RESGATES PETROPOLITANOS [ADRIEN DELPECH]
de Francisco José Ribeiro de Vasconcellos, Associado Emérito –

Adrien Delpech, cultor das letras e das artes precisa ser trazido à tona da memória desta urbe no ensejo do setuagésimo aniversário de sua morte.

Nascera ele na Bélgica, em 1867 e, em 1892, chegava ao Brasil no vigor de seus 25 anos.

Radicou-se no Rio de Janeiro. Com excelente formação humanista e dotado de atributos pedagógicos, não lhe fora difícil incorporar-se ao seleto corpo docente do Ginásio Nacional, que fora o Colégio Pedro II e que, passada a fúria demolidora do início da República, fora rebatizado com o nome do Imperador.

Delpech fora contemporâneo de um outro belga, Luis Cruls, que, no inicio dos anos noventa dos oitocentos chefiou a missão encarregada de levantar e demarcar a área onde deveria instalar-se a nova capital brasileira, projeto que só viria a furo sessenta anos depois com o advento de Brasília.

Este mesmo Luis Cruls, pai do escritor Gastão Cruls, estava aqui em Petrópolis, em 1899, regendo uma das cadeiras do Ginásio Fluminense, lamentavelmente de vida efêmera.

E foi Luis Cruls quem aproximou o professor Delpech destas serras, conforme o depoimento do filho deste, Paulo Weguelin Delpech, que eu conhecera no Rio de Janeiro no início da década de sessenta dos novecentos.

Encantado com o clima, a tranquilidade e a beleza da cidade, Adrien Delpech passou a veranear aqui , participando ativamente da vida intelectual desta urbe nas três primeiras décadas do século XX.

Adrien Delpech deixou-se impregnar dos encantos tropicais e procurou o quanto possível enfronhar-se na cultura brasileira. Interessado na música e nas artes plásticas, teve uma enorme predileção pela obra de Jean Baptiste Débret. Na literatuda dedicou-se escarafunchar a fecunda produção de Machado de Assis e as elaborações dos poetas românticos e parnasianismo . Relacionou-se com Raimundo Corrêa, Alberto de Oliveira e Olavo Bilac.

Iniciava-se o ano de 1929, ano difícil para o Brasil e para o mundo. Crise à vista. Mas aqui em Petrópolis, com o início da estação de veraneio, tudo era alegria e sorriso. Festas, promoções culturais, recreativas, beneficentes. No Tênis Clube, a “jeunesse dorée” dava a nota bizarra aos concursos de “prince” e “princesse” “de la saison”. Enfim um luxo e uma enorme exibição de bom gosto e de fino trato.

Era o tempo da Associação de Ciências e Letras, fundada em 1922 e que em breve resolver-se-ia na Academia Petropolitana de Letras. Presidia a entidade D. Nair de Tefé Hermes da Fonseca, mulher de muitos dotes intelectuais e artísticos.

No dia 20 de janeiro de 1929 a Associação abriu suas portas para receber seu novo membro, o professor Adrien Delpech, que seria saudado pelo Dr. Alcindo de Azevedo Sodré, médico, político, escritor, jornalista, que na altura redatava o “Jornal de Petrópolis”. Mais tarde seria o propagandista do 16 de Março, o idealizador do Museu Imperial e seu primeiro diretor, cargo que ocupou até a sua morte em 1952.

A propósito do Dr. Alcindo, disse D. Nair de Tefé na abertura dos trabalhos naquela data memorável: “Além das ligeiras referências que acabo de formular acerca do elevado conceito em que é tido o ilustre recipiendário (no caso o professor Delpech), esta sessão torna-se igualmente notável por ser ele saudado na cerimônia de recepção pelo possuidor de uma das mais brilhantes mentalidades que se “ocultam”em Petrópolis – o Dr. Alcindo Sodré – cuja personalidade excepcionalmente complexa, reúne em si as mais invejáveis qualidades de espírito e de coração.”

Fora o Dr. Alcindo um dos proponentes do professor Adrien Delpech para membro da associação de Ciências e Letras e o novo associado escolheu na altura para patrono de sua carreira o pintor Jean Baptiste Débret. Lamentavelmente não me foi possível encontrar na imprensa da época a íntegra dos discursos dos protagonistas da festa de 20 de janeiro de 1929. Com esse feito Adrien Delpech uniu ainda mais o seu nome à cidade de Petrópolis.

Faleceu ele no Rio de Janeiro a 23 de maio de 1942 e foi sepultado no cemitério São João Batista.