luiz Roberto Boening em terra estrangeira soube honrar as tradições gloriosas do soldado brasileiro, demonstrando no campo de batalha nobres virtudes morais.

Entregue inteiramente ao serviço da pátria, cuja honra defendeu com o sacrifício da própria vida, deu assim um sublime exemplo de amor ao Brasil, tornando-se um legítimo orgulho e grande incentivo aos seus parentes, amigos, camaradas e compatriotas.

Perdeu, dêste modo, a Pátria um fiel e dedicado servidor e, por êsse motivo, apresento-vos, bem como à família do 3º sargento Boening, em nome do Exército, as mais sentidas e sinceras condolências. (A) Canrobert Pereira da Costa, general de brigada, secretário geral do M. G.”

Era demais. Dona Frieda cai desacordada e, carregada, é levada para casa.

Aquele forte e generoso coração baqueava pela primeira vez. E nunca mais se recuperaria.

Figura impressionante de mater-dolorosa, dona Frieda, no entanto, soube dominar, durante algum tempo, seu profundo abalo.

Assistiu, estoicamente, a todas as homenagens aqui prestadas aos pracinhas.

Vêmo-la, ainda hoje, através da fotografia – fisionomia grave, mas serena – tomando parte nas cerimônias cívicas.

Que fortaleza de espírito, que admirável resistência de mãe extremosa!

Mas, um dia … pobre dona Frieda! foi para o céu fazer companhia ao seu pobre Bube! …

E, finalmente, vejamos o que consta do Boletim Especial do Exército de 2 de dezembro de 1946, com respeito ao cidadão petropolitano Francisco Luís Roberto Boening nascido a 25 de maio de 1920.

“Como justa homenagem do Exército à inolvidável memória dos oficiais e praças que integraram a Fôrça Expedicionária Brasileira, em guerra na Itália, e que foram sacrificados em defesa da Pátria, constam neste Boletim Especial os seus nomes, identidade e alusão ao panegírico conquistado pela sua ação no cumprimento do dever militar

Desse modo, lhes prestamos o culto de nossa veneração, e permanecerá o exemplo tão edificante de seus feitos.

3º Sargento Francisco Luís Roberto Boening. Id – 1G 306897 – Classe 1920. 11º Regimento de Infantaria. Embarcou para além-mar em 23 de novembro de 1944. Natural de Petrópolis – Estado do Rio de Janeiro. Filho de Francisco Boening e d. Frederica Joana Boening, tendo como pessoa responsável d. Frederica Joana Boening, residente à rua 7 de Abril nº 557, Petrópolis – Estado do Rio de Janeiro. Faleceu em ação no dia 14 de abril de 1945, na Itália, e foi sepultado no cemitério Militar Brasileiro de Pistóia, na quadra B, fileira nº 11, sepultura nº 127, marca: lenho provisório. Foi agraciado com as Medalhas de Campanha, Sangue do Brasil e Cruz de Combate de 1ª classe. No decreto que lhe concedeu está última condecoração, lê-se: “O 3º Sargento Francisco Luís Roberto Boening comandava um Grupo de Combate nas ações ofensivas do III/11º R. I. em 14.IV.945, tendo lutado com denôdo e bravura. Depois de atingir o objetivo que lhe fôra determinado, e, orientando o seu G. C. de modo a provocar a admiração e o orgulho de sua tropa, foi, à frente da mesma, atingido mortalmente por um projétil inimigo, sucumbindo heroicamente na luta. No momento em que era transportado para um Posto de Socorro, pouco antes de expirar, teve ainda estas palavras que podem servir como lema para o soldado brasileiro: “Eu não posso mais avançar com os meus companheiros; diga a êles que sigam e sejam felizes”. É com orgulho que esta Unidade registra o nome do Sargento Boening entre aqueles que tombaram no campo de luta, por ter sabido cumprir tão heroicamente o seu dever para com a Pátria”.

Conterrâneo Francisco Luís Roberto Boening!
Como nós petropolitanos nos orgulhamos de ti!